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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Maria cheia de garra

Trazendo relatos tão femininos como feministas e um disco carregado de te(n)são, MARIA BERALDO estreou-se em palcos da capital no Musicbox Lisboa, esta quarta-feira. E nem precisou de muito tempo para se confirmar como um dos nomes mais trepidantes da nova música brasileira.

 

Maria Beraldo por Ana Viotti.jpg

 

"Pai, gosto muito dos homens, sim/ De tê-los ao alcance da boca, sim/ Mas no calor da manhã, quem me fez delirar foi uma mulher". Foi assim mesmo, sem meias palavras, que MARIA BERALDO subiu ao palco do Musicbox Lisboa para apresentar o seu disco de estreia. Editado no ano passado no Brasil, "Cavala" tem sido amplamente elogiado tanto dentro como fora de portas e a noite comprovou que as suas canções aguentam, e bem, a prova ao vivo.

 

Álbum autobiográfico e confessional, a estreia da cantautora e multi-instrumentista a solo (depois de ter sido clarinetista de Arrigo Barnabé ou de ter integrado os Quartabê) acompanhou o seu processo de coming out, o que ajuda a explicar a vertente sensual e sexual de boa parte das suas letras. Mas se o facto de a artista ser lésbica está longe de ser só um pormenor ("Tem fufas em Portugal?", perguntaria no fim do concerto, em tom bem-humorado), "Cavala" não é disco para ficar arrumado em gavetas LGBTQ+ e assume-se sobretudo como uma ode à mulher, na qual a família desta brasileira de 30 anos (da mãe à avó, passando pela sobrinha) não fica esquecida.

 

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De resto, o facto de assumir a sua homossexualidade e de colocar a saída do armário no centro da sua música está longe de ser gratuito e resulta antes, conforme sublinha em várias entrevistas, de ter sentido falta de referências femininas na música brasileira que rompessem com códigos heteronormativos quando era adolescente. Em todo o caso, em última instância o que importa é a música e essa também fala por si: tanto em disco como em palco, estas canções têm interesse e intensidade variável, mas nem as menos memoráveis deixam de incitar a curiosidade.

 

O público do Musicbox confirmou isso mesmo e nunca pareceu perder o interesse pela proposta de BERALDO durante quase uma hora - duração eventualmente curta, mas compreensível tendo em conta que "Cavala" não chega aos 30 minutos. Sozinha em palco, e claramente autossuficiente, a cantautora foi alternando entre a guitarra eléctrica, as programações e o clarinete, combinação à qual se juntou sempre a voz, ainda que muitas vezes utilizada como se de mais um instrumento se tratasse (entre jogos vocais recorrentes e letras que não se preocupam em ser sempre inteligíveis).

 

Maria Beraldo por Ana Viotti 2.jpg

 

Entusiasta tanto do formato canção como de acessos experimentais, a brasileira só viria a dirigir-se directamente ao público já no encore, mantendo até aí uma postura distante e enigmática, teatral e expressiva. A linguagem corporal entregou-se a espasmos quase epilépticos com a guitarra (ocasionalmente utilizada como percussão), logo nos primeiros minutos, e chegou a instalar o receio de um concerto tão pretensamente transgressivo como hermético.

 

Mas se alguns momentos sugeriram que a artista ainda está a consolidar a sua linguagem (pessoal ainda quem nem sempre completamente transmissível), o espectáculo foi desenhando um crescendo de tensão que culminaria na muito aplaudida "Elena", um dos temas mais imediatos e trauteáveis, ou no ataque industrial de "Tenso" (apesar de tudo, vincado por uma sensibilidade pop considerável).

 

 

A disparidade sonora dessas duas canções foi exemplificativa de um alinhamento com vontade de diluir fronteiras entre o rock de costela indie (e alma riot grrrl), a electrónica, o jazz ou a MPB, com intromissões do noise (sobretudo em "Rainha") ou de uma hipótese de IDM tropical ("Sussussussu", talvez o episódio mais dançável da noite). Para o encore ficaria "Gatas Sapatas", tema que também fecha o disco em modo espirituoso, encerrando o concerto num ambiente já bem distante da estranheza inicial. E deixou a porta aberta para um regresso a Lisboa enquanto a digressão cavalga, nos próximos dias, rumo a outros palcos nacionais. Valeu...

 

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A abrir a noite, outra boa surpresa. Mas nacional, apesar do nome. Com um minimalismo de voz e guitarra que dá um peso acrescido às palavras, os LAVOISIER retomaram canções do seu disco de estreia, "É Teu", de 2017 (já apresentado no Musicbox) e deram pistas do que aí vem, com dois inéditos. Entre uma versão de "Eu não me entendo", de José Mário Branco, e letras que dão novo embalo à escrita de Miguel Torga (entre outros poetas), Patricia Relvas e Roberto Afonso conciliaram intensidade vocal (ela) e instrumental (ele) e impuseram uma atmosfera soturna e austera (às vezes a lembrar a dos Osso Vaidoso), que nos momentos mais conseguidos soou à ocasião em que a morte abraça o respirar - conforme cantaram em "Sou Povo". Mesmo assim, o fatalismo acabou por não vingar: a despedida ficou por conta de uma versão de "Amor de Água Fresca", de Dina, uma das "guerreiras" a quem a dupla dedicou a actuação. A outra foi Marielle Franco, que, quem sabe, talvez até venha a ser uma das mulheres a inspirar a sequela de "Cavala"...

 

3/5

 

MARIA BERALDO actua no Maus Hábitos, no Porto, a 18 de Abril; no Teatro Gil Vicente, em Barcelos, a 19 de Abril; e em Aveiro, no Mercado Negro, a 20 de Abril.

 

Fotos: Musicbox Lisboa

 

Perto, mas não muito

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O segundo álbum dos BOY HARSHER foi um dos regressos do ano que não desiludiram e há mais motivos para voltar a ele. Depois de "Face the Fire", "Fate" e "LA", a dupla nova-iorquina tem agora como aposta oficial "COME CLOSER", outra viagem entre a EBM e a darkwave conduzida pela voz de Jae Matthews, tão inquieta como até aqui, e pelos ritmos tão ou mais tensos a cargo de Augustus Muller .

 

Como não poderia deixar de ser, o videoclip é igualmente negro, atirando-se a um imaginário fantasmagórico, fetichista e nocturno que, estando longe de ser inesperado, é apropriado para a música do duo. E tendo em conta que não há visitas a palcos nacionais tão cedo (Portugal ficou fora da digressão europeia), por enquanto terá de servir para ir acompanhando, à distância, os passos de um dos projectos electrónicos mais intrigantes do momento:

 

 

Dança, rapariga, dança

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A caminho do segundo álbum depois de uma estreia homónima promissora em 2015, GEORGIA parece continuar a saltar de géneros sem se fixar num território específico. Já tinha sido assim num primeiro disco caleidoscópico, manteve-se nos singles editados desde aí (na percussiva e quase tribal "Feel It", na aproximação ao hip-hop de "Mellow", na leveza house de "Started Out") e agora "ABOUT WORK THE DANCEFLOOR" propõe um avanço focado numa electropop com alguma nostalgia pelos anos 80.

 

O resultado é uma das canções mais certeiras da britânica, entre sintetizadores cintilantes e vozes robóticas que ajudam a dar embalo a um refrão especialmente orelhudo - e, como o título sugere, convidativo para a pista de dança.

 

O apelo hedonista cruzado com alguma melancolia lembra, talvez até demasiado, vários momentos do percurso de Robyn, mas tem a vantagem de superar facilmente qualquer tema de "Honey", o álbum mais recente da sueca. Em vez de partir já para outra viragem sonora, GEORGIA talvez ganhasse em deixar-se ficar na discoteca mais uns tempos. Com singles deste calibre, dificilmente terá de dançar sozinha:

 

 

20 anos depois de "13"

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Entre a reinvenção e a ameaça de implosão, "13" ficou como a viragem mais extrema da discografia dos BLUR. Passados 20 anos, o sexto álbum dos britânicos ainda é um golpe de rins que o tempo não tratou mal.

 

Se a opção de fazer um álbum como "Blur" (1997) já tinha sido arrojada, ao deixar claro o afastamento da britpop, o disco sucessor, "13" (1999), elevou a ousadia a níveis que nem os fãs mais atentos esperariam.

 

Com a média de idades dos elementos dos BLUR a rondar os 30 anos, o sexto disco foi o que marcou a transição de uma pós-adolescência arrastada para uma fase adulta que chegou sem poupar ninguém. Damon Albarn que o diga, tendo composto o disco após um final de relação de oito anos com Justine Frischmann (vocalista dos Elastica), separação particularmente dolorosa e que assombra estas canções.

 

Blur 1999.jpg

 

Com os restantes músicos também em períodos não muito amenos das suas vidas, o quarteto londrino aproximou-se, mais uma vez, da dissolução, que aqui se supunha inevitável. "Mal funcionávamos enquanto banda, por isso o que quer que tenhamos tirado daquela situação e quaisquer concertos que tenhamos dado foram mesmo um milagre", relembra Damon Albarn no booklet da reedição especial do disco.

 

Apoio fundamental, William Orbit foi o mago (leia-se produtor) de serviço, colaborando com a banda depois de ajudar Madonna a criar o seu melhor álbum ("Ray of Light", de 1998). "13" talvez não seja, de fio a pavio, o melhor dos disco dos Blur, mas é o que o quarteto aponta como o melhor exemplo de colaboração, num desafio capaz de contrariar as muitas tensões internas.

 

"Se tivesse de escolher a minha canção favorita dos Blur, seria a 'Caramel'. Essa e a 'Tender'. Ouvi-a obsessivamente no meu carro, vezes e vezes seguidas. Podes ouvi-la várias vezes de seguida porque começa e acaba da mesma forma. Orgulho-me muito dela. É uma canção adulta e o tipo de coisa que tentávamos fazer há muito mas que nunca tinha funcionado. Aí funcionou a 100%", destacou Dave Rowntree. É difícil não concordarmos com o baterista quando "Caramel" é uma composição assombrosa como poucas: mostra-nos uns Blur mais abstractos e inclassificáveis do que nunca, impondo o ponto alto de um disco assente no improviso e numa busca de liberdade estilística digna de respeito (e com o produtor a tirar partido do emaranhado de texturas e camadas).

 

Blur Coffee & TV.jpg

 

"13" não mantém, ainda assim, esta estranheza durante todo o alinhamento. O arranque com "Tender", com a participação inesperada de um coro gospel, foi suficientemente radiofónico (também vale a pena voltar à remistura de Cornelius, já agora), como o foi ainda "Coffee & TV", outro single e a canção mais caracteristicamente BLUR do disco (cuja popularidade deve muito ao videoclip icónico, protagonizado por um simpático pacote de leite). A mais sujas e despojadas "Swamp Song" e "B.L.U.R.E.M.I" ainda soam a descendentes directos de "Blur", mas "Trailerpark", enigmática, e sobretudo "Trimm Trabb", a culminar numa explosão de guitarras épica, foram das maiores provas de vitalidade do grupo.

 

Além de assinalar uma viragem decisiva dos BLUR, este é ainda o disco sem o qual os Gorillaz não teriam sido possíveis nos moldes em que os conhecemos hoje, admitiria Damon Albarn sobre o projecto paralelo que criou em 1998. E basta ouvir "I Got Law", demo incluída no segundo disco da reedição especial, para tirar as dúvidas: qualquer semelhança com "Tomorrow Comes Today", um dos primeiros singles dos Gorillaz, não será pura coincidência.