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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um lugar ao sol (mesmo que seja pela noite dentro)

Underground System.jpg

Foto: FMM

 

Foram uma das boas surpresas da edição mais recente do Festival Músicas do Mundo e também dos maiores responsáveis pela festa que se instalou no Castelo de Sines no sábado passado, o último dia do evento.

 

Radicados em Nova Iorque mas com uma formação que inclui elementos de várias origens, os UNDERGROUND SYSTEM deram uma lição de ritmo e versatilidade pela noite dentro, numa viagem que teve o afrobeat como mote mas que foi capaz de se estender a outras paragens sem grande esforço.

 

A destacar-se como mestre de cerimónias de uma banda coesa, a afro-italiana Domenica Fossati terá sido das frontwomen mais magnéticas do festival, entregando-se à flauta, canto e dança com a mesma desenvoltura e a comandar uma actuação bamboleante. Ao terminar com uma (conseguida) versão de "Blue Monday", dos New Order, o colectivo deu conta da postura aglutinadora que orienta a sua música e que o álbum de estreia, "What Are You", já tinha exposto no ano passado.

 

 

"JUST A PLACE", o novo single, também recorda os inícios de uns certos anos 80 ao mergulhar no lado mais febril da new wave, com descendência directa de uns Tom Tom Club e de alguns caminhos percorridos pelos Blondie (ou ainda dos primeiros dias das Luscious Jackson ou dos New Young Pony Club). Sobretudo nos minutos iniciais, com o baixo e palmas a marcarem o ritmo, lado a lado com as palavras de ordem de Domenica, antes de os sopros entrarem em cena num combo disco/funk. O jogo de memórias também acaba por dominar o videoclip, sem deixar de acompanhar uma banda pronta a fazer uma festa (e a ganhar outros contornos nas muitas remisturas do tema editadas há poucos dias):

 

 

Transe de uma noite de Verão

Yasmine Hamdan

 

Juntamente com os Mashrou' Leila, YASMINE HAMDAN será a principal artista independente libanesa a ter-se feito notar fora de portas nos últimos anos, com um percurso musical que já tem cerca de duas décadas. Depois de três álbuns com as Soapkills, dupla que formou com Zeid Hamdan na viragem do milénio, editou um disco com Mirwais (produtor de "Music" e "American Life", de Madonna), no projecto Y.A.S., em 2009, antes de apostar numa carreira a solo em 2013, com "Ya Nass" (composto e gravado com Marc Collin, dos Nouvelle Vague).

 

Ainda assim, o seu maior "palco" internacional é bem capaz de ter sido o de "Só os Amantes Sobrevivem" (2013), ao cantar e dançar e dançar numa das cenas-chave desse filme de Jim Jarmusch - mas a ligação ao cinema já vinha de trás, uma vez que é casada com o realizador palestiniano Elia Suleiman e teve alguns trabalhos como actriz.

 

"Hal", a tal canção que fascinou as personagens de Tilda Swinton e Tom Hiddleston, também ficou entre os picos da actuação da libanesa no castelo de Sines, num dos últimos concertos do Festival Músicas do Mundo, no sábado passado. E ao surgir a meio do alinhamento do espectáculo, o tema marcou a viragem entre uma faceta contida e uma postura agreste e intensa, que a obra gravada dificilmente faria antever.

 

Yasmine Hamdan FMM

Foto: FMM

 

Não foi a estreia de YASMINE HAMDAN por cá nem o último regresso - como o confirma o concerto no festival de Paredes de Coura, já a 18 de Agosto -, mas permitiu conhecer melhor uma figura que insiste em manter-se enigmática, tanto pelas poucas vezes em que se dirigiu ao público como por uma música que junta tradição árabe a heranças do trip-hop mais agreste ou de um rock próximo do shoegaze, numa linguagem que parece estar em constante mutação.

