Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Viver e dançar no Texas

VVV.jpg

 

Apesar de residir no Texas, Shawhin Izaddoost, mais conhecido enquanto VVV, iniciou um percurso como produtor a partir do UK funky, há cerca de dez anos, e já conta com uma discografia considerável - entre álbuns, EPs, passagens por várias editoras e um gosto particular por lançamentos em cassete.

 

"When The Night Air Leaves", o registo mais recente, chegou no mês passado, mas entretanto há outro EP a caminho: "Spreading Primrose", com edição agendada para 11 de Outubro pela Holodeck Records (casa dos também regressados Automelodi e Grün Wasser).

 

O primeiro single, "LIVING ABOVE YOUR HEAD", sugere uma nova transição sonora depois de Izaddoost se ter movimentado entre o dubstep, ambient ou techno desde os primeiros tempos, aproximando-se dos territórios de Burial, Andy Stott ou Four Tet nos últimos anos. A viragem, entre o electro e a darkwave, lembra agora a dança sinuosa dos Soft Metals ou Crystal Castles, numa canção com videoclip lo-fi e alucinado do colectivo Vidkidz. E marca um dos lançamentos a ter em conta no último trimestre de 2019:

 

 

Quem espera sempre alcança

L7 fan.jpg

 

"Scatter the Rats", o novo e sétimo álbum das L7, chegou 20 anos (!) depois do anterior, "Slap Happy", mas ouvindo-o até parece que passaram só uns dois. Pouco ou nada mudou na música de Donita Sparks e companhia, o que não é má notícia quando o alinhamento serve mais uma dose certeira de rock directo e despretensioso.

 

"HOLDING PATTERN", o single mais recente, acaba por ser a excepção num disco quase sempre acelerado, ou pelo menos abrasivo - e nesse sentido os antecessores "Dispatch From Mar-a-Lago", "I Came Back to Bitch", "Burn Baby" e "Stadium West" não enganaram.

 

Além de comprovar que as californianas também não dispensam alguma sensibilidade pop, a canção acompanha o pedido de desculpas aos seguidores, deixado no Facebook da banda, pelo engodo da plataforma de crowdfunding PledgeMusic, que decretou falência e não devolveu os investimentos aos artistas e fãs. Felizmente, o quarteto garante que vai conseguir enviar os álbuns que tinha assegurado, graças ao apoio da Blackheart Records, editora de Joan Jett, que se encarregou dos custos. 

 

Embora não se tenha inspirado nessa experiência frustrante, "HOLDING PATTERN" deixa um relato que partiu de outros "ciclos de uma estagnação desanimadora", explica o grupo. O videoclip é, como de costume, de baixo orçamento (opção aqui mais compreensível do que nunca), mas as imagens dão-se bem com a música ao atirarem as L7 para uma atmosfera psicadélica:

 

 

Os rituais da fome

Bat For Lashes.jpg

 

Está bem encaminhado, o regresso de BAT FOR LASHES, a prometer um dos discos a ter em conta na rentrée. "Lost Girls", o quinto álbum de Natasha Khan, chega a 6 de Setembro e dele já eram conhecidos os singles "Kids In the Dark" e "Feel For You", o primeiro mais próximo da synth-pop melancólica da britânica, a segundo a propor um desvio inesperado para territórios space disco.

 

"THE HUNGER", o novo avanço, encontra a cantora e compositora num registo soturno e atmosférico, na linha do esoterismo de "Two Suns", o seu segundo álbum, que fez recentemente 10 anos. Há quem aponte "Fome de Viver" (1983), filme de Tony Scott com Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon, como influência da canção que faz alusões a vampiros, mas no videoclip Natasha Khan assume antes o papel de uma sacerdosita durante um ritual no deserto. A realização também ficou a cargo dela:

 

 

O sabor da maçã

Animated Violence Mild.jpg

 

BLANCK MASS arrancou como projecto paralelo a solo de Benjamin John Power, metade dos Fuck Buttons, em 2011, mas nos últimos anos tem-se mostrado mais prolífico do que a discografia da banda matriz (cujo disco mais recente é o distante "Slow Focus", de 2013).

 

"Animated Violence Mild", o quarto álbum do britânico, está prestes a chegar, já a 16 de Agosto, e os avanços iniciais não traíram a fasquia que esta aventura lateral (mas cada vez mais central) tem imposto. E se "House Vs. House" e "No Dice" prometiam, "LOVE IS A PARASITE" é bem capaz de ser a melhor amostra do disco até agora, num novo acesso distorcido que volta a ir além dos seis minutos de duração sem perder o rasgo - e mantém o desvario entre o electrónico, o industrial e o noise no qual o seu autor se tem especializado como poucos.

 

A acompanhar, o videoclip de Craig Maurray (que já colaborou com os Mogwai ou Converge) surge como paródia gore à sociedade de consumo, um dos pontos de partida do álbum, enquanto deixa uma homenagem aos primeiros dias da filmografia de David Cronenberg, influência decisiva para este universo - e já evidente num vídeo como o de "Dead Format".

 

Não admira, por isso, que a estética recue até inícios dos anos 80, com uma fronteira ténue entre o humor e o terror, à medida que o saborear de uma maçã se vai revelando problemático. Power diz que as imagens estão à altura da junção de grotesco e belo da sua música, mas fica o aviso de que a primeira vertente sai à ganhar à segunda, e com alguma vantagem. Nada contra:

 

 

Os demónios de néon

Kaelan Mikla 2019.jpg

 

Para celebrar a sua primeira digressão norte-americana, que arranca no final do mês, as KAELAN MIKLA apostam na divulgação de mais um tema do seu segundo álbum, "Nótt eftir nótt" (editado no final do ano passado), e num videoclip que revela parte do que esperar, uma vez que tem o palco como cenário.

 

Depois de "Draumadís" ou da faixa-título do disco, as islandesas escolheram outro ponto alto do alinhamento, "HVERNIG KEMST ÉG UPP?", mais um exemplo de ambientes góticos que lembram a urgência de algumas fases dos Crystal Castles ou Fever Ray mas nem por isso perdem em personalidade. E ao vivo a experiência parece ser ainda mais intensa, ou não tivesse já convencido gente como Robert Smith, que convidou o trio para primeiras partes de concertos dos Cure e para o cartaz do Meltdown Festival, em Londres, do qual foi curador.

 

Com parte da Europa já percorrida e os EUA a juntarem-se ao roteiro, calhava bem que Portugal também pudesse fazer parte desta agenda em breve. Um vídeo como este reforça o apetite, ao lançar um feitiço do qual não queremos sair tão cedo: