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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Aqui não faltam homens independentes

Cerca de 300 filmes até 1 de Maio, entre o Cinema São Jorge, Culturgest, Cinemateca e Cinema Ideal. É esta a proposta do 13ª INDIELISBOA, que já arrancou e deixa o desafio de escolher entre novidades de vários géneros e geografias ou revisitações à obra de Paul Verhoeven e Vincent Macaigne, os dois Heróis Independentes deste ano. A dupla serve também de mote para cinco sugestões de retratos no masculino, ponto de partida possível para os próximos dias:

 

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"DESDE ALLÁ", de Lorenzo Vigas: Com esta primeira longa-metragem, o realizador venezuelano conseguiu arrecadar o Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado, a mais sonante mas não a única distinção que o filme tem conseguido internacionalmente. Drama realista ambientado em Caracas, acompanha a relação entre um homem de meia-idade e um adolescente líder de um gangue. Consta que Vigas não tem medo de encarar os tabus de frente, sejam sexuais ou sobre o estado da Venezuela actual, numa obra cuja premissa lembra a de "Eastern Boys". O filme foi um dos destaques do arranque do IndieLisboa mas repete neste sábado, às 15 horas, na Sala 3 do Cinema São Jorge. Trailer

 

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"O SOLDADO DA RAINHA", de Paul Verhoeven: Talvez o filme mais sóbrio da fase inicial de um dos Heróis Independentes da edição deste ano, centra-se na forma como um grupo de estudantes lida com a ocupação nazi da Holanda durante a Segunda Guerra Mundial. Mas se a nível gráfico mostra alguma contenção, sobretudo depois de três experiências delirantes do realizador, não dispensa a obsessão pelo militarismo ou fetichismo associada ao autor de "Soldados do Universo". Com Rutger Hauer no elenco, foi na altura (1977) o filme holandês mais caro de sempre. Passa dia 23 de Abril, às 15h30, na Sala Félix Ribeiro da Cinemateca. Trailer

 

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"CHEVALIER", de Athina Rachel Tsangari: Já lá vão seis anos desde que "Attenberg" ajudou a despertar atenções para o novo cinema grego. Depois de um documentário e trabalhos na televisão (na série "Os Bórgia"), a realizadora de uma obra idiossincrática como poucas espreita agora o universo masculino. E assim atira seis amigos para um iate de luxo, transformando um suposto passeio idílico numa competição despretensiosa que se torna desenfreada, com quadros de humor absurdo mas que, se seguir os passos do filme antecessor, dirá alguma coisa sobre os gregos e outros homens. Exibições a 25 e 28 de Abril, às 19 e 22h15, respectivamente, no Cinema Ideal. Trailer

 

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"JAMES WHITE", de Josh Mond: A espiral descendente de um nova-iorquino na ressaca do hedonismo chega cá com fama de "tour de force" emocional, muito por culpa das interpretações da revelação Christopher Abbott e da veterana Cynthia Nixon, mãe do protagonista em modo sofrido (a lidar com uma doença terminal) e a milhas da imagem de "O Sexo e a Cidade". O realizador estreia-se nas longas-metragens com este drama, mas já tem um currículo longo e respeitável como produtor, com destaque para "Afterschool" e "Simon Killer", de Antonio Campos, ou "Martha Marcy May Marlene", de Sean Durkin, outros retratos fora da caixa de uma juventude em revolta. A descobrir a 29 de Abril, às 21h30, no Grande Auditório da Culturgest, ou dia 30, às 21h45, na Sala Manuel de Oliveira do Cinema São Jorge. Trailer

 

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"LES DEUX AMIS", de Louis Garrel: Um dos novos meninos bonitos do cinema francês já assinou algumas curtas metragens e aventura-se agora nas longas, numa altura em que "À Sombra das Mulheres", o novo filme do pai, Philippe Garrel, chegou às salas. Felizmente, esta primeira obra parece menos sisuda, até por juntar comédia ao drama, mesmo que não se afaste dos dramas conjugais da burguesia parisiense nem de traços da nouvelle vague. No centro está uma amizade ameaçada por um triângulo amoroso, ideia pouco original mas talvez bem aproveitada pelo argumento escrito a meias com Christophe Honoré (e de preferência na linha dos seus primeiros filmes).  Vincent Macaigne, um dos Heróis Independentes deste ano, é um dos protagonistas. A ver dia 30 de Abril, às 16 horas, na Sala Manuel de Oliveira do Cinema São Jorge. Trailer

 

Um festival e três trailers

 

O IndieLisboa regressa hoje à capital, onde se mantém até 6 de Maio, e para não variar a programação, além de ecléctica, volta a despertar curiosidade.

