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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Fundo de catálogo (115): Scissor Sisters

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Em vez de um difícil segundo álbum, os SCISSOR SISTERS tiveram uma fase mais crítica na altura de editar o terceiro. Mas dez anos depois, "NIGHT WORK" continua a comprovar que o risco valeu a pena - é o melhor dos nova-iorquinos e um dos grandes discos pop da década passada.

De banda do circuito underground da cidade que nunca dorme a fenómeno global, a ascensão dos SCISSOR SISTERS foi rápida e inesperada. Entre o álbum de estreia homónimo, editado em 2004, e o sucessor "Ta-Dah", nascido dois anos depois, o quarteto viu a sua sensibilidade queer e camp ser abraçada pelo mainstream, sobretudo fora de portas, enquanto encontrou vias para uma pop moderna com descendências óbvias dos anos 70.

Um dos cartões de visita, a versão muito livre (e controversa) de "Confortably Numb", dos Pink Floyd, deu logo sinais de um atrevimento que foi da música à imagem, mas a irreverência dos primeiros tempos esmoreceu quando o alinhamento inicial do terceiro disco continha canções mais acomodadas. Ou assim pensou Jake Shears, além de vocalista o principal compositor, que decidiu guardar mais de uma dezena de inéditos na gaveta e recomeçar. Só que ao contrário dos álbuns anteriores, recomeçou fora de Nova Iorque, elegendo Berlim como refúgio de um período no qual lidava com uma depressão.

Shears não esteve sozinho na capital alemã. Os amigos Pet Shop Boys, que também lá moravam em 2008/2009, ajudaram-no a situar-se criativamente e sugeriram um produtor para o novo álbum: Stuart Price, que tinha produzido "Confessions on a Dance Floor" (2005), de Madonna, um dos picos instantâneos tanto da obra do britânico como da rainha da pop. A ideia rapidamente ganhou forma e ajudará a explicar porque é que o terceiro disco dos SCISSOR SISTERS é o mais virado para as pistas.

Price não nada era estranho a ambientes electrónicos (afinal, tinha sido o homem dos Les Rythmes Digitales ou Zoot Woman) e Shears redescobriu-os em discotecas berlinenses como a icónica Berghain - em noites de sexo, drogas e música de dança que teriam reflexo directo na segunda (e definitiva) versão de "NIGHT WORK", das letras à sonoridade.

O apelo físico e noctívago destas canções reveladas no Verão de 2010 deve menos aos anos 70 do que à década seguinte, sobretudo a hinos synth-pop subversivos como "Relax", dos Frankie Goes to Hollywood, que Shears apontou como canção-chave para o conceito do disco. E se a escola dos Bee Gees ou de Elton John não terá sido completamente esquecida, "NIGHT WORK" sugere principalmente audições dos cúmplices Pet Shop Boys ou dos seus contemporâneos Soft Cell, em especial na faceta mais sombria do alinhamento (caso dos relatos de noites bravas das superlativas "Sex and Violence" ou "Something Like This", entre a solidão e a comunhão, a festa e a decadência).

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O humor não fica de fora e incita algumas das letras mais espevitadas dos SCISSOR SISTERS, em faixas na linha de "Harder You Get" ("Don't point that thing at me unless you plan to shoot"), "Whole New Way" ("My sneak up from behind is gonna blow your mind") ou "Skin This Cat" (esta a única cantada por Ana Matronic, aqui próxima da vertente luxuriante dos Goldfrapp).

O capítulo mais ousado do grupo desde os tempos em que era um fenómeno de nicho foi logo vincado pela capa do disco, uma foto de Robert Mapplethorpe ao bailarino Peter Reed, tirada em 1980. Mantê-la transformou-se numa das maiores batalhas de Jake Shears, que encontrou resistência na editora e mesmo dentro da banda.

