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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Entre Roma e Nápoles, da comédia ao crime

Depois de ter arrancado em Lisboa em Abril, a 12ª edição FESTA DO CINEMA ITALIANO chega a Évora, Tomar, Caldas da Rainha e Loulé nos próximos dias. Da programação que passou pela capital, "Bangla" e "Napoli Velata" ficaram entre as melhores apostas deste ano.

 

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"BANGLA", de Phaim Bhuiyan: Deliciosa, esta mistura de comédia e drama, a marcar a estreia de um realizador que também se encarrega do argumento, da produção e ainda arrisca o papel de protagonista. O facto de ser uma história em parte autobiográfica talvez ajude a explicar que seja tão credível, e com uma espontaneidade que obras de muitos realizadores mais experientes não conseguem emanar. A partir do dia-a-dia de um rapaz de uma comunidade do Bangladesh dos subúrbios de Roma (albergue de "hipsters, turistas e velhotes"), Bhuiyan vai falando, de forma certeira e contagiante, dos dilemas das diferenças culturais e da entrada na idade adulta. Essa inquietação é ampliada quando o protagonista se apaixona por uma rapariga italiana e caucasiana, obrigando-o a questionar códigos familiares, sociais e religiosos, mas "Bangla" nem tenta forçar uma resposta. Limita-se a dar conta da inquietação emocional de uma forma tão irreverente como calorosa, enquanto revela um realizador capaz de oferecer uma série de gags inspiradíssimos, numa das melhores comédias românticas em muito tempo - e uma espécie de resposta italiana à também aconselhável "Master of None", de Aziz Ansari, sem sair a perder na comparação e com personalidade e carisma mais do que suficientes.

 

3,5/5

 

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"IO SONO TEMPESTA", de Daniele Luchetti: Uma das maiores desilusões desta edição, o novo filme do realizador de "O Meu Irmão é Filho Único" (2007) ou "A Nossa Vida" (2010) fica muito aquém desses dramas (sobretudo do segundo, excelente) ao propor uma viragem para a comédia. A mudança de rumo em si não é o problema, mas esta história, que deve alguma inspiração à figura de Berlusconi, opta sempre pelo maior denominador comum enquanto tenta elaborar uma sátira política e social à Itália contemporânea - num registo que está mais próximo do pequeno do que do grande ecrã. Marco Giallini, na pele de milionário ganancioso e condenado a serviço social, nunca vai além da caricatura (o argumento também não lhe pede mais), e Elio Germano, como sem-abrigo tornado braço-direito do protagonista, é ainda mais desperdiçado depois de ter sido brilhante noutros voos com Luchetti. Mas pior estão as personagens femininas, que dão conta das maiores limitações da escrita em situações quase sempre ridículas. Pelo menos "Anni Felici" (2013), que passou pela Festa do Cinema Italiano há uns anos, revelava algum esforço em construir personagens minimamente intrigantes e em olhar ao redor de forma menos simplista. "Io Sono Tempesta", depois da encomenda "Francisco, O Papa do Povo" (2015), já é só obra de um autor que deu lugar ao tarefeiro mais acomodado...

 

1,5/5

 

