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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Pais & filhos (italianos, mas de apelo universal)

Depois de ter arrancado em Lisboa no início do mês, a FESTA DO CINEMA ITALIANO passa agora por Almada, Leiria e Tomar. Mas há pelo menos dois filmes estreados na capital que mereciam mais salas.

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"MAGARI", de Ginevra Elkann: Estreia nas longas-metragens de uma realizadora que tinha assinado apenas uma curta, há mais de quinze anos, e que se tem destacado sobretudo enquanto produtora (de títulos como "Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro"), esta comédia dramática parcialmente auto-biográfica é uma prova surpreendente e apaixonante de sensibilidade aliada a um sentido de observação aguçado.

Crónica das férias de Natal de três irmãos (entre os 8 e os 14 anos) que partem de Paris, onde vivem com a mãe, para uma temporada italiana com o pai e a sua nova companheira, "MAGARI" é um belíssimo olhar sobre o crescimento, a (i)maturidade e dinâmicas familiares (dis)funcionais ancorado num elenco em estado de graça e com personagens à altura.

Alba Rohrwacher e Riccardo Scamarcio encarnam os dois adultos protagonistas, com interpretações que mostram porque é que são dos melhores actores italianos da sua geração (curiosamente também contracenam no novo filme de Nanni Moretti, o menos estimulante "Três Andares", em exibição por cá), mas os três miúdos não lhes ficam atrás (Oro De Commarque, Ettore Giustiniani e Milo Roussel, nomes a acompanhar), e sem esse equilíbrio este olhar sobre a memória ou a nostalgia, ambientado em inícios dos anos 90, não seria tão cativante.

Ginevra Elkann sai-se especialmente bem quando contrasta as visões do mundo dos três irmãos (a ingenuidade da mais nova, o deslumbramento do do meio e a perspicácia do mais velho) com uma perspectiva adulta, mesmo que boa parte dos adultos desta história seja mais falível do que responsável. E mantém um balanço difícil entre luminosidade e melancolia, não forçando nem o humor nem o drama, embora não escape a algumas conveniências de argumento lá mais para o final. Mas sem nunca trair a natureza das personagens nem a espontaneidade e sinceridade que emanam de uma das revelações do ano cinematográfico português (estreada no Festival de Locarno em 2019 e a pedir acesso ao circuito comercial entre nós).

4/5

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"PICCOLO CORPO", de Laura Samani: Vencedor da competição de Melhor Filme da Festa deste ano, este estudo de personagem está muito longe do perfil de crowd-pleaser de "Magari", mas deixa tantos ou mais sinais de uma voz autoral que vale a pena conhecer.

Relato de uma "mãe coragem" que insiste numa jornada arriscada para salvar a alma do seu bebé, morto à nascença, tentando ressuscitá-lo momentaneamente para que seja baptizado e não fique condenado ao Limbo, a primeira longa-metragem de uma realizadora com escola nas curtas e documentários é uma ode à resiliência feminina e à abnegação da maternidade feita num curioso registo de road movie de época (decorre numa pequena comunidade piscatória da Itália de inícios do século XX) cruzado com acessos de simbolismo, esoterismo e realismo mágico.

Laura Samani nem sempre gere o ritmo do modo mais envolvente e talvez recorra de forma excessiva à câmara à mão, mas tem duas presenças fortes no centro da narrativa, Celeste Cescutti e Ondina Quadri, além de desenhar uma parábola com uma carga sensorial inatacável, do sentido de espaço à sonoplastia (a tirar partido do som do mar e do vento, sem banda sonora adicional), da reconstituição de época singular e palpável à profusão de dialectos (que se vão sucedendo à medida que a protagonista muda de região). E por muito cru e angustiante que o cenário se torne, a integridade desta mãe obstinada impede que caia no miserabilismo, apesar de se arriscar a ser algo hermético para alguns - sintoma de um filme mais fácil de respeitar e até de admirar do que de aderir sem reservas.

3/5

O que é que a italiana tem?

A 14.ª edição da FESTA DO CINEMA ITALIANO já arrancou e pertence quase inteiramente às mulheres, que vão estar em destaque em várias salas do país nas próximas semanas. Entre novidades e clássicos, há muitas a (re)descobrir.

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Sophia Loren, Monica Vitti, Anna Magnani e Claudia Cardinale são algumas das divas do cinema italiano homenageadas ao longo de Novembro, numa edição que, apesar de tudo, foi inaugurada com um filme de um realizador: "Três Andares", o novo de Nanni Moretti, que chega esta quinta-feira ao circuito comercial português.

Além delas, a Festa do Cinema Italiano recorda a cantora Rafaella Carrà, não só com uma comédia musical mas também através de uma festa temática Italo Disco, e as mulheres estão ainda em foco (e algumas também atrás das câmaras) em boa parte das estreias da programação deste ano, que esta semana passa por Lisboa, Porto, Coimbra, Beja, Cascais, Alverca e Penafiel.

Na capital, há muita oferta diária até dia 10 de Novembro, no São Jorge, Cinemateca, Nimas, El Corte Inglés e Culturgest. E pelo menos parte dela merece atenção, como o sugerem as cinco propostas abaixo, todas novidades e maioritariamente no feminino, ordenadas pela data de exibição:

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"MAGARI", de Ginevra Elkann: Alba Rohrwacher e Riccardo Scamarcio costumam ser bons motivos para se prestar atenção a um filme, mas não falta quem garanta que há outros nesta primeira obra revelada no Festival de Locarno em 2019. Contada pela perspectiva de uma menina de oito anos, é um retrato de desagregação familiar dado em tons de comédia dramática, que arranca quando três irmãos que vivem com a mãe, em França, vão passar uma temporada italiana com o pai.

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"SHOOTING THE MAFIA", de Kim Longinotto: A máfia continua a ser indissociável de algum cinema italiano, e nem sempre através da ficção. Neste caso, a ligação faz-se com um olhar documental focado na siciliana Letizia Battaglia, fotojornalista cuja carreira foi atravessada pelos efeitos da Cosa Nostra na sua comunidade. Assinado por uma realizadora britânica com uma longa experiência nos documentários, o filme cruza fotografias a preto-e-branco, filmagens de arquivo raras, filmes clássicos italianos e memórias da fotógrafa. Battaglia estará presente na sessão (no Nimas) e tem ainda uma exposição de entrada livre com o fotógrafo Roberto Timperi ("Mafia Passione… Amore", na Casa do Capitão).

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"PICCOLO CORPO", de Laura Samani: Estreada na Semana da Crítica do Festival de Cannes, esta primeira obra que decorre na Itália de 1900 traça a jornada de uma jovem mãe cuja bebé nasceu morta e que, de acordo com a sua comunidade, está condenada ao Limbo por não poder ter sido baptizada. A menos que possa ser ressuscitada momentaneamente, num lugar distante, o que leva este drama a ganhar traços de road movie à medida que a protagonista viaja com a filha para salvar a sua alma.

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"NEVIA", de Nunzia De Stefano: Produzida por Matteo Garrone, a estreia de uma autora que foi assistente de realização do cineasta em "Dogman" (2018) é uma história de mulheres num bairro de homens. No caso, de uma adolescente e da sua irmã, tia e avó nos surbúrbios de Nápoles. Mas a protagonista talvez não fique por lá muito mais tempo, já que tenta juntar-se a um circo que chega à cidade, a única saída que encontra para uma vida que parece destinada ao crime - e ponto de partida para um drama que junta realismo e esperança.

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"LA SCOMPARSA DI MIA MADRE", de Beniamino Barrese: Depois de ter sido a primeira italiana a posar para a Vogue americana, além de musa de Andy Warhol ou Salvador Dalí, Benedetta Barzini sujeita-se a outro olhar masculino: o do filho, que aqui se estreia na realização após um percurso já considerável como director de fotografia. Entre memórias que recuam ao seu auge como modelo, nos anos 60, e à postura activista e feminista que se seguiu, o documentário deixa ainda o relato de uma ligação familiar que aqui também se torna profissional - para o melhor e para o pior, disseram reacções entusiastas à estreia do filme no Festival de Sundance de 2019. Tanto a protagonista como o realizador estarão presentes nas sessões lisboetas.

Da adolescência à velhice, da união à exclusão

A decorrer até 16 de Outubro, a sétima edição do QUEER PORTO divide-se por vários espaços da Invicta e continua a propor filmes LGBTQIA+ de origens diversas. Da Suíça e de Hong Kong chegaram dois de boa colheita.

