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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O ritual do habitual ainda vai tendo surpresas

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Os RITUAL HOWLS não foram a primeira banda dos últimos anos a cruzar territórios pós-punk, industriais ou darkwave, nem sequer a mais inventiva nessa mistura. Mas o trio de Detroit tem sido dos mais prolíficos e coesos desde o EP de estreia, editado em 2012, ao qual sucederam mais quatro, num percurso que também já inclui três álbuns.

 

O quarto longa-duração, "Rendered Armor", chega esta sexta-feira e parece seguir os passos de "Their Body", EP de 2017, a julgar pelas canções reveladas nas últimas semanas. A voz de barítono de Paul Bancell não abdica de um negrume que continua a avivar memórias dos Joy Division ou dos Bauhaus, mas também da escola tão ou mais turva de Mark Lanegan, e o novelo instrumental continua a partir de referências igualmente familiares sem que o resultado seja anacrónico - como nomes mais recentes e comparáveis, dos Preoccupations a The Soft Moon, têm mostrado à sua maneira.

 

O imaginário de um certo interior norte-americano, com descendência de bandas sonoras de westerns, entre a atmosfera de baixo e sintetizadores carregados, leva a que alguns também descrevam esta música como uns Calexico góticos. À semelhança de outros, é um rótulo redutor, embora talvez possa funcionar como porta de entrada para esta discografia. De qualquer forma, nada como ouvir "Thought Talk", "Alone Together" (videoclip abaixo) e a mais recente "Devoured Decency" para tirar as dúvidas e abrir caminho para o novo álbum.

 

 

Miragens de um futuro com sombras do passado

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Ao longo de dois álbuns, os AUTOMELODI mostraram-se não só adeptos da synth-pop e da cold wave como se juntaram à lista dos que resgataram, com maior conhecimento de causa, algumas dessas heranças dos anos 80. Nem o álbum homónimo, de 2010, nem "Surlendemains Acides", editado em 2013, tentaram disfarçar muito quer a descendência da fase inicial dos Depeche Mode ou Human League quer a aproximação ao legado dos Indochine ou Etienne Daho (com o francês enquanto idioma dominante das letras).

 

O terceiro capítulo do projecto de Xavier Paradis, que agora também conta com o guitarrista Dillon Steele, promete aprimorar essa linguagem enquanto reforça o electrónico com o eléctrico, conforme avança a editora canadiana Holodeck Records. De "Mirages au futur verre-brisé", agendado para 6 de Maio, já tinham sido divulgadas as óptimas "La Poussière" e "Toujours de jamais (hors-temps)", que confirmaram essa intenção em canções tão dançáveis como soturnas, ao nível do melhor da dupla de Montreal.

 

"LES MÉTROS DISPARUS", o novo single, mantém o entusiasmo em torno do regresso entre um ritmo metronómico e uma atmosfera enigmática. E conta com uma convidada especial, Liz Wendelbo, vocalista dos Xeno & Oaklander, outro nome que tem sabido retomar a vertente mais sintética e densa da pop de há três décadas - e que também está de volta com um novo álbum, "Hypnos", editado há poucos dias.

 

As digressões das duas bandas vão, aliás, cruzar-se em algumas datas - como a de 25 de Maio, noite na qual partilham um palco em Paris. Por agora, vale a pena espreitar o encontro no novo videoclip dos AUTOMELODI, realizado por Kaspar’89 e cuja inspiração vai da estética VHS a realidades distópicas... sem esquecer, lá está, o lado mais surreal dos anos 80:

 

 

Quando o título não engana

Oito anos depois de "Gravity the Seducer" e 20 (!) após a sua formação, os LADYTRON regressam com um álbum homónimo e mais interessados em consolidar uma personalidade do que em propor grandes viragens. Mas também não precisam de mudar muito quando continuam a oferecer alguma da melhor pop electrónica.

