Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O primeiro dia do segundo take

Charlotte Gainsbourg

 

"Rest", o quinto álbum de CHARLOTTE GAINSBOURG, foi uma das melhores surpresas do ano passado e o maior passo em frente no percurso musical da francesa, com um alinhamento a aceitar outros desafios na composição e produção.

 

O reforço da carga electrónica esteve entre as novidades do disco, muito por culpa de SebastiAn, e o produtor voltou a ser convocado para o EP "Take 2", com edição agendada já para 14 de Dezembro. O registo vai contar com cinco faixas, três inéditas e duas gravadas ao vivo ("Deadly Valentine" e uma versão de "Runaway", de Kanye West"), e o tema de avanço retoma a vertente mais dançável de "Rest".

 

Novelo de teclados e sintetizadores conduzido pelos sussurros da cantora, "SUCH A REMARKABLE DAY" traz ecos de alguma pop dos anos 80 mas soa tão fresco como a colheita recente de Gainsbourg, voltando a alimentar a curiosidade para o que aí vem. O videoclip, com imagens dos concertos, relembra que valerá a pena ter em conta a digressão europeia, que termina este mês:

 

 

As senhoras da água

TEEN

 

Depois de "In Limbo" (2012), "The Way and Color" (2014) e "Love Yes" (2016), com dois EP pelo meio, as TEEN têm regresso confirmado para 2019. "Good Fruit", o quarto álbum das irmãs Kristina, Katherine e Lizzie Lieberson, deverá chegar a 1 de Março mas a primeira amostra pode ser ouvida ainda este ano.

 

"ONLY WATER" lança pistas para uma nova viragem sonora do trio de Brooklyn, que desde 2010 já saltitou entre o psicadelismo, o R&B ou o rock alternativo e que também já recorreu a estes e outros condimentos na mesma canção.

 

A fase mais recente parece das mais dançáveis, através de uma pop electrónica que lembra águas já percorridas pelos School of Seven Bells ou Glasser, embora o mergulho ainda resulte num single eficaz. E apesar do ritmo festivo e acelerado, esta é uma canção de luto, que recorda os últimos dias do pai dos três elementos do grupo - cuja morte, em 2011, já tinha inspirado outros temas. O regresso ao passado mantém-se no videoclip, gravado numa praia de Nova Scotia, no Canadá, onde as irmãs cresceram:

 

 

Uma banda que vai além do resumo da matéria dada

Nova Materia

 

Caroline Chaspoul e Eduardo Henriquez não são propriamente novatos em aventuras musicais. Desde meados da década de 90, a francesa e o chileno fizeram parte dos Panico, uma das principais bandas de rock alternativo do Chile, antes de iniciarem um segundo capítulo como NOVA MATERIA.

 

O duo radicado em Paris tem dito, aliás, que os Panico eram uma banda tipicamente do século XX e o projecto mais recente tem uma linguagem adaptada ao século XXI, ao diluir géneros e referências numa música que respira outra liberdade. Em vez das guitarras e das influências pós-punk que dominaram o grupo anterior, as canções dos NOVA MATERIA são mais insistentemente percussivas e mais difíceis de catalogar, como atestará quem ouvir o álbum de estreia, "It Comes", editado no final de Setembro e sucessor de dois EP.

 

It Comes

 

Aposta da Crammed Discs, a dupla tem entre os colegas de editora nomes como Matias Aguayo, Konono N°1, Juana Molina, Yasmine Hamdan ou Acid Arab, todos conhecidos por conciliarem tradição e modernidade, com ferramentas electrónicas entre as principais aliadas. "It Comes" dá seguimento à tendência em canções que tanto juntam traços tribais de alguma música sul-americana ("Procession", "Amuleto") como se deixam contagiar pela EBM (com tempero latino, na infecciosa "Nov Power), pelo electro ("On/Av", próximo dos momentos mais agrestes de uns Vive la Fête) ou pelo dance punk ("Speak in Tongues", a lembrar The Juan MacLean e outras revelações da DFA Records).

 

A viagem vai de um transe hipnótico, a caminho do místico, e o desvario rítmico sincopado, facetas que também marcaram o concerto de estreia da dupla em Portugal, na passada quinta-feira, no Musicbox Lisboa. E se foi uma noite infelizmente muito pouco concorrida, numa sala quase vazia, Chaspoul e Henriquez mostraram merecer mais público e atenção por cá - como têm tido, de resto, noutros palcos.

 

Nova Materia Musicbox

 

À semelhança do disco, encarregaram-se ambos dos instrumentos e das vozes, com uma profusão de idiomas a incluir castelhano, francês, inglês e até japonês - na sorumbática mas envolvente "Kora Kora", que no álbum tem Narumi Hérisson, dos Tristesse Contemporaine, como cantora convidada. A diversidade instrumental foi ainda maior ao juntar recursos sintéticos e orgânicos, combinação suficientemente determinante para inspirar o nome da banda. As barras de metal, pedras e madeira, reveladoras da postura experimental desta música, ficaram quase sempre a cargo da francesa enquanto o chileno se ocupou dos bombos e programações.

 

Mais intensas e dançáveis do que no álbum, em palco as canções reforçaram as pontes com territórios do krautrock ou do industrial já sugeridas no disco (este de arestas mais polidas através da produção da francesa Chlóe) e provaram que está aqui uma banda capaz de encontrar um espaço próprio dentro da indietronica dos últimos anos. Matéria nova, de facto, além de tão consistente como desafiante. E a descobrir nos vídeos abaixo: o videoclip do novo single, "Follow You All the Way", realizado pela portuguesa Catarina Limão e gravado em Sintra (embora até seja das canções mais convencionais do disco); o do mais frenético "On/Av" e o excerto de uma actuação com "Nov Power" (que não anda longe da que se viu em Lisboa).

 

 

 

O romance morreu, viva o romance!

Ex Re

 

"Romance is dead and done", garante Elena Tonra na primeira canção do seu projecto a solo EX:RE, depois de ter dado voz aos Daughter desde inícios da década. Com o grupo a passar por um hiato (embora com regresso assegurado), a britânica aproveita para editar o seu álbum de estreia em nome próprio, do qual "ROMANCE" é a faixa homónima.

 

Como o título e a citação acima insinuam, o disco partiu do final de um relacionamento amoroso. Mas ao contrário de outros álbuns assentes nessa temática, a cantautora está pouco interessada em esmiuçar a relação, optando por relatar como lidou com um dia a dia mais solitário desde a separação.

 

Canções (ou capítulos) como "Liar", "Too Sad", "I Can't Keep You" ou "5AM" não prometem uma crónica especialmente animadora, embora até se ouça mais candura do que azedume no primeiro single. "ROMANCE" também sugere que, apesar de se aventurar a solo, Elena Tonra está bem acompanhada pelo produtor Fabian Prynn e pela violoncelista Josephine Stephenson. As cordas, no entanto, são uma presença discreta nesta primeira amostra, cedendo o protagonismo a ondulações electrónicas, percussão e piano, num belo exemplo de pop confessional e catártica, mas ainda assim delicada - a meio caminho entre os universos dos Braids e de Bat For Lashes.

 

Uma história para continuar a acompanhar já a partir desta sexta-feira, data da edição do álbum, através da 4AD. E a prometer várias deambulações nocturnas, como a de um videoclip que aponta a pista de dança como refúgio: