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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma verdadeira edição especial

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Os singles não enganaram: "EBM", o novo álbum dos EDITORS, editado no final de Setembro, é facilmente o mais conseguido dos britânicos desde a estreia, "The Back Room", de 2005.

Avanços como "Heart Attack", "Karma Climb" e "Kiss" atiraram-se a territórios mais expansivos, frenéticos e electrónicos do que o habitual na banda de Birmingham e o alinhamento do sétima longa-duração continua esse caminho - uma surpresa quando já não se esperava a reinvenção de um nome que nem foi dos imprescindíveis da vaga pós-punk de inícios do milénio.

O facto de o novo elemento do agora sexteto ser Benjamin John Power (mais conhecido como Blanck Mass e metade dos Fuck Buttons), após uma colaboração como produtor no disco anterior, "Violence" (2018), não será mera coincidência. Quem ouviu álbuns como "Dumb Flesh" (2015) ou "Animated Violence Mild" (2019) talvez nem fique tão surpreendido com o caldeirão que junta estilhaços da música de dança mais robusta a acessos industriais, embora a música dos EDITORS parecesse pouco condizente com essas aventuras sonoras.

"PICTURESQUE", o novo single, é mais uma prova de que esta foi uma escolha feliz - e um dos momentos mais vigorosos do disco. O videoclip apresenta-o numa versão mais curta do que a do álbum (ainda a mais aconselhável) enquanto recupera imagens da digressão europeia, que não passou por Portugal.

Apesar de o grupo ter actuado por cá em Março, no Maia Compact Records Fest, ficou a faltar a estreia do disco ao vivo, mas 2023 está aí à porta e não falta espaço para novas datas numa agenda para já mais concentrada no Reino Unido.

Um hino (explosivo) à empatia

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A postura feminista faz parte do ADN das DREAM WIFE desde as primeiras canções do trio - a banda nunca escondeu que a escola riot grrrl e figuras como Kathleen Hanna (Bikini Kill, Le Tigre) são das suas maiores referências -, mas nunca se expressou de forma tão directa e visceral como no novo single.

"Ya boys gonna let the girls play or are they merely ornaments on display?", questina a vocalista Rakel Mjöll em "LEECH", sem esperar uma resposta enquanto dispara um dos manifestos rock mais portentosos do momento. "Just have some fucking empathy", repete aos gritos.

Entre crescendos e explosões de guitarras, o primeiro tema do grupo desde o segundo álbum, "So When You Gonna..." (2020), é um exercício de catarse descrito como um hino à tolerância. O tom enraivecido parte directamente de audições atentas de discos de Patti Smith e PJ Harvey (da fase austera de "Rid of Me"), que foram a banda sonora quotidiana do trio de uma islandesa e duas britânicas durante o reencontro criativo.

Apesar dessa influência assumida, a canção parece estar a meio caminho entre o spoken word tenso de Sinead O'Brien (uma das revelações do ano) e a vertigem dos Yeah Yeah Yeahs de outros tempos. E também está substancialmente distante de singles anteriores do grupo, como "Lolita" ou "Somebody". Se é sinal de uma viragem a confirmar num terceiro álbum, ainda não sabemos, mas chega e sobre para aplaudir este regresso:

De uma estreia marcante à ressaca de uma pandemia

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Quase 30 anos depois de "Leftism" (1995), álbum que marcou a música de dança do seu tempo como poucos, os LEFTFIELD estão prestes a editar aquele que será apenas o seu quarto disco de originais. "This Is What We Do" vai chegar ainda em 2022, a 2 de Dezembro, e sucede ao interessante mas discreto "Alternative Light Source" (2015) - neste percurso, de resto, nenhum capítulo esteve perto de fazer sombra ao primeiro.

Conjunto de canções geradas na ressaca da pandemia, é também dos casos em que a sonoridade acaba por traduzir os efeitos do confinamento: seja o do trauma ou de um novo olhar sobre o amor, diversidade ou cura. E também traz ecos da vida pessoal de Neil Barnes, a metade da dupla britânica que faz parte do projecto desde o início (a outra é Adam Wren, que substituiu o cofundador Paul Daley em 2010). A ameaça de um cancro, o processo de divórcio e uma fase de depressão tiveram ressonância, avança a banda, num disco igualmente marcado pelo luto - em especial o de Andrew Weatherall, figura de proa da electrónica britânica dos anos 90 a quem o disco é dedicado.

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Como todos os antecessores, "This Is What We Do" não dispensa colaborações. Earl Sixteen, vindo do reggae, volta a juntar-se aos londrinos depois de ter dado voz a um dos clássicos absolutos de "Leftism", "Release the Pressure". A ele juntam-se a escritora e poetisa Lemn Sissay e Grian Chatten, vocalista dos Fontaines D.C., autores de um dos melhores álbuns de guitarras do ano. Mas em "FULL WAY ROUND" o irlandês troca o rock e o pós-punk por ritmos que partem do breakbeat e que acomodam o seu spoken word imediatamente reconhecível.

Exemplo de tensão pós-milénio, o tema é o novo (e o mais aliciante) single de avanço do disco - depois de "Pulse" e "Accumulator", instrumentais propulsivos e eficazes -, deixando uma crónica do caos urbano que, mais do que os próprios LEFTFIELD, lembra alguns dos conterrâneos e colegas de geração do duo (dos Prodigy aos Underworld ou aos mais esquecidos Lo Fidelity Allstars). O videoclip propõe uma versão editada, mas também vale a pena ouvir a original.