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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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E a categoria é... terminar

"POSE" já começou a dizer adeus, numa terceira e última temporada que também é a mais curta, com apenas sete episódios. Os três primeiros mantêm as qualidades e as fragilidades de uma das séries mais queridas de Ryan Murphy ("American Horror Story", "Glee"), disponível na HBO Portugal.

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Independentemente da forma como vai terminar, "POSE" já fez história na televisão ao dar voz a uma subcultura que raramente tinha sido alvo de atenção no pequeno ou no grande ecrã, e menos ainda como protagonista. É certo que representatividade não é garantia de qualidade, mas a série criada por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals foi marcante não só por mergulhar nos bastidores da cena voguing nova-iorquina dos anos 80, e em particular nos transexuais que compunham grande parte desse ambiente, como por dar dignidade e espessura dramática a figuras que noutros retratos ficam muitas vezes sujeitas a uma caricatura colorida.

Depois de uma primeira temporada com uma consistência assinalável na escrita, realização e interpretação e de uma segunda mais irregular no argumento, a aposta do FX já começou a despedir-se de uma galeria de personagens que vai deixar saudades. Afinal, são elas o melhor da série, e os argumentistas não deixam de lhes demonstrar um apreço comparável ao de muitos fãs no arranque da terceira temporada. Talvez até demais, quando isso chega a minimizar a tensão de alguns arcos, como o do segundo episódio, centrado na crise existencial de Pray Tell. Se o capítulo começa por propor um mergulho arrojado nos abismos da personagem, enquanto permite a Billy Porter explorá-la com o talento do qual já não precisa de dar provas, a sua jornada pelo alcoolismo acaba por evoluir de forma convencional, com um remate demasiado conveniente e sem a gravitas que poderia atingir.

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Felizmente, os outros episódios já estreados são mais recompensadores. O primeiro tira partido da dinâmica da família de outsiders, que volta a reunir-se para aceitar um novo desafio nos ballrooms enquanto se vê obrigada a despedir-se de um elemento. Já o terceiro é dos mais ambiciosos de toda a série, com uma viagem reveladora ao passado de Elektra (e não só) que enriquece a história dessa personagem e permite que a inimitável Dominique Jackson alcance outros voos interpretativos, além de ajudar a dar outra luz ao percurso da família que escolheu.

Tal como na recente "It's a Sin" (também disponível na HBO Portugal), o retrato partiu dos anos 80 e termina nos 90, não passando ao lado dos traumas do VIH. Mas "POSE" tem mais tempo para investir nos seus protagonistas e propõe um olhar mais abrangente sobre a comunidade LGBTQI+, destacando-se ainda por dar palco a afro-americanos e latinos, que ainda continuam a ser demasiado esquecidos nessas narrativas. E embora caminho que conduza à tragédia possa ser familiar para quem viu essa série britânica ou outros relatos do contacto com o vírus (como "Um Coração Normal", do próprio Ryan Murphy, aliás), a celebração da vida não tem grandes paralelos fora daqui.

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As sequências de voguing, por exemplo, mantêm-se tão efervescentes e refrescantes como na primeira temporada, num triunfo conjunto do guarda-roupa, banda sonora de época e atitude do elenco - com a taça a pertencer (para já) à versão delirante de contos de fadas, no final do terceiro episódio. Momentos como esses ou como uma reunião improvisada para acompanhar a novela da vida real de O.J. Simpson ajudam a minimizar algumas frustrações (caso da saída repentina de Damon, ainda que motivada por uma urgência familiar do actor Ryan Jamaal Swain) e a tornar "POSE" uma série com um carisma difícil de substituir, mesmo quando não falta concorrência tão ou mais interessante.

Os primeiros episódios da terceira temporada de "POSE" estão disponíveis na HBO Portugal desde 3 de Maio. A plataforma de streaming estreia novos episódios todas as segundas-feiras.

Viver e morrer na Pensilvânia

É um dos regressos televisivos do ano: Kate Winslet volta a ter um papel no pequeno ecrã e isso basta para querer espreitar "MARE OF EASTTOWN". Mas há mais motivos para ter a nova minissérie da HBO Portugal debaixo de olho.

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Entre o cansaço, o cinismo e a exasperação, Mare Sheehan acumula os papéis de mãe, avó(!), ex-mulher, antiga promessa do desporto local e detective veterana em Easttown, uma pequena cidade fictícia da Pensilvânia. Que é como quem diz, está aqui um papel à medida de Kate Winslet, naquele que é o regresso da britânica a uma produção televisiva como actriz principal depois da já distante "Mildred Pierce", de Todd Haynes, outra minissérie da HBO.

Admita-se que, se não fosse por ela, a nova aposta da plataforma de streaming não teria muitos elementos distintivos, pelo menos à primeira vista. Articulando drama familiar e moldes do policial, "MARE OF EASTTOWN" apresenta um relato do quotidiano pardacento numa comunidade onde pouco acontece e ainda menos muda, pelo menos até o assassinato de uma adolescente ter passado a ocupar a agenda das autoridades locais durante o último ano - e sem que o autor do crime tenha sido encontrado.

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Coube a Mare conduzir a investigação e esse processo frustrante (relembrando por acusações da mãe da vítima, sua antiga colega de liceu) condiz com uma vida pessoal conturbada, que envolve o luto de um filho e uma relação com o ex-marido que, enfim, podia ser mais harmoniosa (e não ajuda que ele seja o seu novo vizinho, já com companheira e tudo).

Ao partir desta premissa, "MARE OF EASTTOWN" lembra séries como "The Killing", "Broadchurch" ou "Happy Valley", mas o primeiro episódio mostra não só que ter aqui Kate Winslet faz a diferença (para já, assenta como uma luva numa figura simultaneamente carismática e contraditória) como Brad Ingelsby, o criador e argumentista, parece saber do que está a falar. Afinal, o showrunner (que escreveu o recente "O Caminho de Volta", de Gavin O'Connor, elevado por um dos melhores papéis de Ben Affleck) é natural de uma localidade semelhante da Pensilvânia e rodeia a protagonista de um grupo expressivo de secundários, defendidos por gente como Jean Smart (a sua mãe, que não deixa nada por dizer), Guy Peters (estranho numa terra estranha e novo interesse amoroso) ou Evan Peters (que ainda não aparece no arranque, mas vai ser parceiro de investigação).

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Na realização está Craig Zobel, cuja obra no cinema tem dividido opiniões (de "Obediência" a "A Caçada") e que lida agora com um argumento à partida menos extremado do que os de alguns dos seus filmes. O norte-americano encarrega-se dos sete episódios e mostra mão segura no primeiro, ao acompanhar as jornadas individuais de Mare e de uma adolescente (interpretada por Cailee Spaeny, com contenção e vulnerabilidade no ponto) que acabarão por se cruzar quase inevitavelmente nos próximos capítulos. O cruzamento não deverá ser muito favorável para nenhuma delas, como revelam os minutos finais deste capítulo introdutório, mas pode vir a alimentar um dos mistérios televisivos mais aliciantes dos últimos tempos...

O primeiro episódio de "MARE OF EASTTOWN" está disponível na HBO Portugal desde 19 de Abril. A plataforma de streaming estreia novos episódios todas as segundas-feiras.

As novas mutantes

E se os X-Men fizessem parte dos mundos de "Bridgerton" ou "Downton Abbey"? O resultado talvez não andasse longe de "THE NEVERS", a nova série com o toque de Joss Whedon. O primeiro episódio já chegou à HBO Portugal e propõe um arranque convidativo.