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"NAPOLI VELATA", de Ferzan Ozpetek: Ao contrário da esmagadora maioria dos filmes (ou séries) que têm Nápoles como cenário, aqui a cidade italiana não surge como mero palco de crimes ligados à máfia. E embora não faltem homicídios, por uma vez não resultam de acções da "La Familia". Esse é talvez o elemento mais refrescante do novo filme do autor de "A Janela em Frente" (2003), "Saturno Contro" (2007) ou "Uma Família Moderna" (2010), cuja obra tem chegado às salas portuguesas de forma irregular. Mas é uma filmografia que merecia ser mais vista, uma vez que o realizador turco radicado em Itália tem-se mostrado um artesão habilidoso, movendo-se com desenvoltura entre vários géneros. Desta vez opta pelo thriller com contornos noir, e à partida ostensivamente eróticos... embora com uma classe e arrojo muito acima de subprodutos como "As Cinquenta Sombras de Grey", saga com a qual sugere algumas afinidades na premissa. Ainda assim, o que começa como um one night stand entre a protagonista e um homem misterioso acaba por revelar mais paralelos com o também recente "O Amante Duplo", de François Ozon, embora o retrato de Ozpetek seja bem mais rico a nível dramático, não se esgotando no exercício de estilo vistoso. Além da óptima galeria de secundários, o grande destaque é mesmo Nápoles como personagem de relevo, a quem o realizador dedica uma carta de amor a partir dos ambientes do meio artístico e intelectual. Entre a arquitectura da cidade e ruas tão labirínticas como algumas pistas do argumento, "Napoli Velata" vai moldando um olhar enigmático e sedutor, com tanto de realista como de barroco e surreal, e Ozpetek não perde a mão ao longo de uma viagem desconcertante ancorada na solidão e angústia de uma mulher. Bela surpresa.

 

3,5/5

 

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"PIRANHA - OS MENINOS DA CAMORRA", de Claudio Giovannesi: Se "Napoli Velata" consegue espreitar recantos pouco vistos de Nápoles, o segundo filme de um dos novos realizadores italianos (sucessor de "Fiore", de 2016) nunca chega a sair de cenários habituais. Em parte talvez nem pudesse sair muito, já que se trata de uma adaptação de um livro de Roberto Saviano, autor de "Gomorra", também adaptado para cinema e TV. Giovannesi assinou, aliás, alguns episódios da série, e tanto essa experiência como a passagem pelo documentário informam o realismo palpável desta saga de iniciação ao crime. Mas embora o realizador traduza um verismo de espaços e figuras com uma solidez assinalável, reforçado pela direcção de jovens actores não profissionais (e todos da região onde decorre o filme), esta história de um grupo de adolescentes decididos a integrar a Camorra não será muito surpreendente para quem está familiarizado com outros retratos do mesmo submundo. A perda da inocência e o mergulho numa espiral descendente são dados adquiridos logo à partida, tanto como as consequências de um ciclo de violência sem fim à vista - que chega a instalar um determinismo confirmado pelo desenlace. De qualquer forma, está longe de ser um mau filme, já que Giovannesi apresenta este relato de ambição e decadência a partir do quotidiano de Nicolas, rapaz de 15 anos e um protagonista suficientemente interessante para que sigamos a sua jornada (e Francesco Di Napoli é uma das boas escolhas de um casting seguro). Só faltou mesmo algum arrojo, sobretudo depois de tantos episódios de "Gomorra" muito mais transgressores e inventivos.

 

3/5

 

Abrindo o apetite para uma festa all'italiana

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Nanni Moretti (acima, numa cena descaradamente provocadora de "Bianca") é o principal homenageado da FESTA DO CINEMA ITALIANO, cuja 12ª edição arranca esta sexta-feira em Lisboa antes de prosseguir, como já é habitual, para dezenas de outras cidades nas próximas semanas (não só por cá mas também no Brasil, Angola e Moçambique).

 

Na capital, há filmes a (re)descobrir até 14 de Abril, no Cinema São Jorge (que acolhe a sessão de abertura, "Noites Mágicas", de Paolo Virzi, às 21h30), na Cinemateca e no UCI - El Corte Inglés. Além da retrospectiva dedicada ao realizador de "O Quarto do Filho", com direito a raridades e inéditos nas salas nacionais (incluindo curtas e documentários), há propostas que vão do cinema de autor a comédias êxitos de bilheteira, cine-jantares, festas temáticas no Musicbox e n'A Barraca ou actividades para o público infantil.

