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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Filmes para toda(s) a(s) família(s)

De volta à Invicta para a quinta edição, o QUEER PORTO decorre de 16 e 20 de Outubro no Teatro Rivoli, Maus Hábitos e Reitoria da Universidade do Porto e é dedicado aos 50 anos dos motins de Stonewall. Mas o programa também passa por outras épocas e espaços - alguns recentes e familiares, como os de três filmes da secção competitiva que prometem valer a visita.

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"A DOG BARKING AT THE MOON", de Xiang Zi: Inspirada nas experiências da realizadora chinesa radicada em Espanha, que se estreia aqui nas longas-metragens depois de um longo percurso nas curtas, esta é história de uma família disfuncional que percorre várias décadas e cuja tensão deriva do relacionamento conturbado entre a matriarca e o patriarca - e que ameaça causar ainda mais danos quando ela se envolve numa seita para tentar lidar com o facto de ele ser homossexual. O novelo de segredos e mentiras, com muitas repressões e acusações pelo meio, vai sendo desvendado com um olhar agridoce e uma realização rigorosa, características que têm estado na origem de vários elogios e prémios - caso das seis nomeações e duas vitórias na mais recente edição do Festival de Berlim.

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"LOS MIEMBROS DE LA FAMILIA", de Mateo Bendesky: Os relatos sobre a entrada na idade adulta dominaram parte da selecção do Queer Lisboa, há poucos dias, e este drama argentino volta a insistir na temática. Mas nem por isso deixa de parecer dos filmes mais promissores. Centrado em dois irmãos adolescentes, segue a forma como lidam com a morte recente da mãe enquanto ficam retidos numa pequena localidade costeira devido a uma greve de autocarros. Nomeado ao Teddy Award na mais recente edição do Festival de Berlim, entre outras distinções internacionais, o resultado tem sido elogiado pela forma descomplexada através da qual retrata o luto, com a melancolia a conviver com o humor. Uma combinação que algum cinema argentino tem sabido fazer nos últimos anos, e da qual a segunda longa-metragem do realizador, argumentista e professor universitário (sucessora de "Acá adentro", de 2013, e de duas curtas) tem sido apontada como exemplo a ter em conta.

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"RAIA 4", de Emiliano Cunha: Ancorado no quotidiano de uma adolescente cuja prioridade é a natação e que se torna próxima de uma colega, com a qual desenvolve um relacionamento entre a curiosidade e a disputa, este drama intimista parte de uma premissa que lembra muito a de "Naissance des pieuvres" (2007), o belo primeiro filme da francesa Céline Sciamma (que só passou por salas nacionais na Festa do Cinema Francês). Mas as reacções iniciais a esta revelação do cinema brasileiro, também ela uma primeira longa (depois de várias curtas), dão a entender que o rumo da protagonista acaba por ir divergindo - e nem falta quem o acuse de perder o pé num final que não deixará o espectador indiferente. De qualquer forma, até os menos rendidos ao desfecho têm salientado que o apuro visual ou a direcção de actores justificam o mergulho nestas águas.

Da fábula para adultos aos corredores de um hospital

A FESTA DO CINEMA FRANCÊS está bem e recomenda-se. Ou pelo menos foi essa a impressão que ficou com dois dos primeiros filmes exibidos na 20.ª edição, a decorrer no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa.

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"BRANCA COMO NEVE", de Anne Fontaine: Numa altura em que a Disney insiste em rapar o tacho com a enésima versão em imagem "real" das suas adaptações de clássicos infantis, esta revisão para adultos da história da Branca de Neve é um antídoto a ingerir sem contra-indicações. Afinal, quem precisa de derivados na linha de "Maléfica" quando tem Isabelle Huppert como sucessora espiritual da Rainha Má, aqui consumida pelo ciúme face à capacidade de sedução da sua enteada?

Em vez de sete anões, a protagonista, encarnada com desenvoltura por Lou de Laâge, cruza-se com sete homens que não demoram a ceder aos seus encantos, caracterizados com doses variáveis de insegurança, vulnerabilidade e neurose. Os encontros sucessivos dão à narrativa um registo demasiado episódico e a realizadora demora algum tempo a acertar o tom, que vai do realismo ao thriller, do burlesco ao onírico, e com muitas insinuações eróticas. Mas a viagem física e emocional desta "princesa" que não precisa de ser salva vai-se tornando mais convidativa à medida que vai avançando, num relato de emancipação feminina e descoberta da sexualidade avesso a puritanismos e capaz de atrevimentos arriscados (mas muito franceses, dirão alguns) na era #MeToo e Time's Up.

Além de ser divertido ver Huppert a fazer o número maléfico com uma perna às costas, consecutivamente frustrada enquanto tenta despachar a protagonista, os secundários (Vincent Macaigne, Benoît Poelvoorde, Damien Bonnard...) são outro trunfo, e o filme consegue dar tempo e especificidade a cada relação deles com a heroína. Fontaine também se sai bem a desenhar uma atmosfera entre o reluzente e o nebuloso, sem precisar de um catálogo de CGI pronto a impressionar, mesmo que esta fábula adulta e deliciosamente adulterada não tenha a força emocional dos antecessores "Agnus Dei - As Inocentes" (2016) e "Marvin" (2017). Mas quem decidir aceitar os contornos peculiares da proposta não deverá dar o tempo por perdido.

3/5

 

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"VERDADE E CONSEQUÊNCIA", de Thomas Lilti: Ora aqui está um belo exemplo de cinema do meio, que não tendo grandes pretensões autorais é capaz de se dirigir ao grande público com sensibilidade e inteligência. Essa tem sido, aliás, uma característica habitualmente louvada na obra de um realizador que também é médico, conjugação com reflexo na temática dos seus filmes. Em França, foram acolhidos por milhares de espectadores enquanto vão acumulando aplauso crítico, embora fora de portas a recepção tenha ficado aquém desse fenómeno.

"Médico de Província" (2016) estreou em Portugal há uns anos sem grande alarido, mas a caminho estão o recente "Os Caloiros da Medicina" (2018) e o mais distante "Verdade e Consequência" (2014), ambos apresentados em ante-estreia nacional na Festa do Cinema Francês. Este último foi, aliás, a segunda longa-metragem e a grande rampa de lançamento para Lilti, enquanto avançou um olhar personalizado (e inspirado em algumas experiências do realizador) sobre o universo da medicina.

Os primeiros dias de um interno num hospital de Paris, à partida semelhantes às peripécias de tantos dramas médicos (sobretudo televisivos), são o mote para a radiografia minuciosa do quotidiano de uma equipa de profissionais de saúde, feita com um cruzamento de realismo e humanismo pouco habitual. E este retrato dos bastidores torna-se especialmente forte ao acompanhar os danos colaterais de dois casos de negligência, com a aventura iniciática do protagonista (Vincent Lacoste) e a sua cumplicidade com um colega mais velho (Reda Kateb) a abrir portas para o foco num sistema em crise.

Apesar de se tornar algo panfletário mais para o final e de resolver tensões de forma um tanto conveniente, "VERDADE E CONSEQUÊNCIA" mantém intacto e credível o seu estudo de personagens, auxiliado por um elenco sem mácula, dos protagonistas ao secundário mais discreto - todos pessoas com qualidades e falhas de carácter,  mesmo que Lilti não seja tão simpático com os que ocupam os lugares mais altos da hierarquia. E antes de apontar o dedo ao desleixo estatal pela Saúde (infelizmente, não exclusivo da realidade francesa), arrisca-se a deixar o espectador com o coração nas mãos em duas ou três sequências dramáticas filmadas com uma justeza emocional invulgar - que talvez ajudem a explicar porque é que esta história acabou por ter continuidade numa série televisiva. 