 

Este ano, na sua nona edição, o Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa propõe 233 filmes e divide-se pelo Cinema São Jorge, Culturgest e Cinema Londres. É no primeiro destes espaços que "Dark Horse", de Todd Solondz, tem honras de abertura esta noite, às 21h30, mas o novo filme do realizador de "Happiness" nem é, à partida, dos mais sugestivos do cartaz.

 

"Take Shelter", a segunda obra do também norte-americano Jeff Nichols, poderá ser dos pontos altos do festival (não lhe faltam, aliás, elogios internacionais) e tal como o filme antecessor (e promissor), "Histórias de Caçadeira", tem Michael Shannon como protagonista em ambientes da América profunda. Também tem estreia nacional confirmada, mas quem não quiser esperar só precisa de garantir presença na sessão de encerramento do festival, a 6 de Maio na Culturgest. Para já, fica o trailer:

 

 

Com o IndieLisboa regressam as suas secções regulares, quase todas com longas e curtas metragens entre ficção, documentário e territórios de fronteiras menos nítidas: Competição Nacional e Internacional, Observatório, Cinema Emergente, Pulsar do Mundo, Director's Cut, IndieJúnior e IndieMúsica.

 

Apenas uma, Herói Independente, não volta a marcar presença, embora este ano haja uma homenagem ao Festival de Cinema de Viena, com cinco filmes, ou um olhar mais centrado no novo cinema suíço dentro da secção Cinema Emergente. É nesta que podem ver-se novos e antigos filmes de Ursula Meier, quase todos novidades em salas nacionais - a realizadora assinou "Home", com Isabelle Huppert, talvez o seu filme mais emblemático, mas as histórias de adolescentes de "Des épaules solides" ou do recente "L'enfant D'en Haut" não parecem menos intrigantes.

 

Apostas seguras desta secção são "Garçon Stupide" e "Un Autre Homme", ambas de Lionel Baier (já exibidas no QueerLisboa e IndieLisboa, respectivamente) enquanto que "Complices", de Frédéric Mermoud, esta inédita, gera alguma expectativa pelo misto de amor juvenil e investigação policial (e motivou a foto para este post).

 

Mais ao lado, na Áustria, surgiu "Michael", de Markus Schleinzer, que poderá resultar numa das experiências mais fortes do festival - a que não será alheio o facto de abordar o dia-a-dia de um pedófilo. O trailer deixa no ar a suspeita de um filme desconfortável, no bom sentido:

 

 

Da secção Cinema Emergente há, aliás, vários outros filmes de que valerá a pena tomar nota: "Alpis", o novo do grego Yorgos Lanthimos (realizador de "Canino"); "El Estudiante", do argentino Santiago Mitre, ou "17 Raparigas", das francesas Delphine Coulin e Muriel Coulin, são apenas alguns.

 

Já agora, fora desta secção, fica a chamada de atenção para "Wuthering Heights", nova versão do clássico de Emily Brontë assinada pela britânica Andrea Arnold ("Sinal de Alerta", "Aquário"), e para os dramas familiares "Toata Lumea Din Familia Noastra", do romeno Radu Jude, e "De Jueves A Domingo", da chilena Dominga Sotomayor, este último com direito a trailer abaixo. E fica também, claro, aberta a porta para umas quantas surpresas pelo caminho; mas se todas estas apostas se confirmarem, já não é nada mau...

 

O fim do mundo em cuecas

 

O Gregg Araki de "Kaboom - Alucinação" nem parece o mesmo do brilhante "Mysterious Skin - Pele Misteriosa", que até aqui tinha sido, infelizmente, o seu único filme estreado em Portugal.

 

Se esse título anterior propunha um olhar sério, complexo e inspirado sobre traumas infantis, agora o realizador norte-americano atira-se a um devaneio cheio de estilo e cor sobre... bem, sobre nada em concreto.

 

Entre um cartoon irónico e em imagem real, centrado nas relações (mais sexuais do que emocionais) de estudantes universitários, e teorias da conspiração com sugestões sci-fi - cada vez mais presentes com o decorrer da narrativa -, esta mistura tem tanto de esgrouviada como de intrigante.

 

"Kaboom - Alucinação" não parece querer mais do que divertir o espectador e nesse aspecto não desilude: há aqui uma bela colecção de gags sarcásticos e/ou absurdos, uma energia contagiante e um ritmo bem oleado. E à medida que à acção se desenvolve, dificilmente alguém adivinha onde é que vai parar.

 

Mostra Araki no seu melhor? Nem por isso, mas também não é do pior que já fez (ver "Esplendor") e prova que, depois da maturidade de "Mysterious Skin - Pele Misteriosa", não perdeu o sentido de humor.

 

 

Este filme é fofinho

 

Parte cartão-postal de Toronto, parte filme-concerto dos Broken Social Scene (que actuam na sua terra natal), parte romance juvenil, "This Movie is Broken" é sempre muito simpático mas nunca chega a convencer por completo.

 

Da cidade canadiana ficamos a conhecer muito pouco num filme sem grande sentido de espaço. A forma como o concerto é filmado, embora eficaz, tem uma relação demasiado arbitrária com a acção - entre as raras excepções contam-se "Anthems for A 17 Year Old Girl", cantada por Emily Haines (dos Metric), ou "Past in Present" (misturada com "I Feel It All"), na voz de Feist, também dois dos pontos altos - bonitos, mesmo - da actuação. E a história dos dois amigos que assistem ao concerto, por mais cool e reluzente que seja, também acaba por ser banal e poderia contar-se num videoclip.

 

O filme de Bruce McDonald (realizador de "Os Fragmentos de Tracey") é, aliás, pouco mais do que isso: um videoclip de hora e meia e uma espécie de contraponto a "9 Canções" - bem mais cândido do que esse título de Michael Winterbottom, mas igualmente superficial.

 

 

"This Movie is Broken" é um dos filmes da secção Indie Music do IndieLisboa

 

A turma

 

"Simon Werner a Disparu..." tem sido comparado a algumas obras de Gus Van Sant ou David Lynch, e percebe-se porquê. A estrutura narrativa do filme aproxima-se da de "Elephant", do primeiro, e algumas atmosferas, em especial as nocturnas, poderão lembrar o universo do segundo.

 

Mas a estreia nas longas-metragens do francês Fabrice Gobert é, também, uma obra muito mais lúdica do que qualquer uma desses realizadores. Entre o drama e o thriller, começa por apresentar personagens-tipo de filmes de adolescentes (a miúda punk, o rato de biblioteca, a beldade popular, o gozão, a miúda bem comportada) para depois nos ir aproximando cada vez mais delas, diluindo essa primeira impressão superficial e mostrando-nos que não são exactamente o que parecem.

 

Mais do que uma boa história, "Simon Werner a Disparu..." é sobretudo uma história bem contada, que vai saltitando entre tempos e protagonistas, revisitando situações com perspectivas diferentes e sabendo muito bem o que, quando e como mostrar. E enquanto vai gerando expectativa sobre as razões para o progressivo desaparecimento de personagens, deixa um olhar inteligente e abrangente sobre a(s) adolescência(s).

 

Cereja em cima do bolo, a banda-sonora original dos Sonic Youth pode ser uma boa porta de entrada para um filme que, caso contrário, corre o risco de passar despercebido. Mas a canção dominante é mesmo "Love Like Blood", dos Killing Joke, essencial para um dos episódios-chave e perfeita para desenhar, logo desde o início, um ambiente absorvente.

 

 

"Simon Werner a Disparu..." é um dos filmes da secção Cinema Emergente do IndieLisboa