 

Nas secções competitiva, Altre Visioni e sessões especiais estão as principais novidades e, muito provavelmente, boa parte das maiores surpresas. Como oferta ainda é vasta, ficam cinco sugestões para ajudar a ir compondo o roteiro:

 

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Domingo, 7 de Abril, às 15h00, no Cinema São Jorge: "CAMORRA", de Francesco Patierno - Não faltam filmes (italianos ou não) sobre os meandros da máfia, mas este documentário tem a particularidade de resultar de meses de pesquisa dos arquivos da RAI, trazendo a público muito material inédito enquanto procura compreender as origens e desdobramentos do crime organizado em Nápoles. A viagem entre os anos 60 e 90 é conduzida por um realizador local, com experiência tanto na ficção como no documentário, e já familiarizado com o tema em alguns filmes anteriores. (repete a 13 de Abril, às 22h00, no Cinema São Jorge)

 

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Domingo, 8 de Abril, às 18h30, no Cinema São Jorge: "BANGLA", de Phaim Bhuiyan: Uma das primeiras obras do festival é escrita, produzida e interpretada pelo próprio realizador, numa ficção inspirada na sua experiência pessoal. O autor estará presente na sessão para apresentar esta comédia romântica centrada num rapaz de 22 anos do Bangladesh que se apaixona por uma rapariga italiana nos subúrbios de Roma. Sem surpresas, a relação leva ao choque de culturas familiar, mas o filme tem sido aplaudido por fugir aos lugares comuns de outras histórias de amor com uma premissa comparável. (repete a 9 de Abril, às 22h00, no Cinema São Jorge, também com a presença do realizador)

 

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Segunda, 8 de Abril, às 22h00, no Cinema São Jorge: "MAMMA + MAMMA", de Karole Di Tommaso: Estreia da realizadora nas longas-metragens depois de uma curta, esta combinação de comédia e drama acompanha os esforços de duas mulheres para terem um filho e constituírem família. Tal como "Bangla", é outro filme desta edição que parte da vida pessoal da autora (e da sua companheira), o que poderá ajudar a explicar a forma credível como o filme se desenvolve, de acordo com algumas críticas. A presença de Karole Di Tommaso na sessão talvez ajude a clarificar até que ponto a vertente ficcional divergiu da verídica. (repete a 12 de Abril, às 19h00, no Cinema São Jorge, também com a presença da realizadora)

 

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Quarta, 10 de Abril, ÀS 19h00, no Cinema São Jorge: "LA TERRA DELL'ABBASTANZA", de Damiano e Fabio D'Innocenzo: Colaboradores de Matteo Garrone no argumento de "Dogman", os dois irmãos aventuram-se como realizadores num drama igualmente cru e urbano, que tem somado nomeações e prémios em festivais. Tudo começa quando os protagonistas, dois rapazes dos subúrbios de Roma, atropelam um homem e abandonam o local, rastilho para um ciclo de tensão e violência ao qual se juntam drogas e prostituição. A julgar pelo trailer, a estética não anda longe da série "Gomorra" (nada contra) e o filme tem sido elogiado por escapar ao sensacionalismo sugerido pela mistura de ingredientes controversos. (repete a 13 de Abril, às 19h00, no Cinema São Jorge)

 

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Domingo, 14 de Abril, às 21h30, no Cinema São Jorge: "EUFORIA", de Valeria Golino: Depois de "Mel", bela e promissora estreia atrás das câmaras, a actriz retomou o percurso de realizadora no filme escolhido para a sessão de de encerramento desta edição em Lisboa. É a história de dois irmãos, com personalidades antagónicas e vidas muito diferentes que voltam a aproximar-se depois de uma situação conturbada. Se a primeira obra de Golino leva a que se avance para este drama com alguma confiança, a curiosidade sai reforçada pela escolha da dupla protagonista, Riccardo Scamarcio e Valerio Mastandrea. (exibição simultânea no Cinema Trindade, no Porto, e no Auditório Charlot, em Setúbal)

 

Angelo, Mario e o admirável mundo novo de um supermercado

O lado mais sombrio do colonialismo europeu, o quotidiano agridoce do trabalho num armazém, a homofobia mal disfarçada do universo do futebol... Estes foram três pontos de partida para algumas apostas da KINO - MOSTRA DE CINEMA DE EXPRESSÃO ALEMÃ, que decorreu há poucos dias em Lisboa e regressa a Coimbra no final do mês.