3/5

Vive la fête!

Mantendo-se em Lisboa até 13 de Outubro antes de ir passando por outras cidades, a FESTA DO CINEMA FRANCÊS chegou este ano à 20.ª edição. Na capital, o Cinema São Jorge e a Cinemateca acolhem novidades e retrospectivas nos próximos dias. Por onde começar? Ficam cinco sugestões.

 

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Retrospectivas de Agnès Varda (que morreu em Março) e de Jean Louis Trintignant (um dos convidados desta edição), uma secção dedicada a obras seleccionadas pelo Festival de Cannes (que inclui "Indianara", exibido há poucos dias no Queer Lisboa), filmes de animação e uma masterclass de Thomas Tilti (realizador de "Médico de Provícia" e "Hippocrate - Verdade e Consequência") estão entre as apostas da iniciativa que, até 8 de Novembro, também vai chegar a salas de Almada, Setúbal, Coimbra, Porto, Portimão, Leiria e Beja. 

 

Entre novidades, incluindo antestreias, e revisitações de clássicos ou de títulos esquecidos, o percurso pode começar, por exemplo, por uma destas cinco sugestões (algumas escolhas seguras, outras das mais intrigantes da programação):

 

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"A TURMA", de Laurent Cantet: Um dos melhores filmes da secção 20 Anos de Festa continua a ser também o mais recomendável do autor de "O Emprego do Tempo" (2001) ou do recente "O Workshop" (2017). Vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2008, este olhar sobre o quotidiano de um liceu de um bairro problemático parisiense, a partir das experiências verídicas do professor François Bégaudeau (que encarna o protagonista), é uma obra a (re)descobrir, até porque o conflito cultural e geracional que a orienta está hoje tão ou mais presente em escolas como a que serve de palco à acção. O efeito realista da realização e de um elenco de jovens actores não-profissionais também não deve ter perdido o impacto.

 

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"BRANCA COMO NEVE", de Anne Fontaine: Depois de dois filmes especialmente inspirados, "Agnus Dei - As Inocentes" (2016) e sobretudo "Marvin" (2017), a autora de "Coco Avant Chanel" (2009) está de volta num registo aparentemente mais lúdico e cómico, ao propor uma versão muito livre da história da Branca de Neve. O ponto de partida é a relação tensa entre uma rapariga muito disputada e a sua madrasta, que vai ter consequências no dia-a-dia da pequena localidade onde vivem. A dupla de actrizes principais alimenta a curiosidade: Lou de Laâge (de "Agnus Dei - As Inocentes") interpreta a protagonista, Isabelle Huppert dá corpo à "descendente" da Bruxa Má. Anne Fontaine vai estar presente na sessão.

 

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"FUNAN", de Denis Do: Apesar de integrarem a secção Para os Mais Jovens, os filmes de animação desta edição merecem um público dos 7 aos 77 (pelo menos) e são das novidades mais promissoras. Além de "Le voyage du prince", de Jean-François Laguionie, ou de "Les hirondelles de Kaboul", de Eléa Gobbé-Mévellec e Zabou Breitman, um dos destaques é esta estreia na realização que conquistou o prémio de Melhor Filme no Festival de Cinema de Animação de Annecy em 2018. História de uma família separada durante a revolução dos Khmer Vermelhos no Camboja, nos anos 70, acompanha uma jovem mãe que procura o filho, levado pelas forças do regime.

 

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"MAYA", de Mia Hansen-Løve: Depois de ter ficado em cativeiro na Síria durante quatro meses, um jornalista de guerra volta a Goa, onde passou a infância, para visitar a mãe. E acaba por conhecer uma jovem indiana, mote para o mais recente estudo de personagens da autora de dramas contidos como "Um Amor de Juventude" (2011) ou "O Que Está Por Vir" (2016). Desta vez, o trauma (depois da tortura) e a tentativa de recomeço do protagonista moldam o início de um relacionamento que vai influenciando e reajustando as visões do mundo dos protagonistas.