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"LA MIF", de Fred Baillif: Primeira experiência na ficção de um realizador com um currículo já longo nos documentários (alguns a testar os limites do formato), este drama realista não só deixa sinais dessa escola como deriva do trabalho do suíço num centro de detenção juvenil. Baillif estudou Serviço Social (depois de uma carreira bem-sucedida como basquetebolista) e isso ajudará a explicar que este seja um filme de alguém que parece saber do que fala. Mas, mais importante, o autor também sabe como se expressar cinematograficamente num objecto que adopta uma estrutura em mosaico para traduzir o quotidiano atribulado (às vezes até histérico) de um grupo de raparigas multicultural numa casa de acolhimento.

Dedicando cada capítulo a uma personagem e recorrendo a um elenco não profissional, Baillif apostou em diálogos improvisados e nas histórias pessoais das suas jovens actrizes, sem as adaptar a papel químico. Apesar de vários percursos marcados pelo trauma e abuso (em alguns casos sexual), "LA MIF" pauta-se pela insistência na resiliência e pelo conforto possível de uma família alternativa, enquanto atira farpas à hipocrisia de um sistema incapaz de defender os mais frágeis (ou até sem grande interesse nisso), independentemente da boa vontade e perseverança dos assistentes sociais.

Todas as adolescentes impressionam pela espontaneidade das suas expressões e interações, sensação mantida no desempenho da veterana Claudia Grob, uma directora mãe-galinha (também ela com um passado a cicatrizar) que defende as suas crias mesmo quando se depara com um cenário sem resposta à vista. Vencedor do Prémio Geração do Festival de Berlim deste ano, o filme pode não trazer grandes novidades ao dispositivo da câmara à mão (embora seja abordado com eficácia) e talvez tivesse ainda mais força com um desenlace menos espalha-brasas (mesmo que bata certo com o arranque), mas é difícil passar ao lado da intensidade de alguns dos seus momentos e das muitas vozes deste coro tão expressivo como insolente.

3/5

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"SUK SUK", de Ray Yeung: Se um filme como "La Nave Del Olvido" abordou o envelhecimento e a redescoberta da sexualidade de uma mulher na edição mais recente do Queer Lisboa, o Queer Porto tem na secção competitiva de longas-metragens um drama ancorado no relacionamento de dois homens já na terceira idade (nomeado para um Teddy Award no Festival de Berlim de 2020).

O olhar sobre a velhice continua a ser raro em narrativas LGTBQIA+ (e noutras também) e até surpreende que este parta de um realizador que se concentrou em retratos de jovens homossexuais nos dois filmes anteriores. Presidente do Hong Kong Lesbian and Gay Film Festival desde 2000, o cineasta asiático inspirou-se num livro de entrevistas a gays idosos de Travis Kong e confessou ter dito dificuldades no casting dos protagonistas. Embora a homossexualidade não seja considerada crime em Hong Kong desde 2001, o estigma continua a ser evidente e torna-se especialmente pesado para homens que, como o par central do filme, já são avós (e um deles ainda vive com a mulher).

Embora o arco narrativo desta relação possa lembrar outros relatos vincados pela homofobia (do encontro à união hesitante e a uma eventual separação), "SUK SUK" nunca deixa de convencer pela genuinidade das figuras e situações que acompanha. O lado verista é tão forte na dinâmica da relação principal como nos núcleos familiares dos dois homens, distintos mas igualmente complexos, e desse contraste sobressai um conflito identitário que o filme desenvolve sem dramatismos supérfluos, idealizações fáceis ou juízos de valor (das principais às secundárias, todas as personagens se mostram imunes à caricatura).

A direcção de actores ajuda, assim como a câmara de Yeung, atenta aos olhares, gestos e silêncios e à esfera pública e privada de uma cidade que pode ser hostil para os desajustados. Nesse aspecto, é interessante o espaço que o filme vai dedicando a uma associação que tenta encontrar um refúgio para homens homossexuais abandonados pelas famílias, um destino que os protagonistas temem e que informa directamente as suas decisões - se é para o melhor ou para o pior, caberá ao espectador decidir.

3/5