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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um regresso com uma vénia aos The Cure

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Os MGMT editaram o quarto álbum, "Little Dark Age", em 2018, depois de um hiato de cinco anos, mas parece que não vão demorar tanto tempo a lançar o próximo. Pelo menos já revelaram o primeiro tema inédito desde então, que mostra que a dupla nova-iorquina se mantém interessada na exploração electrónica via new wave.

Mas "IN THE AFTERNOON" está longe de soar a sobra repescada e vinca um regresso a seguir com atenção nos próximos tempos, tendo em conta que Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser oferecem aqui um dos seus singles mais inspirados, mesmo que possa soar familiar a quem ouviu os primeiros álbuns de uns The Cure.

Menos enérgico do que algumas das confecções mais pop da dupla, menos experimental do que os seus temas que mais dividiram opiniões, propõe um jogo de luz e sombra (suficientemente orelhudo) que não destoaria ao lado da obra mais recomendável da banda de Robert Smith. E é uma bela forma de inaugurar a MGMT Records, que editará o single em Março, em formato vinil, juntamente com o lado B "As You Move Through the World". O videoclip, que não esconde ecos dos anos 80 mais sombrios, segue o modelo do it yourself e também ficou a cargo do duo:

O corpo é que paga (mas também aprende)

De "Let Your Body Learn" a "Murderous", não faltaram hinos EBM no concerto dos NITZER EBB no Lisboa Ao Vivo, esta quarta-feira. Caso invulgar de uma banda em forma e ainda imparável, quase 40 anos depois.

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São naturais de Essex, condado britânico onde nasceram também os Depeche Mode, grupo para o qual chegaram a abrir concertos. E se a sua música não anda longe de algumas fases da banda de Dave Gahan, acabou por ter influência mais pronunciada em gente que vai dos Nine Inch Nails aos Presets, passando pelos Rammstein ou Light Asylum. Ao contrário de alguns destes nomes, os NITZER EBB nunca chegaram a fenómeno de visibilidade global (apesar de uma fase de maior popularidade em finais dos anos 80), mas continuam a ser um segredo bem guardado com devoção por muitos.

De volta aos palcos para uma digressão europeia (especialmente bem sucedida em palcos de várias cidades alemãs), o quarteto regressou a Portugal depois de uma passagem pelo Festival Vilar de Mouros, este Verão. A nova visita, inicialmente dupla, acabou reduzida à capital depois de a data no Porto (esta quinta-feira) ter sido cancelada. E se mesmo em Lisboa a lotação não esgotou, houve ainda assim uma sala bem composta e pronta a render-se à marcha de sintetizadores de uns dos ícones da EBM (electronic body music, fusão pulsante da synth pop mais negra e do industrial).

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"Move that body", ordem repetida em "Once You Say", poderia ter sido replicada em todas as outras canções ao longo de pouco mais de uma hora. Não que tenha sido necessário, tendo em conta que a grande maioria do público acabou por aderir sem reservas aos ritmos imponentes de um espectáculo coeso, assente numa música directa ao corpo enquanto viaja por estados de alma conturbados. Os títulos de algumas canções não enganam: do arranque, com "Blood Money", ao final, a cargo de uma potentíssima "Murderous", o ambiente manteve-se caótico e frenético.

Poderá acusar-se dos NITZER EBB de não serem uma banda particularmente multifacetada, mas será difícil negar a eficácia do seu desempenho no campeonato a que se propuseram desde 1982 (seguindo os passos pioneiros de uns DAF, Cabaret Voltaire ou Throbbing Gristle). A actuação lisboeta foi uma boa montra desse percurso, quase sempre no formato best of, com uma sucessão imbatível de clássicos do género. O grupo apresentou-os com a garra esperada, sobretudo o vocalista principal, Douglas McCarthy, vestido de negro e com óculos de sol que nunca tirou enquanto se movimentou constantemente por todo o palco. Mas os momentos mais efusivos surgiram quando Bon Harris deixou as programações e a bateria electrónica (à qual se dedicou com um entusiasmo adolescente) para se juntar a ele, dividindo o protagonismo vocal e cénico - primeiro em "Hearts and Minds", no primeiro pico de intensidade, e depois em "Join In the Chant", com uma sala já visivelmente rendida e com resposta física à altura.