O homoerotismo da imagem esteve longe de ser acidental, abrindo a porta a um alinhamento que, mais do que um olhar amplo sobre a vida nocturna, explora com alguma crueza a noite de ambientes LGBTQI+, sem cedências a um filtro heteronormativo. "Fire With Fire", o primeiro single, será das poucas excepções e é dos temas dos quais o vocalista revelou estar menos orgulhoso. Apontado às playlists radiofónicas, também é daqueles em que os SCISSOR SISTERS se levam mais a sério e destoa particularmente na primeira metade do disco, de tom espirituoso e desbragado.

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"Invisible Light", por outro lado, fecha o álbum da melhor forma e mostrou-se um single mais condizente com um álbum ecléctico e destemido. Sir Ian McKellen, convidado de honra numa participação em spoken word, ajuda a deixar aqui um dos capítulos mais memoráveis e épicos da banda - e que pode ser encarado como descendente espiritual do hedonismo assombrado de "Relax".

Menos conhecidas foram as contribuições de Santigold, na composição e coros da new wave desopilante de "Running Out", e de Kylie Minogue, cuja voz também se ouve lá ao fundo numa "Any Which Way" que faz a ponte com os discos anteriores. Mas são dois bons motivos para (re)descobrir o pico criativo de um percurso em hiato desde o registo sucessor, o mais irregular "Magic Hour" (2012), e que apenas teve sucessão na (promissora) carreira a solo de Shears. "You can find your life in the night life", cantou aqui o norte-americano - e acabou por se (re)encontrar na noite de Berlim e num terceiro álbum revigorante.

Fundo de catálogo (114): Björk

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Um dos álbuns mais caleidoscópicos de Björk continua a ser também dos mais acessíveis e vibrantes. Editado há 25 anos, "POST" foi uma montra das possibilidades da pop da década de 90 e da visão iconoclasta da islandesa.

Ao lado de bandas conterrâneas como os Kukl e sobretudo os Sugarcubes, Björk já se tinha imposto como uma figura e voz singular, captando atenções a cada novo registo, num percurso que lhe deu experiência e confiança para arriscar uma aventura a solo bem sucedida, em "Debut" (1993).

Não sendo exactamente uma estreia em nome próprio - essa ficou documentada num discreto álbum homónimo, editado aos 11 anos -, o disco foi a grande alavanca para as atenções internacionais que tornaram a islandesa numa figura de proa da pop dos anos 90. E depois de esse primeiro passo ter sido uma pedrada no charco, com adesão expressiva do público e da crítica, "POST" (1995) assegurou que o fantasma do "difícil" segundo álbum (de edição internacional) não marcaria esta carreira.

Levando mais longe o encontro de linguagens orgânicas e electrónicas, sem nunca perder de vista o formato canção (compromisso que edições posteriores já não garantiriam), o alinhamento, ouvido à distância de 25 anos, consegue fazer sombra a muitos best of, tendo em conta a colecção impressionante de singles. Alguns dos maiores clássicos de Björk ainda moram aqui e marcam um tempo no qual aliava arrojo e popularidade, mérito não só da sua curiosidade avessa a categorizações e géneros mas também de uma lista de colaboradores escolhida a dedo.

Nellee Hooper, um dos aliados-chave de "Debut", partilhou o produção com nomes do calibre de Tricky, Howie B e Graham Massey, este um cúmplice habitual já desde os tempos dos 808 State (banda que convocou a islandesa para algumas canções). Mark "Spike" Stent, Guy Sigsworth, Marius de Vries ou Talvin Singh (antes de se tornar figura de referência do asian underground) foram outras forças criativas de um álbum que também teve aliados de peso na altura de pensar a imagem - do fotógrafo Stéphane Sednaoui a Michel Gondry e Spike Jonze, realizadores de videoclips icónicos para a geração MTV.

Além de uma equipa de luxo, "POST" beneficiou da mudança da sua autora para Londres e da imersão num caldeirão cultural especialmente condimentado com novos ingredientes da música de dança. Depois das aproximações house do disco anterior, aqui Björk aceitou convites do breakbeat e do trip-hop, até porque se encontrava no lugar certo na altura certa. Ou mesmo de contornos industriais na abertura imponente a cargo de "Army of Me", a lançar pistas para ambientes caóticos retomados nas superlativas "Enjoy" (uma das pérolas esquecidas de Tricky) e "I Miss You", ambas com sujidade e ambição fusionista trazida de algum jazz.