 

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"MUSTANG", de Deniz Gamze Ergüven: Candidata francesa ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2016, esta estreia na realização é uma ode à resiliência defendida com graça e garra por um quinteto de jovens actrizes. Integrada na secção 20 Anos de Festa, acompanha cinco irmãs adolescentes do interior da Turquia privadas de qualquer contacto com exterior, depois de terem sido obrigadas a viver em casa do tio e da avó. Da repressão à revolta, este drama comparado a "As Virgens Suicidas", de Sofia Coppola, estabelece o seu próprio espaço e é um retrato da entrada na idade adulta (à força) que não merece ficar esquecido.

 

O amor é um lugar perigoso

Do Quénia e da Tailândia, respectivamente, "Rafiki" e "Manta Ray" passaram pelo QUEER LISBOA depois de terem feito um percurso elogiado em várias salas fora de portas. Mas entre as novidades da 23ª edição do Festival Internacional de Cinema Queer também ficam algumas curtas-metragens a reter (já outras, nem por isso).

 

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"RAFIKI", de Wanuri Kahiu: Esta edição do Queer Lisboa foi especialmente fértil em filmes que conciliaram o coming out e o coming of age, temática que está longe de ser novidade mas que continua a ser inspiradora. Infelizmente, também se mostrou mais inspiradora do que inspirada em muitas dessas novas obras, com variações pouco transgressoras de relatos de descoberta identitária e sexual.

 

"Port Authority", de Danielle Lessovitz, e "Skate Kitchen", de Crystal Moselle, foram exemplos simpáticos mas facilmente esquecíveis do cinema indie norte-americano recente - o primeiro com um romance entre um rapaz e uma rapariga trans, numa viagem à subcultura do voguing que uma série como "Pose" propõe com outra garra e carisma, o segundo uma resposta cândida e no feminino a "Kids", de Larry Clark, a partir do quotidiano de um grupo de skaters. Mais cru, "Sócrates", do brasileiro Alexandre Moratto, foi perdendo força ao ceder a muitos lugares comuns do realismo social, num remate a caminho do miserabilismo, desperdiçando a história de um adolescente homossexual orfão. Já "Carmen y Lola", da espanhola Arantxa Echevarría, conseguiu evitar algumas dessas armadilhas ao olhar para o relacionamento de duas raparigas da comunidade cigana, embora o final tenha sublinhado os desequilíbrios de um registo indeciso entre o quase documental e o quase telenovelesco.

 

É com a premissa de "Carmen y Lola", aliás, que a de "RAFIKI" mais se assemelha, ao também se centrar numa relação lésbica, ainda que num contexto completamente diferente. E aqui o contexto faz mesmo toda a diferença, ou não fosse este o primeiro filme do Quénia que olha para a homossexualidade de frente e sem julgamentos, o que o levou a ser banido dentro de casa, onde essa prática é considerada crime - por outro lado, garantiu um acolhimento de braços abertos em Cannes e marcou a estreia de uma obra do país na selecção do festival.

 

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Sendo um filme especialmente corajoso e engajado, tem outros méritos além dessa vertente e não merece ficar confinado a curiosidade sociológica. É certo que a narrativa abraça a convenção, como de resto acontece com "Carmen y Lola", cujo desenvolvimento das protagonistas segue as mesmas vias. Mas isso não é impeditivo de que vá surgindo aqui um drama vibrante, pela química das actrizes principais ou do olhar tão realista como garrido de um bairro dos subúrbios de Nairobi.

 

Kahiu cede, ocasionalmente, a alguns facilitismos dramáticos, nos diálogos ou na caracterização de parte das personagens secundárias, embora se saia bem numa conjugação difícil de idealismo, através da postura do casal face a uma homofobia institucionalizada e claustrofóbica, e de um sentido de urgência que se vai tornando cada vez mais acentuado. E se o choque de realidade do último acto é especialmente inquietante (e revoltante), "RAFIKI" não se afunda na vitimização e opta por um desfecho esperançoso, mas muito longe de utópico, num testemunho que daria uma boa sessão dupla com "And Then We Danced", outra das apostas meritórias do festival.