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Quando há cada vez mais grandes produções de acção ou ficção científica a apostar em protagonistas femininas como se fosse o último grito (e às vezes sujeitas a versões redundantes de personagens masculinas), Joss When está aí para provar que essa tendência não será surpresa para alguém com "Buffy - A Caçadora de Vampiros", "Angel" ou "Firefly" no currículo. O que não o impede de voltar a apostar numa saga com várias mulheres no centro e nos dois (ou mais) lados de uma barricada que se instala na Londres vitoriana.

"THE NEVERS", a nova criação do realizador de "Os Vingadores", que também é aqui showrunner e um dos argumentistas e produtores executivos, apresenta a capital britânica em modo steampunk nos finais do século XIX e acompanha as consequências de uma noite vincada por um fenómeno invulgar. Além de ter iluminado o céu fora de horas, o acontecimento concedeu capacidades especiais a dezenas de londrinos, sobretudo mulheres, e ameaça trazer uma nova ordem que distingue os "tocados" das pessoas comuns.

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Apesar de a luta de classes estar no ADN de muitas produções britânicas de época, a série norte-americana sugere que esse não é o único combate que vai ser travado nestas aventuras. O primeiro episódio, um dos três dirigidos por Whedon, mostra que o patriarcado também fica em causa com a ascensão iminente de uma minoria expressiva de marginalizados, embora não faltem diferenças de comportamento e de posicionamento moral entre a nova subclasse.

A entrada no mundo de "THE NEVERS" faz-se através da rotina de duas mulheres que trabalham num orfanato destinado a crianças e adolescentes com capacidades especiais. E se esse centro de acolhimento lembra a escola para jovens sobredotados de Charles Xavier (o mentor dos X-Men), a dinâmica entre as duas protagonistas tem sido comparada por alguns fãs à de Buffy e Willow. Outro elemento familiar é a recriação de época, que não fica a dever nada à de muitas representantes da "qualidade BBC", embora também não se distinga da maioria delas - dos cenários e guarda-roupa à fotografia de tons sombrios.

Mas essas aproximações não são necessariamente uma limitação: ao longo da primeira hora, Whedon é bastante desenvolto a apresentar uma galeria de personagens extensa e variada q.b., estabelecendo relações e conflitos que convidam a querer saber mais sobre este universo e estas pessoas. Os actores respondem à chamada com entusiasmo e afinco, em especial Laura Donnelly na pele da esquiva e expedita Amalia True, uma das protagonistas, e os diálogos são mais ágeis do que os de muitos arranques de sagas comparáveis.

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"THE NEVERS" faz bem ao não perder muito tempo com explicações e sequência inicial é um óptimo exemplo: passam quase cinco minutos até que uma personagem diga uma palavra, cabendo às imagens dar as boas vindas a esta Londres.

A realização não brilha tanto em algumas cenas de acção, mais atabalhoadas, mas também não trai o potencial de uma saga a acompanhar numa primeira leva de seis episódios. Os restantes capítulos da temporada devem chegar mais para o final do ano, já sob o comando da britânica Philippa Goslett (co-argumentista de "Como Falar Com Raparigas em Festas", de John Cameron Mitchell), a substituta de Whedon como showrunner após a desistência deste - que alegou ter tido o seu trabalho demasiado afectado pela pandemia. Mutatis mutandis? É continuar a ver para descobrir.

O primeiro episódio de "THE NEVERS" está disponível na HBO Portugal desde 12 de Abril. A plataforma de streaming estreia novos episódios todas as segundas-feiras.

OK zoomer

A nova série estreada na HBO Portugal promete um olhar incisivo e autêntico sobre a geração Z, ao qual não falta diversidade nem uma adolescente entre os autores. Mas os primeiros episódios de "GENERA+ION" não vão muito além de uma variação menor de retratos juvenis já vistos - alguns até na mesma plataforma de streaming.

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A ideia para "GENERA+ION" partiu de Zelda Barnz, argumentista de 19 anos que convenceu os pais a apostarem numa comédia dramática centrada em jovens nascidos no início deste milénio. Daniel Barnz, realizador de "Beastly - O Feitiço do Amor" ou "Cake - Um Sopro de Vida", acabou por ser o outro criador da série, dirigindo também alguns dos oito episódios da primeira temporada, com Ben Barnz a juntar-se enquanto produtor executivo. E ficaria quase todo em família, não fosse o contributo de Lena Dunham. A autora de "Girls" é outra das produtoras executivas do projecto da HBO Max e a sua voz também é evidente num relato que acompanha uma nova geração norte-americana.

Ao contrário de "Girls", ambientada em Nova Iorque, "GENERA+ION" tem epicentro narrativo num liceu de Los Angeles, mas mantém a faceta autocentrada e muitas vezes exasperante dos seus protagonistas. É, no entanto, mais abrangente no universo de figuras que segue, com um grupo de personagens principais maioritariamente LGBTQI+ e de origens sociais e culturais distintas. Só que os primeiros três episódios, estreados na passada sexta-feira, não tiram tanto partido dessa diversidade como poderiam, com o argumento a confundir quase sempre rasgo criativo com irreverência e provocação forçadas.

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O subenredo de uma adolescente grávida que entra em trabalho de parto numa casa de banho pública vai sendo desenvolvido, aos poucos, no início dos primeiros episódios, junta três das personagens mais caricaturais da série e, apesar da situação aflitiva, tem um tom mais sarcástico do que dramático. O que não é necessariamente uma má opção, mas aqui torna um cenário-limite em mais um momento de inconsequência narrativa, limitando-se a dar o mote a um jogo de avanços e recuos temporais - feitos com alguma habilidade e sentido lúdico, embora não acrescentem muito ao que "GENERA+ION" tem a dizer.

Se as três amigas que participam nessa introdução nunca chegam a ganhar grande densidade, a série mostra-se mais promissora ao conseguir explorar a vida interior de outros protagonistas. Chester, um dos mais intrigantes, tem felizmente mais tempo de antena e desvia-se do lugar comum do adolescente queer marginalizado. Pelo contrário: apesar de resistir a uma lógica de identidade de género binária, dos códigos de vestuário aos comportamentais, é dos estudantes mais populares e respeitados do liceu, sendo ainda o melhor atleta da equipa de pólo aquático. Interpretado com convicção por Justice Smith, resulta talvez no desempenho mais forte do actor que já tinha começado muito bem na série "The Get Down" e testou outros registos em blockbusters como "Mundo Jurássico: Reino Caído" ou "Pokémon Detective Pikachu".

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Greta (Haley Sanchez), uma adolescente latino-americana que se debate com a sua orientação sexual enquanto a mãe foi deportada, é outra figura que deixa alguma curiosidade em torno dos próximos episódios, até por ser das poucas que não insistem em disparar farpas. E traz uma bem-vinda gravidade a um argumento que ameaça esgotar-se na obsessão por sexo, charros e redes sociais, sem dizer nada sobre esses temas que outras séries não tenham dito antes e melhor.

"GENERA+ION" vai ter de fazer mais para se elevar acima da concorrência recente, muita também disponível na HBO Portugal. Embora não se leve tão a sério como "Euphoria", não está assim tão longe do drama protagonizado por Zendaya, altos e baixos incluídos. E fica, para já, muito aquém do patamar da infelizmente menos vista "We Are Who We Are", que levou a descoberta sexual e conflitos geracionais para outro nível dramático e estético. "Industry", na qual Lena Dunham também colaborou, trocou a adolescência pelos primeiros anos da idade adulta com mais foco e personalidade. De resto, e indo atrás alguns anos, nada do que aqui se vê será muito transgressor para gerações que viram "Skins", seja a versão britânica ou americana (já para não dizer "Kids", de Larry Clark, no grande ecrã). Ou se calhar só precisamos de lhe dar algum tempo para crescer...

Os três primeiros episódios de "GENERA+ION" estão disponíveis na HBO Portugal desde 11 de Março. A plataforma de streaming estreia novos episódios todas as quintas-feiras.