 

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"ANGELO", de Markus Schleinzer: Depois de uma primeira obra, "Michael" (2011), que gerou controvérsia ao seguir um pedófilo e uma criança raptada, o ex-director de casting regressa à realização e parte de uma história verídica ambientada no século XVIII. O resultado, no entanto, está muito longe dos ambientes habituais de muitos filmes de época "de prestígio", tendo em conta o formalismo clínico que parece ter "Barry Lyndon", de Stanley Kubrick, entre as referências. O distanciamento emocional com que Schleinzer acompanha o crescimento de uma criança africana, adoptada pela aristocracia vienense, também lembra que o currículo do austríaco inclui colaborações com o conterrâneo Michael Haneke, até porque a frieza e pessimismo do cineasta de "Brincadeiras Perigosas" é comparável a este retrato metódico e implosivo. Mas se "Angelo" tem alguma força no olhar cáustico sobre a aniquilação da diferença enquanto modus operandi da cultura ocidental ao longo de séculos, com especial ênfase no racismo, nunca chega a impor-se na vertente dramática, com a divisão da narrativa em três actos (e em períodos temporais distintos) a dificultar a aproximação às personagens. Até o protagonista acaba por ser só mais um instrumento da tese do realizador, sendo raras as cenas em que ultrapassa a função simbólica e o carácter decorativo a que era reduzido na corte - condição que o filme critica sem conseguir elevar-se por completo acima de um falhanço interessante.  

 

2,5/5

 

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"ENTRE CORREDORES", de Thomas Stuber: Poucos armazéns serão tão poéticos como o do supermercado onde decorre grande parte da acção desta comédia melancólica. Os primeiros minutos, com um bailado de mercadorias e máquinas ao som de "O Danúbio Azul", de Strauss, dá logo conta do tom singular do filme, e o que se segue vai desenhando uma identidade que inicialmente remete para o humor minimalista e taciturno de Abbas Kiarostami cruzado com o estilo mais fantasioso e caramelizado de um Jean-Pierre Jeunet. Felizmente, Stuber não é tão hermético como o primeiro nem tão óbvio como o segundo. E se a sua proposta não deixa de ser estilizada, também acolhe algum realismo ao ir mergulhando na rotina solitária dos empregados de uma grande superfície comercial, apresentando em paralelo as pequenas cumplicidades e transgressões que se vão acumulando (curiosamente, uma das melhores sequências até decorre fora do supermercado, numa viragem fugaz para terrenos do thriller na casa de uma das personagens). O espectador chega com a entrada em cena do protagonista, a mais recente contratação, através do qual vai conhecendo os cantos deste espaço e as particularidades de uma segunda família (em alguns casos, a impor-se à primeira). Franz Rogowski é simultaneamente empático e enigmático, e embora comece a ameaçar cair no typecasting (as suas interpretações em "Happy End" e sobretudo no também recente "Em Trânsito" não estão muito distantes desta), mostra-se aqui uma aposta segura numa jornada laboral e emocional intrigante. Sandra Hüller, que conquistou mais atenções com "Toni Erdmann", é outro nome forte de um elenco a que o realizador vai dando tempo e espaço ao longo de duas horas de interesse desigual - não escondem que o argumento partiu de um conto (de Clemens Meyer) -, mas capazes de moldar um todo cativante e personalizado. Bela surpresa, e com direito a segunda exibição na KINO - agora em Coimbra, a 27 de Fevereiro.

 

3,5/5

 

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"MARIO", de Marcel Gisler: Se a premissa faz esperar mais um relato boy meets boy, ao partir de dois jogadores de futebol sub-21 que se apaixonam, este drama suíço sabe esquivar-se a estereótipos de algumas narrativas LGBTQ+ enquanto traça um cenário de homofobia num contexto específico (e poucas vezes retratado). Embora seja um exercício ficcional, o filme surgiu após uma pesquisa de vários anos nos bastidores do universo do futebol e nem precisa de entrar num registo docudrama para traduzir uma realidade verosímil, apresentada sem que "Mario" se reduza a uma denúncia. Pelo contrário, Gisler dá sempre prioridade às personagens, da dupla principal a secundários de corpo inteiro, através de um argumento sólido e envolvente que coloca em jogo os conflitos entre as esferas pública e privada dos protagonistas. Desse impasse sai uma crónica sensível sobre a entrada na idade adulta o peso de escolhas decisivas - no caso, entre a vida amorosa e a profissional -, que assenta especialmente na figura que dá título ao filme. Max Hubacher, actor promissor distinguido com o Swiss Film Prize, não precisa de muitas palavras para dar conta do turbilhão emocional que acompanha a descoberta da sua sexualidade, e Gisler oferece algumas das melhores cenas do filme a captar os seus gestos e olhares sem escorregar em facilitismos dramáticos - sendo também bastante astuto a mover-se entre os meandros burocráticos da máquina desportiva. Uma equipa vencedora, portanto, e um retrato que não merece ficar confinado ao circuito dos festivais...

 

3,5/5

 

O que foi não volta a ser (?)

Dois dos melhores filmes em cartaz chegam da Alemanha: "EM TRÂNSITO" e "NUNCA DEIXES DE OLHAR". Já "ADAM & EVELYN" esteve entre os bons motivos para passar pela 16ª edição da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã. Em comum, retratos ambíguos de um país dividido - e onde o passado não ficou decididamente para trás:

 

Em Trânsito

 

"EM TRÂNSITO", de Christian Petzold: Ao adaptar um romance de Anna Seghers publicado em 1944, que acompanhava exilados da Segunda Guerra Mundial, o realizador de "Gespenster" ou "Phoenix" finta lugares comuns do filme de época e combina passado e presente, ancorando a acção numa Marselha contemporânea embora não necessariamente reconhecível (a ausência de telemóveis e outros gadgets, por exemplo, não passa despercebida). Entre o melodrama e o film noir, com um romantismo que parece herdado de outros tempos, é uma experiência tão curiosa como ambiciosa, que esbarra com as ameaças do nazismo enquanto também coloca em jogo a crise de refugiados actual. Nem sempre convence: a voz off às vezes intrusiva e demasiado explicativa ou as coincidências que se vão acumulando (ainda que de forma assumida) travam algum entusiasmo, e o ritmo nem sempre é o mais certeiro. Mas este relato de uma fuga permanente também volta a dar provas de uma voz singular, que parte do realismo para terrenos mais movediços e fantasmagóricos e tem aqui um protagonista à altura do desafio: Franz Rogowski, estranho numa terra estranha e a fazer um caminho entre o desespero e o altruísmo. Paula Beer (vista em "Frantz", de François Ozon, outro filme de época fora dos eixos) acompanha-o como proto femme fatale e motor narrativo de uma história com espaço para o amor no meio da guerra. E o humanismo do retrato que Petzold deixa de um triângulo amoroso leva a que, apesar do percurso acidentado, "EM TRÂNSITO" acabe por chegar a  bom porto.

 

3/5

 

Nunca Deixes de Olhar

 

"NUNCA DEIXES DE OLHAR", de Florian Henckel von Donnersmarck: Há nove anos, "O Turista" parecia encaminhar (mais) um realizador promissor para a lista de tarefeiros de Hollywood, ao suceder a uma primeira obra desafiante ("As Vidas dos Outros", 2006) com um blockbuster genérico. Mas afinal nem tudo estava perdido... Ao terceiro filme, Henckel von Donnersmarck regressa à Alemanha de Leste, cenário da sua obra de estreia, e volta a mostrar que ainda há novas (e boas) histórias dominadas pelo regime nazi que merecem chegar ao grande ecrã.

 

Nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, este drama (livremente inspirado na vida do artista alemão Gerhard Richter) pede três horas ao espectador mas raramente acusa a duração, conjugando o crescimento do protagonista e as transformações de um país com o fôlego de um grande romance. A primeira metade é especialmente conseguida, com a abordagem sensível e clássica (mas não acomodada) do realizador a cruzar os horrores do Holocausto com o quotidiano de uma família de Dresden, em paralelo com um olhar sobre a forma como a ideologia compromete a arte. Na segunda, von Donnersmarck deixa para trás algumas personagens e também parte da tensão dramática, centrando-se numa fase relativamente mais apaziguada da vida do protagonista - aquela onde investe a fundo no seu processo criativo, já na Alemanha Ocidental, então livre das influências dos regimes fascista ou comunista.

 

Entre duas ou três conveniências de argumento e uma certa insistência (já na recta final) nos dilemas da página (ou tela) em branco, "NUNCA DEIXES DE OLHAR" vai tendo alguns desequilíbrios narrativos, e chega a ser desapontante que não invista mais na personagem de Paula Beer (sim, também a musa de "Em Trânsito"), cuja história pessoal justificava outra atenção. Mesmo assim, está aqui uma saga pessoal com eco universal apontada ao grande público, como "O Turista", mas com a exigência, subtileza e ressonância emocional que tornaram "As Vidas dos Outros" numa estreia invulgar. Continuemos a olhar para Henckel von Donnersmarck, então...

 

3,5/5

 

Adam & Evelyn

 

"ADAM & EVELYN", de Andreas Goldstein: Apesar de se ambientar nos últimos dias da República Democrática Alemã, durante o Verão de 1989, o maior conflito deste drama meditativo e idiossincrático não é político mas conjugal. E é logo por aí que o olhar de Goldstein acaba por sobressair, ao recusar os cenários habituais, e muitas vezes caóticos, de outras histórias sobre o seu país dividido.

 

O elemento masculino do casal protagonista nem tem, aliás, grandes ambições de mudança do seu dia a dia, contentando-se com a vida pacata no interior e a atenção dividida entre a costura (é um alfaiate reputado e disputado localmente) e a sua companheira (uma empregada de restaurante menos adepta dessa rotina e disposta conhecer a Alemanha Ocidental). Mas quando a hipótese de uma traição coloca em causa a (aparente) harmonia amorosa, a dinâmica do casal reforça laços com o espírito do tempo e com as possibilidades que a queda do Muro de Berlim oferece. Ainda assim, nem a infidelidade faz com que Goldstein eleve o filme acima de uma tensão em lume brando, com um tom tão lacónico como a atitude do protagonista, mantendo "ADAM & EVELYN" preso a uma certa rigidez tanto narrativa como formal: predilecção por planos fixos, diálogos pausados (mas intrigantes), posturas teatrais, underacting de boa parte do elenco.

 

Felizmente, o resultado é mais esquelético do que esquemático, e aos poucos a forma inicialmente inusitada como as personagens (principais e secundárias) se relacionam acaba por ganhar sentido e ajuda a consolidar uma sensibilidade própria - que, à semelhança da relação amorosa que acompanha, joga segundo as suas próprias regras. E em vez do grito de revolta de outras crónicas, serve um sussurro resignado (e uma das surpresas da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã deste ano).

 

3/5

 

Alemanha, ano 2019

De 24 a 30 de Janeiro, a KINO - MOSTRA DE CINEMA DE EXPRESSÃO ALEMÃ volta a instalar-se no Cinema São Jorge, em Lisboa. O muito elogiado "3 Dias em Quiberon", biopic de Romy Schneider assinado por Emily Atef, abre a porta às 20 longas-metragens de produção não só alemã, mas também austríaca, suíça e luxemburguesa. As cinco abaixo podem ser um bom ponto de partida para a 16ª edição do evento que também passa pelo Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, a 2, 26 e 27 de Fevereiro:

 

Mario

 

Sexta-feira, 25, às 21h00: "MARIO", de Marcel Gisler - A homofobia no futebol é o ponto de partida do mais recente filme do realizador suíço radicado na Alemanha, que explora há muito questões LGBTQ+ - desde um drama realista como "Die blaue Stunde" (1992) ao documentário "Electroboy" (2014). O argumento, centrado na relação de dois futebolistas, começou a ser preparado em 2010 mas o resultado de uma longa pesquisa só foi visto em 2018, quando "Mario" estreou na Alemanha. A premissa lembra a de outro filme germânico relativamente recente, "Em Queda Livre", que seguia o relacionamento amoroso de dois polícias, inicialmente mantido em segredo. Tal como nesse caso, algumas reacções apontam que esta história não traz muito de novo ao cinema (queer ou não), mas também há quem garanta que este drama não se esgota no tema (abordagem que já lhe valeu distinções nos festivais de Hamburgo ou Chicago).

 

Vacuo

 

Sábado, 26, às 16h30: "VÁCUO", de Christine Repond - Assente na interpretação da veterana Barbara Auer, a segunda longa-metragem da realizadora suíça (com um percurso iniciado no documentário) acompanha uma mulher de meia-idade que descobre ser seropositiva. E descobre ainda que o marido não só a contaminou como a tem traído com prostitutas. Se daqui poderia sair um drama de faca e alguidar, "Vácuo" promete responder à inquietação da protagonista com sobriedade e rigor, num thriller psicológico que o The Hollywood Reporter compara ao universo de Michael Haneke (ressalvando que não carregue tanto na frieza emocional). É bem capaz de estar aqui um dos retratos mais fortes desta edição...

 

IN DEN GÄNGEN (R: Thomas Stuber); v.l.: Sandra Hüller und Franz Rogowski

 

Sábado, 26, às 21h00: "ENTRE CORREDORES", de Thomas Stuber - E se o romance nascer entre a rotina do trabalho num supermercado? A segunda longa-metragem do realizador alemão avança um cenário possível, com algum realismo mágico à mistura, e tem feito um percurso invejável em muitos festivais (chegando à KINO já com prémios e a nomeação para o Urso de Ouro no de Berlim). O par romântico desta história ambientada numa pequena localidade desperta logo alguma confiança, ou pelo menos simpatia: é composto por Sandra Hüller, de "Toni Erdmann", e Franz Rogowski, que protagoniza "Em Trânsito" (o novo e aconselhável filme do também alemão Christian Petzold, que estreia em Portugal esta semana).

 

O Gene de Casanova

 

Sábado, 26, às 23h15: "O GENE DE CASANOVA", de Luise Donschen - Um dos títulos da secção Perspetivas, que pretende romper fronteiras entre géneros e formatos, este olhar documental da realizadora alemã (e a sua primeira longa) debruça-se sobre as leis do desejo e as convenções de género, identidade e sexualidade. E parte de uma investigação de horizontes vastos e díspares, que tanto junta depoimentos de biólogos e relatos da vida animal como a participação de uma dominatrix ou do convidado especial John Malkovich, que discute o legado de Casanova. Carta fora do baralho da KINO 2019?

 

Aeroporto Central THF

 

Segunda-feira, 28, às 19h00: "AEROPORTO CENTRAL THF", de Karim Aïnouz - O autor de "Madame Satã" (2002) ou "Praia do Futuro" (2014) tem conciliado um interesse pela ficção e pelo documentário, e aqui retomou a segunda vertente. Num filme que já passou por cá no Festival Porto/Post/Doc do ano passado, o realizador brasileiro centra-se em Berlim (onde reside) e em particular no Aeroporto de Tempelhof, que começou como projecto megalómano do regime nazi, tornou-se num espaço de lazer décadas depois e é hoje um abrigo para refugiados cada vez mais concorrido. Foi através do olhar destes últimos, aliás, que o filme nasceu, e tem sido alvo de aplauso dentro e fora de portas (o prémio da Amnistia Internacional no Festival de Berlim de 2018 está entre as distinções que tem somado).