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Mais harmoniosa, mas sem abdicar da vertigem, "Hyperballad" fez um casamento perfeito entre o digital e o orquestral, combinação com outro pico na grandiosidade bucólica de "Isobel" (com o poeta islandês Sjón a assumir o papel de co-compositor).

Se nestas letras Björk pareceu dividir-se entre a introspeção e a abertura ao mundo, o conforto e o risco, a solidão e a comunhão, a nível sonoro atirou-se de cabeça a estímulos do exterior. "Look at the speed out there/ It magnetizes me to it", confessa em "Enjoy", e essa sensação de descoberta urgente ainda é palpável num disco que só perde algum fulgor no final, este mais virado para dentro, com "Cover Me" e "Headphones" - apontamentos curiosos mas que resistem melhor no contexto do álbum do que ouvidos isoladamente.

Já "It's Oh So Quiet", embora marque pontos pela aposta no inesperado e seja dos temas mais emblemáticos desta fase, destoa no alinhamento ao trazer a pompa de uma big band sem acrescentar muito à versão de Betty Hutton, dos anos 50 - e acaba por ser dos momentos musicalmente mais conservadores. Não que alguma destas faixas comprometa (longe disso), aquele que ainda está, duas décadas e meia depois, entre os episódios de menção obrigatória de uma discografia tão inimitável como irregular.

Fundo de catálogo (113): Marina and the Diamonds

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Dez anos depois da edição, "THE FAMILY JEWELS" não só mostra que é um álbum que envelheceu bem como se destaca, com alguma distância, enquanto jóia da coroa da discografia de MARINA AND THE DIAMONDS. Fazem(-lhe) falta mais destes.

Depois de Florence and the Machine, La Roux ou Little Boots terem editado discos de estreia no ano anterior, Marina Diamandis apostou no formato longa-duração no início de 2010 e deixou mais um contributo para uma colheita refrescante e idiossincrática de pop no feminino, frequentemente em terreno electrónico e com influências claras de nomes dos anos 80. Ao lado de Florence Welch, a galesa propôs um dos conjuntos de canções mais teatrais e exuberantes, mas não se levou tão a sério como a voz de "Dog Days are Over" e fez mais vezes mira às pistas.

Apesar do apelo dançável, as letras não se esgotaram na celebração do hedonismo e apresentaram alguns dos retratos mais incisivos, singulares e espirituosos desse tempo em cenário pop, onde tanto cabiam as inevitáveis reflexões sobre relacionamentos amorosos mas também um mergulho interior e existencial ou farpas à obsessão pela fama e tentações consumistas.

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Teclados, sintetizadores e arranjos de cordas sobressaíram entre as camadas de uma produção barroca, manta instrumental para a voz imponente e maleável de Diamandis, com maneirismos a sugerir audições atentas de Kate Bush, Tori Amos ou Leve Lovich. O alinhamento, que contou com Liam Howe (ex-Sneaker Pimps), Greg Kurstin ou Starsmith na equipa de produtores, não defraudou a promessa de "The Crown Jewels EP" (2009) nem os sinais de confiança da BBC Poll of 2010 ou dos BRIT Awards (cuja nomeação para o Critics' Choice Award ajudou a despertar as primeiras atenções).

Singles como "Shampain", "Oh No!" ou "Hollywood" foram exemplos eloquentes de uma pop tão borbulhante como irónica, "I Am Not a Robot" mostrou que também havia por aqui uma sensibilidade melancólica, que passaria ainda por "Numb" ou "Rootless", e "The Outsider" e "Hermit the Frog" são talvez as duas jóias mais esquecidas - a primeira um hino sobre a diferença nascido da new wave, a segunda a mostrar que a distância entre as arábias e o cabaret pode ser curta, naquele que é talvez o pico de criatividade e delírio desta estreia.

"Electra Heart" (2012), o álbum sucessor, alargou o jogo entre realidade e ilusão, embora poucas canções tenham estado à altura da ambição conceptual. E se "FROOT" (2015) reacendeu a chama com alguns momentos de inspiração ao nível dos primeiros tempos, "Love + Fear" (2019) foi um quarto disco tão demorado como anémico, e já com a sua autora a editar apenas como MARINA. Decididamente, e como "The Family Jewels" tão bem comprova, os diamantes não deveriam ter deixado de ser os seus melhores amigos.

Fundo de catálogo (112): Yeah Yeah Yeahs

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Depois de uma estreia marcante e de um segundo álbum à altura, à terceira os YEAH YEAH YEAHS também não desiludiram. Editado em Março de 2009, "IT'S BLITZ!" mantém-se um dos álbuns mais contagiantes do seu tempo.

 

Atirados para o caldeirão de bandas que revisitaram o garage e/ou o pós-punk em inícios do milénio, os YEAH YEAH YEAHS destacam-se hoje não só por serem dos sobreviventes dessa vaga mas por terem uma das discografias mais meritórias e consistentes.

 

Se em muitos casos a surpresa se esgotou ao primeiro ou ao segundo álbum, o percurso do trio nova-iorquino foi capaz de manter uma frescura e versatilidade que uns Strokes ou uns Interpol (já para não falar de inúmeras bandas da segunda ou terceira divisão) foram perdendo pelo caminho.

 

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"Mosquito" (2013), o quarto álbum, será o menos consensual, embora não envergonhe o que está para trás e voltou a dar provas de um grupo decidido a não se repetir. Mas também era difícil manter a coesão do terceiro, um ponto de encontro revigorante entre a descarga de "Fever to Tell", de 2003 (sem nunca chegar a aproximar-se da crueza e suor dessa estreia) e a faceta contida do belo "Show Your Bones", de 2006.

 

O peso das guitarras, dominante nesses dois primeiros discos, cedeu espaço aos sintetizadores em "IT'S BLITZ!", numa transição que não era propriamente inesperada entre outras bandas indie da altura - dos Franz Ferdinand aos Bloc Party ou Kaiser Chiefs -, ainda que poucas a tenham feito tão bem como Karen O, Brian Chase e Nick Zinner. Os Strokes também seguiriam por esse caminho em "Angles" (2011), sem chegarem a um alinhamento especialmente memorável, e talvez só "Reflektor" (2013), dos Arcade Fire, tenha resultado tão inspirado numa viragem semelhante.

 

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"Zero" e "Heads Will Roll", simultaneamente os dois primeiros singles e temas de abertura do álbum, confirmam hoje o estatuto de clássicos instantâneos que insinuavam na altura. São também dois dos momentos mais vertiginosos não só do disco mas de toda a carreira dos YEAH YEAH YEAHS, o que não é dizer pouco.

 

Depois de ter sido comparada a Siouxsie Sioux ou à faceta mais agreste de PJ Harvey na altura da estreia, Karen O mostrou-se descendente espiritual do hedonismo de uma Debbie Harry em "Zero" (e a canção também tinha ecos das vitaminas pop dos Blondie) enquanto retomou a sua postura mais caótica em "Heads Will Roll", single demolidor e alvo de várias remisturas que o tornaram numa coqueluche das pistas de dança (tanto em terreno hipster como EDM e mais além).

 

 

 

 

Esses cartões de visita foram tão impactantes que às vezes parecem ofuscar tudo o resto que "IT'S BLITZ!" tem para oferecer. E é muito, mesmo que concentrado em apenas dez temas (vale a pena procurar as faixas bónus de algumas edições, "Faces" e "Clap Song", que aprofundam a faceta espirituosa do disco).

 

O álbum nunca volta a ser tão efusivo como no arranque, mas isso está longe de ser um problema quando oferece canções do calibre de "Skeletons" e "Runaway", óptimos desenvolvimentos da vertente intimista de "Show Your Bones", enquanto que "Dull Life" ou "Shame and Fortune" asseguram a descendência do nervo punk. Entre esses extremos, "Soft Shock" e "Hysteric" apresentam uns YEAH YEAH YEAHS tão encantatórios como enérgicos - e maduros no melhor sentido do termo, sem se refugiarem na sua zona de conforto. Grande forma de encerrar uma das melhores trilogias do rock dos anos 00, este "IT'S BLITZ!".

 

 

Fundo de catálogo (111): PJ Harvey

Is This Desire

 

Muitas vezes esquecido numa discografia à qual não faltam pontos altos, "IS THIS DESIRE?" foi dos passos mais aventureiros de PJ HARVEY - e dos seus álbuns com um parto mais conturbado. 20 anos depois, continua a ser um retrato sublime (e às vezes difícil) de experiências femininas à beira do abismo.

 

Depois de três álbuns que a tornaram, para muitos, na primeira dama do rock e do blues dos anos 90, Polly Jean Harvey terminou a década num registo inesperadamente implosivo, a milhas dos riffs viscerais de "Dry" (1992) e "Rid of Me" (1993) e da teatralidade de "To Bring You My Love" (1995), este último a impor um patamar especialmente elevado no percurso da britânica - é, ainda hoje, um dos seus discos mais consensuais.

 

"IS THIS DESIRE?", no final de 1998, fez figura de "difícil" quarto álbum, consideravelmente menos acessível do que qualquer um dos anteriores e até com recantos impenetráveis aos primeiros contactos. Mas também caso evidente de um disco que pede tempo e recompensa audições repetidas, convidando ao mergulho nos retratos de várias mulheres (muitas a darem título às canções), todas com experiências no limite do desejo, do abandono ou da tragédia.

 

The Wind

 

Sucessão de contos dominados por um pessimismo que chega a ser críptico (confirmar na secura distorcida de "My Beautiful Leah") e sorumbático (no cântico moroso da esquelética "Electric Light"), o alinhamento dá prioridade a uma PJ HARVEY em modo sussurrante mas não reprime por completo o grito de outros tempos ("The Sky Lit Up" ou "No Girl So Sweet", fulminantes, ajudam a dar outra vertigem à jornada) nem as oscilações recorrentes entre um registo grave e agudo (a testar, talvez como nunca antes, as potencialidades da sua voz, num processo de assimilação pouco imediata). 

 

A faixa-título, a última do alinhamento, traz finalmente alguma luz a um disco nebuloso e atmosférico, nascido de um período criativo que a britânica coloca entre os mais obsessivos da sua obra, vivido numa fase de recolhimento entre Londres e Dorset, a sua cidade-natal. Mas também como o mais arrojado e gratificante até à data, com uma sonoridade exploratória que teve os já habituais John Parish, Mick Harvey e Rob Ellis entre os cúmplices.

 

Desire

 

Flood, na produção, terá sido responsável pela presença rude e até fantasmagórica do baixo em várias ocasiões. Marius De Vries também ajudou a consolidar o efeito sensorial de um álbum no qual o piano e a electrónica roubam protagonismo às guitarras, com contaminações de ambientes industriais ou do trip-hop mas sem se fixarem num território específico (o borrão sonoro de "Joy" fica como um dos exemplos mais claros e cinéticos).

 

Entre os episódios particularmente memoráveis destas colaborações contam-se uma "The Garden" enigmática e inquietante - numa rara ocasião em que o relato feminino cede espaço ao masculino -, lado a lado com o romantismo de "Angelene", no belíssimo arranque pintado a blues, e sobretudo de "The River", que em alguns dias parece subir ao pódio das melhores canções de sempre de PJ HARVEY - mérito de uma das suas interpretações mais comoventes e de uma moldura sonora que aperfeiçoa a grandiosidade de "To Bring You My Love". Não é feito de que muitos álbuns possam orgulhar-se, convenhamos, e está entre os óptimos pretextos para (re)descobrir um dos discos mais singulares de finais dos anos 90...