 

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A espera foi longa, e ultrapassou largamente qualquer intervalo entre as edições de álbuns anteriores. Nos tempos apressados de hoje, a distância entre "Gravity the Seducer" (2011) e "LADYTRON" (2019) parece mesmo uma eternidade, sobretudo no calendário pop-rock. Ainda assim, na música do quarteto inicialmente radicado em Liverpool e agora espalhado pelo mundo, pouco parece ter mudado.

 

Revelados através da synth-pop analógica do muito promissor "604" (2001), com derivação em "Light & Magic" (2002), os LADYTRON ganharam contornos mais agrestes em "Witching Hour" (2005), que continua a ser o seu melhor álbum e aquele que passou a acolher as guitarras entre os ingredientes principais. "Velocifero" (2008) manteve essa atmosfera vertiginosa, tendencialmente distorcida, e parece ser daí que o novo disco partiu - até mais do que seu antecessor imediato, que optava quase sempre por ambientes etéreos.

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A banda apresentou "LADYTRON" como um registo mais pesado e urgente do que "Gravity the Seducer" e o alinhamento confirma-o, depois de os primeiros singles também o terem sugerido - uma mudança consolidada pela produção de Jim Abbiss (que já tinha colaborado em "Witching Hour") e pela percussão de Igor Cavalera, ex-baterista dos Sepultura. "There's no law/ There's no God/ There's no harm/ There's no love", entoava Helen Marnie, de forma distante, em "The Animals", canção densa q.b. e a denunciar um pessimismo mantido em "The Island" - "We are savages", garantia aí a vocalista, com a melancolia a temperar um exemplo de pop electrónica orelhuda.

 

Estes dois avanços nem estão entre o melhor que o disco oferece, mas são representativos do tom que percorre o alinhamento, não só a retomar como a reforçar o lado mais opressivo e encorpado de "Velocifero". Às primeiras audições, "LADYTRON" não parece um álbum tão consistente como esse, e nos primeiros e últimos temas agrada sem impressionar tanto como talvez se esperasse ao fim de oito anos de espera. Mas lá pelo meio encontramos algumas canções ao nível das que ajudaram a fazer do grupo uma referência entre a pop electrónica deste milénio.

 

"Deadzone" talvez seja a maior pérola da versão de 2019 do quarteto, numa aliança perfeita de ritmo e melodia, da voz inquieta de Helen Marnie e de sintetizadores sombrios, num portento de alma gótica. É mesmo canção a juntar às melhores dos LADYTRON, feito do qual poucas bandas da sua geração poderão orgulhar-se ao sexto álbum. Mira Aroyo, a segunda vocalista, protagoniza outro grande momento na trepidação industrial de "Paper Highways" e faz perguntar porque é que a ouvimos tão poucas vezes desta vez - sobretudo quando "Horrorscope", a outra faixa cantada por ela, é o único escorregão do disco.

 

 

 

 

O que também se ouve menos do que o habitual no álbum é o cruzamento das duas vozes, dinâmica que estava entre os elementos mais reconhecíveis e aliciantes da música da banda. Marnie dá conta do recado sozinha na maioria das faixas, mas essa falta de contraste tímbrico leva a que alguns momentos talvez fizessem mais sentido nas suas aventuras a solo ("Tomorrow Is Another Day", "Tower of Glass" ou a já referida "The Island" não são más canções, mas também não mostram os LADYTRON mais memoráveis).

 

Temas como o breve "Run", um dos menos instrumentalmente saturados, ou o explosivo "You've Changed", talvez o episódio mais dançável e imponente, com potencial para ir ainda mais longe ao vivo, mostram o grupo ao seu melhor nível - capaz de expandir a sua linguagem em vez de se limitar a retomá-la.

 

Canções como essas ou como "Figurine", outro caso de conjugação brilhante entre nervo e sensibilidade pop, lembram que o regresso dos LADYTRON já fazia falta há muito e que ainda não surgiu outra banda capaz de ocupar o seu espaço. E se até valeu a pena ouvir Marnie a solo (no primeiro álbum, pelo menos), Aroyo com os The Projects e John Foxx e The Maths, Daniel Hunt enquanto produtor das novas canções dos Lush ou do arranque dos Tamoios e acompanhar o percurso de fotógrafo de Reuben Wu, estes novos (ou já nem tanto) "fab four" de Liverpool continuam a fazer muito sentido em conjunto.

 

3,5/5

 

 

Fundo de catálogo (112): Yeah Yeah Yeahs

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Depois de uma estreia marcante e de um segundo álbum à altura, à terceira os YEAH YEAH YEAHS também não desiludiram. Editado em Março de 2009, "IT'S BLITZ!" mantém-se um dos álbuns mais contagiantes do seu tempo.

 

Atirados para o caldeirão de bandas que revisitaram o garage e/ou o pós-punk em inícios do milénio, os YEAH YEAH YEAHS destacam-se hoje não só por serem dos sobreviventes dessa vaga mas por terem uma das discografias mais meritórias e consistentes.

 

Se em muitos casos a surpresa se esgotou ao primeiro ou ao segundo álbum, o percurso do trio nova-iorquino foi capaz de manter uma frescura e versatilidade que uns Strokes ou uns Interpol (já para não falar de inúmeras bandas da segunda ou terceira divisão) foram perdendo pelo caminho.

 

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"Mosquito" (2013), o quarto álbum, será o menos consensual, embora não envergonhe o que está para trás e voltou a dar provas de um grupo decidido a não se repetir. Mas também era difícil manter a coesão do terceiro, um ponto de encontro revigorante entre a descarga de "Fever to Tell", de 2003 (sem nunca chegar a aproximar-se da crueza e suor dessa estreia) e a faceta contida do belo "Show Your Bones", de 2006.

 

O peso das guitarras, dominante nesses dois primeiros discos, cedeu espaço aos sintetizadores em "IT'S BLITZ!", numa transição que não era propriamente inesperada entre outras bandas indie da altura - dos Franz Ferdinand aos Bloc Party ou Kaiser Chiefs -, ainda que poucas a tenham feito tão bem como Karen O, Brian Chase e Nick Zinner. Os Strokes também seguiriam por esse caminho em "Angles" (2011), sem chegarem a um alinhamento especialmente memorável, e talvez só "Reflektor" (2013), dos Arcade Fire, tenha resultado tão inspirado numa viragem semelhante.

 

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"Zero" e "Heads Will Roll", simultaneamente os dois primeiros singles e temas de abertura do álbum, confirmam hoje o estatuto de clássicos instantâneos que insinuavam na altura. São também dois dos momentos mais vertiginosos não só do disco mas de toda a carreira dos YEAH YEAH YEAHS, o que não é dizer pouco.

 

Depois de ter sido comparada a Siouxsie Sioux ou à faceta mais agreste de PJ Harvey na altura da estreia, Karen O mostrou-se descendente espiritual do hedonismo de uma Debbie Harry em "Zero" (e a canção também tinha ecos das vitaminas pop dos Blondie) enquanto retomou a sua postura mais caótica em "Heads Will Roll", single demolidor e alvo de várias remisturas que o tornaram numa coqueluche das pistas de dança (tanto em terreno hipster como EDM e mais além).

 

 

 

 

Esses cartões de visita foram tão impactantes que às vezes parecem ofuscar tudo o resto que "IT'S BLITZ!" tem para oferecer. E é muito, mesmo que concentrado em apenas dez temas (vale a pena procurar as faixas bónus de algumas edições, "Faces" e "Clap Song", que aprofundam a faceta espirituosa do disco).

 

O álbum nunca volta a ser tão efusivo como no arranque, mas isso está longe de ser um problema quando oferece canções do calibre de "Skeletons" e "Runaway", óptimos desenvolvimentos da vertente intimista de "Show Your Bones", enquanto que "Dull Life" ou "Shame and Fortune" asseguram a descendência do nervo punk. Entre esses extremos, "Soft Shock" e "Hysteric" apresentam uns YEAH YEAH YEAHS tão encantatórios como enérgicos - e maduros no melhor sentido do termo, sem se refugiarem na sua zona de conforto. Grande forma de encerrar uma das melhores trilogias do rock dos anos 00, este "IT'S BLITZ!".