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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Venham mais destas, por favor

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Sabe-se lá o que terá levado JESSIE WARE a deixar uma canção como "PLEASE" de fora do seu álbum mais recente, "What's Your Pleasure?" (2020). Mas pelo menos não ficou esquecida na gaveta, já que esta sobra foi promovida a novo single da britânica e é uma das seis faixas extra da edição deluxe do seu quarto longa-duração, que deverá chegar nos próximos meses.

"PLEASE" não fica a dever muito a rebuçados pop como "Spotlight" ou o tema homónimo do álbum e vem confirmar o que já se sabia: que esta é, de longe, a fase mais entusiasmante da sua autora desde os dias da estreia, "Devotion" (2012). Tal como a maioria da colheita recente, resultou da colaboração com James Ford (metade dos Simian Mobile Disco) e contou também com Shungudzo e Danny Parker na composição, equipa que parece querer continuar a atirar a cantora para a pista de dança.

O resultado deriva da faceta mais borbulhante de "What's Your Pleasure?" e vai beber tanto ao disco como à acid house, com uma energia "cheia de optimismo", nas palavras de WARE, e "pronta a ser tocada num espaço onde possamos estar juntos e flertar, dançar, tocar e beijar". O videoclip dá o mote e reforça as inspirações de inícios dos anos 90, da estética VHS a bailarinos vestidos a rigor para uma festa que não destoaria na nova temporada da série "Pose", ambientada nos balls nova-iorquinos dessa época:

Três palcos caseiros para três álbuns a (re)descobrir

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As salas de concertos já voltaram a abrir portas, mas mesmo assim muitos artistas internacionais não devem pisar um palco português tão cedo. E nesses casos, tal como aconteceu durante grande parte do ano passado, a versão online é a resposta possível para descobrir algumas canções ao vivo. Canções como as de ELA MINUS, REY PILA ou SEVDALIZA, autores de três álbuns de 2020 que continuam a valer a descoberta ou a revisitação.

Num showcase caseiro para a KEXP, MINUS apresenta quase todos os pontos altos de "they told us it was hard, but they were wrong", disco de estreia que colocou a colombiana na linha da frente da pop electrónica actual. E nem o facto de estar sozinha impede que a actuação se saia bem tanto na faceta minimalista como na eufórica, à semelhança do que mostrou no concerto no Musicbox Lisboa há uns anos, numa promissora primeira parte dos Austra onde deu a conhecer esta música luminosa para tempos sombrios.

Também mais do que capazes de superar o desafio do palco, os REY PILA apostam na nata de "Velox Veritas", disco produzido por Dave Sitek (dos TV On the Radio) e editado pela Cult Records, de Julian Casablancas (dos The Strokes). O terceiro álbum dos mexicanos é talvez o mais conseguido e singles já de si infecciosos como "Drooling" ou "Dark Paradise" ganham outro embalo ao vivo, com a combinação de guitarras e sintetizadores a atingir o ponto de rebuçado - e defendida por uma banda coesa num cenário tão acolhedor como castiço.

Noutro comprimento de onda, SEVDALIZA lança o convite (difícil de recusar) para uma viagem a "Shabrang", o seu segundo álbum, cortesia de uma sessão Tiny Desk da NPR. Acompanhada de uma banda de luxo - belíssima conjugação de cordas, percussão, teclados e programações -, a irani-holandesa revela uma forma vocal à altura enquanto alia elegância e intensidade, do lamento de "Dormant" (a lembrar a escola dos Portishead) ao contacto com a tradição árabe que marca "Gole Bi Goldoon". Que 2022 permita o regresso a Portugal que já tarda...

Na cama com Birkin (e Daho)

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Mais de meio século depois de "Jane Birkin/Serge Gainsbourg" (1969), álbum tão histórico como controverso, "OH! PARDON TU DORMAIS..." chegou de forma bem mais discreta no final de 2020. Ao contrário dos primeiros discos de JANE BIRKIN, o mais recente não despertou grande atenção fora de portas, mas ainda vale a pena seguir o rasto desta britânica há muito habitué de Paris.

Aos 74 anos, a cantora que também se tornou compositora, realizadora, modelo e actriz regressou com o primeiro registo de originais desde "Enfants d'Hiver" (2008), nascido num dos seus períodos mais amargos: o que sucedeu ao suicídio de uma das filhas, a fotógrafa Kate Barry, em 2013 (morte que também ressoou no disco mais recente de Charlotte Gainsbourg, meia-irmã desta).

BIRKIN tem dito que "OH! PARDON TU DORMAIS..." só foi possível graças ao apoio de Etienne Daho, um dos cúmplices criativos de um alinhamento que também deve muito à colaboração do multi-instrumentista Jean-Louis Piérot. A parceria musical impediu que a britânica se entregasse à melancolia e à inércia numa fase de luto e o resultado foi um álbum que a mostra uma intérprete ainda carismática e insinuante enquanto continua a desenvolver a vertente de escritora de canções.

O disco partilha o título com o telefilme realizado pela própria, juntamente com Christine Boisson e Jacques Perrin, em 1992, e com a peça de teatro encenada por Xavier Durringer, em 1999. Mas se esses tinham o universo conjugal como ponto de partida, o olhar musical é mais amplo, até porque surge, lá está, inevitavelmente marcado pela experiência da perda e do envelhecimento.

Apesar da gravidade evidente, "OH! PARDON TU DORMAIS..." está longe de ser um álbum sisudo, articulando ambientes elegantes e sumptuosos com uma voz que continua a parecer cantar-nos ao ouvido, entre heranças que vão de antigos companheiros e colaboradores como Serge Gainsbourg ou John Barry (pai de Kate) à escola de Kurt Weill. Passando, claro, por Etienne Daho, com quem a autora partilha o protagonismo no novo single, precisamente a faixa-homónima. A dupla, que já colaborou várias vezes no passado, volta a juntar-se no videoclip, realizado por BIRKIN e a tornar literal a conversa de cama.

Do quarto para o estúdio, com o coração aberto

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BRENDAN HENDRY limpou muitas casas de banho e levou muitos encontrões de clientes do bar onde trabalhava até conseguir juntar dinheiro para financiar o seu primeiro EP gravado num estúdio, confessa o cantautor canadiano entre os desabafos recorrentes nas suas redes sociais. Felizmente, não foi um esforço inglório: "BRATTY", auto-editado há poucas semanas, é um conjunto de canções mais seguro e versátil do que o já de si promissor "night person demo tapes" (2020), EP gravado no quarto e que o artista de Toronto recomenda para madrugadas solitárias às quatro da manhã.

A nova colheita não ficará confinada a um horário tão específico nem a uma audição necessariamente caseira, ao apostar num registo menos lo-fi e acústico (até por contar com dois músicos que se ocupam do baixo, bateria, guitarra e sintetizadores) e ao ser conduzida por uma voz que já não se limita ao sussurro. A faixa-título é um bom exemplo do abanão sonoro num alinhamento ainda assim maioritariamente intimista e contido, amparado num timbre caloroso e em relatos autobiográficos.

"BRATTY" traz sete histórias (e dois interlúdios) nas quais o seu autor se debruça sobre a solidão, a vergonha, a cumplicidade ou a afirmação enquanto equilibra melancolia e alguma ironia, quase sempre a partir dos (des)encantos das relações amorosas - seja o de uma noite de sexo casual, em "Late Night Caller" ("I’m not a hotline, I am something/ Not sure you know me as something other"), o adeus sem arrependimentos a um ex, em "Bratty" ("I found you weak, not traumatizing", "Better alone/ So get drunk on your tears"), ou o encontro com um homem mais velho, em "Terry's Car", um retrato especialmente forte e desarmante ("He thinks I'm some fragile young thing/ He should probably know I could ruin his family").

Tal como os também recentes MAN ON MAN ou o português Vaiapraia, BRENDAN HENDRY é mais uma voz masculina LGBTQI+ que parte de uma postura do it yourself cruzada com heranças do rock alternativo (e alguns ecos folk ou country), embora as vozes que mais admira até sejam quase todas femininas, de Amy Winehouse a Joni Mitchell, de Liz Phair a Lana Del Rey (de quem fez uma versão de "Mariners Apartment Complex" no EP caseiro).

A atitude desenrascada mantém-se nos videoclips, todos dirigidos pelo canadiano e a maioria tão artesanais como os primeiros temas (a excepção é o de "Terry's Car", que já contou com uma equipa de realização, direcção de fotografia, guarda-roupa e produção). Vale a pena espreitá-los e juntar "BRATTY" à lista de discos de cabeceira da temporada.