 

3/5

 

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"MANTA RAY", de Phuttiphong Aroonpheng: Primeira longa-metragem de um realizador com um percurso de dez anos no formato da curtas, este drama contemplativo confirma, por um lado, que o tailandês tem um sentido estético e atmosférico envolvente, expresso em três ou quatro sequências com uma força sensorial assinalável, mas também revela que essa singularidade formal não chega para suportar o seu filme de maior duração até agora. Por cada momento com algum fulgor há outros que vão tornando esta uma experiência de interesse intermitente, o que faz com que a relação entre dois homens de uma pequena aldeia costeira da Tailândia - um pescador e um desconhecido mudo que é encontrado por ele quase sem vida - vá ficando aquém do potencial dramático. E tanto é assim que a situação trágica dos refugiados Rohingya, uma das comunidades mais perseguidas do mundo, se arrisca a passar aqui praticamente despercebida junto de um espectador ocidental, apesar de o realizador assinalar que foi um dos motivos que o levaram a querer contar esta história. Com poucos actores, poucos diálogos e poucas viragens narrativas, Aroonpheng prefere deixar que as trocas de olhares ou a combinação de música e imagem falem por si (belo momento, aquele cantado pela personagem feminina que entra em cena a meio). Mas se a dedicação dos actores é palpável, o resultado talvez ganhasse se não os deixasse entregues a um argumento que se detém demasiadas vezes no lado mais místico e simbólico, que chega a ser hipnótico embora não mergulhe a fundo no conflito entre amizade, amor, intimidade e conjugalidade que esboça.

 

2/5

 

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Numa edição em que algumas longas-metragens seguiram um modelo mais padronizado, a competição de curtas mostrou-se um espaço dominado por abordagens que apontaram outras direcções. Em vários casos, promissoras: no atrevimento adolescente de "O Mistério da Carne" (Rafaela Camelo, Brasil), com a insolência a desafiar dogmas e conservadorismo; na sobriedade de "Tendresse" (Maxime Rappaz, Suíça), visita a uma sauna gay com a empatia a impor-se a tentações titilantes ou escabrosas; na melancolia de "Great Again" (Kirrilee Bailey, Austrália), com uma mãe e uma filha divididas pelas promessas e ameaças de Trump; na crueza de "Old Narcissus" (Tsuyoshi Shoji, Japão), relato da solidão e do envelhecimento entre passagens pelo humor e pelo S&M; no formalismo lúdico de "After... After... (Access)" (Jordan Lord, EUA), a juntar autobiografia e ironia; ou na candura de "A Gift" (Aditya Ahmad, Indonésia), com a lógica binária a sufocar o quotidiano de uma adolescente muçulmana.

 

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Mesmo que alguns dos filmes referidos acima tenham deixado a sensação de projecto inacabado, todos despertaram curiosidade em continuar a seguir as personagens e os realizadores. O mesmo já não se poderá dizer, no entanto, de "Printed Sunset" (Andrés Baron, Colômbia), retrato auto-indulgente e preguiçoso de um casal; de "Ant-Man" (Viet Vu, Vietname), provocação tosca e bocejante apesar do rigor e elegância formais; de "Pirate Boys" (Pol Merchan, Espanha), exercício documental demasiado hermético sobre trans e intersexualidade; e sobretudo de "Parsi" (Eduardo Williams, Mariano Blatt, Argentina), ensaio movido por uma voz off exasperante numa reflexão vaga e repetitiva sobre a diferença.

 

Também experimental, embora bem mais pop e ostensivo, "NEGRUM3" (Diego Paulino, Brasil) tem sido louvado como um retrato pungente da comunidade negra e queer paulista, mas parece perdido entre o apelo documental e a lógica de um videoclip. Estilo não lhe falta, só que o deslumbre pelos cenários e guarda-roupa sobrepõe-se a tudo o resto, ao ponto de uma enumeração de referências sugerir que o historial activista de Beyoncé ou de Solange está ao nível do legado de Nelson Mandela ou de Martin Luther King. Nada como (re)ver o filme de abertura do festival, o conterrâneo "Indianara", para lavar a vista (e as ideias) num manifesto que não se esgota na imagem.

 

Da dança ao grito, a revolta tem corpo e voz

"And Then We Danced", um dos filmes em competição, e "Indianara", que marcou a abertura, são dois  títulos a reter da 23ª edição do QUEER LISBOA, que se despede do Cinema São Jorge e da Cinemateca Portuguesa este sábado.

 

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"AND THEN WE DANCED", de Levan Akin: O concorrente sueco ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro está entre as boas surpresas da secção competitiva deste ano, sobretudo quando mostra ser capaz de ir além dos traços mais genéricos da narrativa boy meets boy da premissa. A relação do protagonista, um bailarino adolescente de dança tradicional da Geórgia, com um novo colega, é o ponto de partida para um olhar sobre a identidade, a masculinidade e a diferença que sai reforçado pelo desenho de um contexto particular - que não chega para desconstruir a fórmula de outros romances comparáveis mas resulta ainda assim refrescante. Akin, na sua terceira longa-metragem, mostra-se particularmente habilidoso a transitar entre o humor e inocência da primeira metade do filme e a vertente mais tensa e crua da recta final, sem que a empatia pelas suas personagens se perca no caminho. Levan Gelbakhiani, que se estreia como actor na pele do protagonista, é um achado de expressividade e desenvoltura, e ajuda muito para que esta jornada iniciática, por vezes a lembrar a de "Chama-me Pelo Teu Nome" ou "O Corvo Branco", reclame o seu próprio espaço (e com distinção). E tanto o jovem bailarino como o realizador atingem o estado de graça nos últimos momentos, os melhores do filme: desde dois planos-sequência seguidos, no interior de um prédio, tão fortes visual como emocionalmente, até aos derradeiros minutos, nos quais a dança diz tudo o que ficou por dizer. Venham os aplausos...

 

3,5/5

 

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"INDIANARA", de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa: Embora a inspiração para este documentário tenha sido o papel determinante da retratada na luta pelos direitos LGBTI+ no Brasil - e das pessoas transgénero em particular -, o resultado acaba por ser mais envolvente quando opta pela esfera íntima e não tanto pelos protestos na praça pública. É principalmente nesses que a protagonista se afirma como uma mulher multifacetada em vez de um mero símbolo de resistência, resiliência e revolta, com o ângulo doméstico a acabar por jogar a favor da vertente activista, ao aproximar Indianara do espectador. E felizmente consegue fazê-lo sem concessões, já que a dupla de realizadores não deixa de focar o lado mais temperamental da protagonista, evitando caracterizações idealizadas, mesmo que não deixe de se colocar ao seu lado na luta contra a opressão. O homicídio de Marielle Franco e a ascensão de Jair Bolsonaro, ambos captados com reacções à flor da pele, surgem como pontos-chave da batalha, ajudando a tornar este um documento oportuno das viragens (sociais e políticas) do Brasil nos últimos anos. Mas são os (muitos) pequenos momentos de Indianara ao lado do companheiro ou da comunidade a que deu abrigo, vincados por uma descontracção, humor e/ou ternura contagiantes, que vão elevando o filme acima do formato de grande reportagem televisiva e a justificar a sua presença num grande ecrã. O lado político talvez saia a perder nesse contraste (o afastamento de Indianara do seu antigo partido, abordado no final, deixa demasiadas questões em aberto), mas ganha-se um estudo de personagem bem recomendável.

 

3/5