 

Esse lado mais encorpado, a milhas do híbrido pop/folk de um disco como "Al Jamilat" (2017), só é possível devido ao formato banda com o qual a cantora se apresenta ao vivo - e prova que continua a saber escolher as companhias, tendo em conta a coesão instrumental e o efeito sempre hipnótico do alinhamento.

 

Yasmine Hamdan FMM2

 

Da belíssima "Assi" às mais sombrias "Cafe" ou "Nediya", passando por um final declaradamente feminista, a fazer lembrar a fase mais aguerrida de uma PJ Harvey, foi uma actuação que vincou um nome a acompanhar, sobretudo num palco - e de preferência ao longo de mais de uma hora.

 

Nos discos também têm surgido novidades. Ao segundo álbum seguiu-se o disco de remisturas "Jamilat Reprise", editado este ano, que sujeita as canções de Hamdam às manobras de gente como Arab Music ou Matias Aguayo. A aposta oficial, no entanto, é a releitura de "DOUSS" por George Bshoum, em modo electroacústico mas a manter o travo sereno do original - uma atmosfera que também passa por um videoclip a conjugar melancolia e esperança:

 

 

Da Austrália ao México, com escala num palco de Sines

Opal Ocean 2018

 

Foram uma das revelações do Festival Músicas do Mundo e tornaram um até então pacato final de tarde à beira-mar, em Sines, num concentrado de desvario e simpatia. Vindos da Austrália, os OPAL OCEAN não precisaram de mais do que duas guitarras acústicas para juntarem e atiçarem uma multidão no sábado passado, com as canções instrumentais do EP de estreia "Terra" (2015) e do álbum "Lost Fables" (2016).

 

Se pelo meio ameaçaram acompanhar um início de noite na linha de uma banda de covers, com uma versão de "We Will Rock You", dos Queen, grande parte do que se ouviu nasceu mais da promiscuidade entre rock e flamenco, combinação que já prometia nos discos mas atinge outros voos ao vivo. Não que seja uma mistura inédita: no concerto, a dupla até agradeceu a outro duo, Rodrigo y Gabriela, a inspiração para o que começou a moldar em 2013, numa cave de Melbourne. E quem viu o projecto do francês Alex Champ e do neo-zelandês Nadav Tabak na Praia Vasco da Gama também terá agradecido por arrasto, ou pelo menos aderiu à descontração destes mestres de cerimónias e à efervescência que teimou em triturar coordenadas, com estilhaços rumba ou metal.

 

Exemplo claro de que menos pode ser mais, as guitarras foram muitas vezes utilizadas como instrumento percussivo e os OPAL OCEAN nem precisaram de nenhum adereço (ou músicos) extra em palco para terem o público na mão - no final, quase todos os espectadores se baixaram, acedendo ao pedido da dupla, para voltarem a ficar de pé quando o ritmo também se impôs. Quem não teve o prazer de os conhecer, tem em "MEXICANA", o novo single, um cartão de visita esclarecedor (e que motivou um dos pontos altos desta estreia em Portugal):

 

 

Foto: FMM

 

"Ninguém parado, ninguém calado"

elza_soares

 

Apesar de não ter contado com um cartaz tão sonante como os de algumas edições anteriores, o VODAFONE MEXEFEST, que regressou a Lisboa na passada sexta e sábado, ainda contou com uma mão cheia de bons concertos. No SAPO Mag, recordo os dos Jagwar Ma, Nao, Sunflower Bean e Medeiros/Lucas, no primeiro dia, e de Elza Soares, Digable Planets e Señoritas, no segundo.

 

Volta ao mundo em três dias

Noite esgotada, castelo repleto, África escolhida como protagonista. O FESTIVAL MÚSICAS DO MUNDO (FMM) despediu-se de Sines no sábado depois de ter arrancado em Porto Covo, na semana anterior, e fechou em alta com uma dupla pai e filho. Mas houve outros concertos para recordar...

 

FMM_Sines_publico

 

Quando a oferta é muita... a curiosidade é atiçada? Tem sido assim em Sines nos verões dos últimos 17 anos e a edição mais recente do FMM voltou a ser ocasião para reencontros e descobertas, romarias de avós e netos (juntos ou em separado), concertos gratuitos e pagos (alguns agendados, outros improvisados em qualquer esquina sem serem encarados como parentes pobres).

 

Quem, como eu, só conseguiu passar por lá nos últimos três dias ainda teve exemplos suficientes da diversidade do cartaz, que tenta encaixar cinco continentes nos poucos metros entre o castelo e a praia (e, ao contrário da maioria da oferta da estação, não dá primazia à facção anglo-saxónica).

 

Bruno Pernadas mostrou o lado mais exótico da prata da casa, com harmonias vocais e um combo instrumental a servirem de brisa de final de tarde. Chegados do outro lado do mundo, os chineses Shanren extremaram os contrastes num caldeirão com raízes locais e condimentos entre o rock, o reggae e até o metal, conjugados com simpatia e humor. Menos surpreendente, Alo Wala, norte-americana de ascendência indiana, serviu música de dança mestiça contaminada por hip-hop ou dancehall demasiado encostada a M.I.A. (a imagem reforça a comparação), mas capaz de instalar a festa sem dificuldades na última noite, em modo discoteca ao ar livre - o jogo de luz e cor ajudou, tal como a explosiva "In a Minute", faixa em que colaborou com os Buraka Som Sistema. E se não terão faltado outros concertos a deixar marca (houvesse tempo para espreitar todos), as melhores recordações ficaram por conta dos três abaixo:

 

TOUMANI & SIDIKI DIABATÉ no Castelo - sábado, 25 de Julho

 

Toumani_&_Sidiki_Diabaté

 

Pai e filho, o espiritual e o espirituoso, dois músicos que valeram por pelo menos seis. Porque como explicou Toumani, a kora, tocada por ambos, equivale a três instrumentos (e a sua música nasce da conjugação entre baixo, melodia e improviso). A "missão de vida" destes malianos, realçou também o pai, era "mostrar a beleza de África" e será seguro dizer que foi cumprida sem contrariedades.

 

Actuais representantes de uma tradição com mais de 700 anos, nascida da peculiar harpa de 21 cordas, Toumani e Sidiki são também dois dos nomes centrais da música do Mali - o pai, veterano respeitado, já colaborou com Björk, Damon Albarn ou Ali Farka Touré; o filho é uma estrela hip-hop em ascensão que não descura a herança cultural familiar. A Sines trouxeram as canções do álbum "Toumani & Sidiki" (2014), o único editado em conjunto até agora, já apresentado em Fevereiro na Culturgest, em Lisboa. Para quem ainda não o conhecia, terá ficado como uma das maiores revelações desta edição do FMM, até porque as actuações que fecharam a última noite no castelo, a cargo de Salif Keita e Orlando Julius & The Heliocentrics, limitaram-se a muito profissionalismo com pouco rasgo.

 

Sem tanta pompa, a dispensar o formato a caminho da big band, a dupla Diabaté mostrou que menos pode ser mais ao enlear milhares em instrumentais cristalinos, cujo aparente minimalismo esconde camadas atravessadas por sugestões de melancolia a esperança. A introspecção nem sempre se deu bem com uma multidão em horário nobre - quanto mais longe do palco, mais incomodativo era algum burburinho do público -, mas nem isso abalou a experiência por aí além.

 

Pelo meio houve espaço para um mini-workshop de kora, oferecido por Toumani, o mais comunicativo do duo - também foi ele que apelou, no fim, a que os dirigentes políticos valorizassem mais o plano humano do que o económico, pedido complementado por "Lampedusa", tema de homenagem a migrantes ilegais desaparecidos no mar. Aparentemente mais despreocupado, Sidiki equilibrou a seriedade e comoção do pai com um à vontade inabalável, quase sempre traduzido em gestos e olhares. Da óbvia química entre os dois nasceu um concerto a provar que a beleza de África passa mesmo por aqui - e é bom ouvir alternativas aos surtos de kizomba duvidoso de tantas outras paragens. Para ouvir: "Dr. Cheikh Modibo"

 

 

IVA NOVA na Avenida da Praia - sexta, 24 de Julho

 

Iva_Nova

 

A primavera russa começa em Sines? Foi o que pareceu ao ver esta girl band que de girly pouco teve. The Organ meets Yann Tiersen é só um eventual princípio de canções mutantes com atitude à altura e adesão imediata - a folia dos Gogol Bordello entrecruzada pela electrónica e dicção de Mãozinha (lembram-se?) poderia ser outra entrada possível. Mesmo assim seriam só aproximações à singular "technofolk" (a classificação é da vocalista) deste quarteto de São Petersburgo. Aliar (ou confrontar) tradição e modernidade não é novidade, em alguns casos até é aposta arriscada - sobretudo quando a modernidade resulta em música "modernaça" -, mas as Iva Nova parecem uma aposta confiável, pelo menos ao vivo.

 

A apresentação do quarto álbum, editado no ano passado, motivou a estreia em Portugal e deixou a vontade de conhecer também os anteriores. Não terão, claro, o bónus de permitir testemunhar o gozo e entrega de uma banda decidida a aproveitar cada momento junto de um público que cresceu em número e entusiasmo. Da postura rock n' roll da baixista e da baterista ao lado mais circense da acordeonista e da vocalista, não faltou desenvoltura nem episódios a guardar.

 

"Hoje é o dia da emancipação feminina", comentava alguém enquanto o grupo fazia a ponte entre a tarde e a noite à beira-mar. Mas para as Iva Nova esse grito já parece ter chegado em 2002, quando se juntaram para levar a palco histórias tristes de noivas búlgaras (um dos idiomas das canções, ao lado do georgiano, ucraniano e, claro, russo) que terminam em ambiente de festa na aldeia patrocinada por Goran Bregovic. E que bonita foi, à imagem da banda. Para ver e ouvir: "Spring" (ao vivo)

 

 

IDIOTAPE na Avenida da Praia - quinta, 23 de Julho

 

Idiotape

 

Antes destes três coreanos subirem a palco, foram apresentados como uma banda inspirada pelo rock conterrâneo clássico dos anos 60 e 70 - descrição confirmada pelo site do festival. Mas não é preciso conhecer muito o rock coreano clássico para desconfiar que a música dos Daft Punk, Digitalism, Vitalic ou Justice terá sido tão ou mais influente (com ênfase no mais).

 

Resposta sul-coreana ao french touch? É tentador dizer que sim, e se chega com atraso não deixa de ser eficaz naquilo a que se compromete. Para o horário das quatro da manhã, este ataque sónico de house e electro maximal cumpriu perfeitamente, pelo menos para quem já sabia no que se ia meter: entre batidas robustas, ritmos acelerados, crescendos desenfreados mas geridos por quem tem a lição bem estudada.

 

A electrónica é dominante, mas o rock também acaba por passar por aqui, apesar de este power trio só manter a bateria da formação instrumental clássica (em palco, porque o baixo e a guitarra também se ouvem, embora sintetizados). A presença dos músicos não passou despercebida e nem foram precisas palavras para a energia dos três incitar reacções do público - compare-se com as estrelas DJs da geração EDM e vejam-se as diferenças. Também é verdade que esse poderio, a amplificar a vertente live, não chegou para evitar um alinhamento a rodar em seco na recta final, vítima de alguma rigidez rítmica. Mas a atenção foi devidamente resgatada na despedida, com um trunfo muito bem jogado: "Sabotage", dos Beastie Boys, disparada com embrulho electrónico. Depois de Seul e Paris, Nova Iorque dos anos 90 ajudou a fazer a noite. Não admira que o novo disco se chame "Tours"... Para ouvir: "Melodie"

 

 

Fotos @Facebook do Festival Músicas do Mundo