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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Cuidado com este rapaz

Boy Harsher

 

Apesar de terem um percurso relativamente recente, os BOY HARSHER impuseram-se como um dos nomes de culto de uma pop electrónica negra e enigmática, vincada por contornos industriais e darkwave. "Yr Body is Nothing" (2016), o álbum de estreia, confirmou as boas expectativas do EP "Lesser Man" (2014) e torna legítimo que os próximos capítulos do projecto de Augustus Muller e Jae Matthews sejam aguardados com atenção.

 

Não vai ser preciso esperar muito mais para o segundo disco: "Careful" foi anunciado para 1 de Fevereiro de 2019 e já tem digressão garantida para a América do Norte e Europa nos primeiros meses do ano. Portugal está de fora da agenda, pelo menos para já, mas seria uma experiência interessante ver a dupla de Massachusetts na discoteca Berghain, em Berlim, por exemplo (a 5 de Março).

 

Quem já está familiarizado com esta música não deverá ficar surpreendido com os temas que inspiram as novas canções. Do trauma da perda à tentativa de escapismo, o álbum parte de experiências pessoais ligadas à morte e à doença mental e deverá reforçar o mergulho na synthpop e na EBM. A primeira amostra confirma isso mesmo: "FACE THE FIRE", densa mas dançável, é mais uma confecção electrónica de digna colheita, e já com videoclip - também ele na linha de algumas estéticas mais sombrias de meados dos anos 80:

 

 

É preciso ter calma (mas ir dançando na mesma)

Jake Shears 2018

 

O primeiro álbum a solo de JAKE SHEARS, homónimo, está entre as boas estreias do ano, sobretudo para quem tinha saudades da fase inicial dos Scissor Sisters. E uma das canções que mais se aproxima desses tempos é "EVERYTHING I'LL EVER NEED", que arranca como uma balada e a meio ganha outro embalo rítmico, algures entre os acessos mais vitaminados dos Queen, Elton John ou mesmo Rufus Wainwright.

 

Não admira, por isso, que o tema tenha sido escolhido como novo single do disco, depois de "Creep City" e "Big Mushy Moustache", até porque o videoclip, que tem um cabaret e as ruas de Nova Orleães como cenário, oferece mais uma oportunidade para atestar as capacidades performativas do nova-iorquino.

 

A canção nasceu numa fase com a depressão à espreita e "é sobre saber que temos todas as ferramentas de que precisamos para sermos bem sucedidos e ultrapassarmos as dificuldades", como explicou SHEARS à Paper Magazine. "Parece que consegui", confessou. E será difícil discordar, a julgar por esta e outras aventuras em nome próprio:

 

 

Para cima é que foi o caminho

Up

 

Como continuar depois da saída de Bill Berry? A resposta a uma das fases mais conturbadas dos R.E.M. chegou com "UP", 11.º e último grande álbum da banda de Athens, editado há 20 anos.

 

"Foi como um cão obrigado a andar só com três patas", descreveu Michael Stipe a propósito da saída do baterista de sempre de um grupo que manteve a formação intacta entre 1980 e 1998. Mas ao chegarem à idade da maioridade, os R.E.M. tiveram de lidar com um novo baptismo de fogo quando ficaram reduzidos a um trio. Não que fosse especialmente difícil contratar outro baterista - as sessões de gravação de "UP" até contaram com dois, entre vários músicos adicionais -, o problema foi como trabalhar uma dinâmica até então completamente assente numa conversa a quatro.

 

A solução deu-se com aquele que, 20 anos depois, pode ser visto como um dos passos mais aventureiros do percurso do grupo, seguindo algumas pistas do já de si exploratório "New Adventures in Hi-Fi" (1996) embora com um resultado mais focado. Com a saída do baterista, ficou aberta a porta para um reforço de teclados e drum machines, viragem que a partir de Outubro de 1998 despertou reacções algo tépidas mas que não só envelheceu muito bem como motivou o último grande conjunto de canções dos R.E.M..

 

LONDON, UNITED KINGDOM:  Members of the American rock group R.E.M from L Michael Stipe, Mike Mills and Peter Buck poses for media during a photocall in London, 27 April 2001. The group are in London to promote their newly released album and to play at the

 

Apesar de "Reveal" (2001), "Around the Sun" (2004), "Accelerate" (2008) e o derradeiro "Collapse Into Now" (2011) não envergonharem uma discografia consistente como poucas das últimas décadas, Michael Stipe, Peter Buck e Mike Mills não voltariam a atirar-se de cabeça a um corte tão abrupto com o que estava para trás. Em "UP", houve espaço para ambientes na linha de algumas viagens sensoriais de Brian Eno (logo na meditativa e atípica "Airportman", a abrir) que conviveram pacificamente com o formato clássico de canções como os singles "At My Most Beautiful" (bela descendente da escola "Pet Sounds", dos Beach Boys) e "Daysleeper" (talvez a ligação mais directa aos R.E.M. canónicos).

 

Do contraste entre espiritualidade e tecnologia, um dos temas que mais inspiraram as letras de Stipe, nasceu também a pop de câmara de "Suspicion", com uma aura nocturna tornada mais inquieta em "Walk Unafraid" e "Diminished", dois dos pontos altos do disco e pérolas maiores da fase final do grupo. Outra é "Lotus", de longe a canção mais orelhuda sem abdicar do risco: a saturação instrumental, que cruza bateria, guitarra, sintetizadores, teclados e cordas, leva ao maior concentrado de adrenalina de um álbum para ir conhecendo e revisitando sem pressas.

 

"Lotus" também sugeria que, como outras bandas da primeira divisão de finais dos anos 90 - dos U2 ("Pop") aos Depeche Mode ("Utra", depois do mais acústico "Songs of Faith and Devotion") , passando pelos Smashing Pumpkins ("Adore") -, os R.E.M. teriam na electrónica a pista mais forte para o seu caminho. Mas "UP", de tão contido, até hermético ao primeiro impacto, dificilmente será exemplo de uma banda veterana a tentar capitalizar a última tendência. É antes uma das abordagens mais personalizadas e subestimadas a algumas ferramentas (então) não tão habituais no rock de grande escala, que talvez só peque pelo alinhamento demasiado longo - 14 faixas e mais de uma hora de música, excesso típico de muitas edições da era do CD. Por outro lado, quando termina com a marcha tão melancólica como arrebatadora de "Falls to Climb" sem passar por uma única canção dispensável até lá, esse é certamente um mal menor... 

 

 

 

 

 

Cinquenta sombras mais negras

SRSQ

 

Kennedy Wenning já se tinha feito ouvir num disco este ano: "Amends", o segundo e último dos Them Are Us Too, que conheceram um final tão abrupto como trágico quando Cash Askew, metade da dupla norte-americana, morreu num incêndio num armazém em Okland, no final de 2016.

 

Se o processo de luto acabou por inspirar inevitavelmente as derradeiras canções do duo, o cenário repete-se no álbum de estreia a solo de SRSQ, projecto paralelo de Wenning que ganha agora outro peso. A morte da ex-colega e amiga é o motor de uma nova colecção de canções pintadas de negro e comandadas por uma voz já habituada a ambientes com heranças new wave e góticas, que aqui volta a mostrar-se confortável entre outros ecos de uns certos anos 80.

 

Ao longo de boa parte do alinhamento, "Unreality" traz à memória, como já acontecia nos discos dos Them Are Us Too, os tempos áureos da 4AD e em especial dos Cocteau Twins, um dos pilares da editora. Mas o álbum é mais intrigante quanto mais se vai afastando dessa influência assumida, sobretudo na recta final e na entrada em cena de "PERMISSION".

 

Com um arranque no qual a voz surge processada e em territórios próximos do canto gregoriano, a canção vai ganhando dinamismo rítmico e apelo dançável sem abdicar da estranheza, a meio caminho entre a darkwave a a synthpop, sugerindo um virar de página mais versátil nos próximos passos do projecto. O videoclip é fiel a este híbrido atormentado e eufórico, com a própria Wenning a passar por uma noite que não fica a dever nada à do Halloween - mas que ainda assim não parece intimidá-la muito:

 

 

À grande e à francesa

Daisy Mortem 2018

 

Vampiro Maracas e Cindy Bluray descrevem os DAISY MORTEM como uma banda entre a Eurovisão e o apocalipse, mas no novo single a dupla francesa não está especialmente festivaleira. "ARÊTES" é, pelo contrário, um dos maiores vendavais sonoros do projecto que tem pegado em estilhaços electro ou punk para ir semeando (e às vezes celebrando) o caos.

 

Foi assim nos EPs "Better!Better!Better!" (2016) e "La vie c'est mort" (2018) e promete continuar a ser no primeiro álbum, "Fait-Divers", ainda sem data de lançamento revelada. Confirmada está, no entanto, a próxima digressão do duo de Bordéus, que entre Novembro e inícios de Dezembro vai passar por França, Espanha e Portugal - Porto (local a anunciar), Lisboa (Aposentadoria) e Coimbra (Salão Brazil) vão receber o grupo nos dias 8, 9 e 10 do próximo mês, respectivamente.

 

Com actuações conhecidas por elevarem a distorção e crueza palpáveis nos discos, Maracas e Bluray antecipam alguma dessa atmosfera no novo videoclip - tal como a canção, mais apocalíptico do que eurovisivo - e o nível de fúria aumenta consideravelmente nas remisturas de Signor Benedick the Moor e Vorace. Por estes lados, o french touch é mesmo tudo menos suave:

 

 

Foto: Quillec Eva