As batidas agressivas, às vezes com um embalo quase techno, só deram tréguas em "Come Alive", episódio atmosférico, tão sedutor como sinuoso, no qual McCarthy cantou em vez de gritar palavras de ordem. O tom, ofegante, reforçou a carga sexual e fetichista de parte da música do grupo, também vincada em "Lightning Man" ("Baby, come to daddy", repetiu o vocalista com samples de sopros numa incursão jazzy q.b.) ou nos breves momentos em que o mestre de cerimónias se insinuou ao dançar muito perto dos colegas.

Petardos como "Shame" ou "Control I'm Here" ajudaram a moldar um espectáculo em crescendo, com o alinhamento a privilegiar "That Total Age" (1987) e "Belief" (1989), os dois primeiros álbuns da banda e também os mais influentes. Mas este não será um caso de nostalgia quando a música dos NITZER EBB continua tão vibrante, em especial no formato ao vivo, capaz de entregar um encore explosivo numa "Alarm" a cargo dos rugidos de Simon Granger - que tinha passado todo o concerto em pose recatada nas programações, partilhadas com Harris e David Gooday. Décadas depois dessas primeiras canções e discos, o corpo não fica indiferente ao apelo rítmico dos britânicos.

4/5

Um cantor que toca guitarra e fala francês

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BAPTISTE W. HAMON começou por se interessar pela escrita de canções ao ouvir Leonard Cohen, Bob Dylan ou Townes Van Zandt com devoção, mergulhando desde cedo numa herança musical onde as palavras são mais do que mero acessório. Mas foi ao descobrir a obra de nomes seus conterrâneos - de Jacques Brel a Barbara - que o cantautor francês cruzou universos rumo a uma linguagem própria, tão devedora da country e da folk como da chanson.

O álbum "L'Insouciance" (2016), gravado em Nashville, confirmou as esperanças de quem o apontava como um dos nomes a seguir da nova música francófona, depois de três EPs que despertaram as primeiras atenções. E "Soleil, soleil bleu", o segundo longa-duração, editado este ano, não trai as suas qualidades de compositor, músico e intérprete, sobretudo nos temas nos quais canta na sua língua materna (uma escolha cada vez mais dominante após um início de carreira vincado pelo inglês).

Will Oldham (AKA Bonnie Prince Billie), outro dos seus heróis, volta a dar-lhe a benção e a legitimar o seu legado da tradição americana, acompanhando-o numa das faixas depois de ter participado no álbum anterior. E a junção de referências dos dois lados do Atlântico mantém-se inspirada tanto na música como nas imagens, como o atestam os videoclips dos singles "JE BRÛLE" (talvez a grande canção do álbum), "COMING HOME" e "BLOODY MARY", para ver e ouvir abaixo. Um nome a juntar à colheita francesa do ano, que discos de gente como Alex Beaupain, Irène Drésel, Alice et Moi ou Requin Chagrin ajudaram a tornar proveitosa (e que bem merece investigação mais a fundo).

Jazz, Marilyn e um single sádico

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Dos The Comet Is Coming aos Sons of Kemet, passando por Nubya Garcia ou Yazz Ahmed, há uma nova geração de músicos - muitos radicados em Londres - que têm proposto outras vias e cruzamentos para o jazz. A contaminação até tem chegado a nomes sem raízes no género - basta ouvir um dos novos temas dos Coldplay, "Arabesque" - e também domina o próximo álbum de KELLI ALI, "Ghostriver", adiado há anos mas que deverá finalmente chegar algures em 2020.

"The Fear of London", o primeiro single, já deixava uma fusão muito promissora de jazz e heranças do trip-hop, alargando a versatilidade da discografia ex-vocalista dos Sneaker Pimps a solo (cujo alcance continua, infelizmente, reduzido a um nicho). "SADISTIC", o novo avanço, mantém essas coordenadas, convidando agora o saxofonista Guido Spannocchi para uma atmosfera vincada pelo electro e spoken word. Outro colaborador da canção e do álbum é Liam Howe, ex-elemento dos Sneaker Pimps, que se ocupa da produção, naquela que é a primeira parceria da dupla desde que ALI deixou a banda (em 1998, depois de "Becoming X").

Se o single anterior desenhava um ambiente de paranóia pré-Brexit, este teve a dependência e o consumismo como inspiração, ponto de partida que se reflecte de forma mais óbvia no videoclip, com a cantora em modo Marilyn Monroe dos tempos modernos e no centro de uma profusão de imagens de telejornais e publicidade. Mas a ficção também passa por aqui, já que o disco será a banda sonora de um filme homónimo realizado pela britânica (e no qual interpreta dois papéis), um thriller londrino com ecos noir, conforme explicou numa entrevista à LADYGUNN. O videoclip, de resto, também ficou a cargo dela: