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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma mulher num mundo de homens

St Vincent

 

ST. VINCENT já se tinha revelado mais pop do que nunca em "MASSEDUCTION", o seu quinto álbum, editado no ano passado. Mas parece que mesmo assim ainda não era o suficiente, tendo em conta que um dos temas mais recatados do alinhamento, "Slow Disco", ganhou uma nova versão, "FAST SLOW DISCO" (produzida a meias com Jack Antonoff), que conforme o título indica apostou num ritmo mais acelerado - e festivo, apesar da letra melancólica q.b..

 

Não surpreende, então, que o videoclip desse novo single tenha uma pista de dança como cenário, embora talvez seja mais inesperado encontrar Annie Clark como a única mulher entre vários homens em tronco nu e movimentos insinuantes, a sua forma de celebrar o mês do orgulho gay.

 

O resultado de dezenas de corpos atiçados pela música fica algures entre o de "All the Lovers", de Kylie Minogue, mas em ambiente nocturno e quase 100% masculino, e uma versão menos atrevida de "TopBrazil", dos Fischerspooner, e mais descontraída do que o recente "Don't Beat the Girl Out of My Boy", de Anna Calvi. E se também por isso não ganha muitos pontos pela originalidade, é um passo de gigante para reforçar o lugar da norte-americana na lista de novas divas LGBT. A propósito, seria pedir muito podermos vê-la por cá num Arraial Pride?

 

 

Entre a Eurovisão e o apocalipse

Daisy Mortem

 

São de Bordéus, editaram este ano o seu segundo EP, "La vie c'est mort", e descrevem-no como "a banda sonora de um sonho erótico que termina com um assassinato numa discoteca obscura". Ou "uma pop fora das normas, entre a Eurovisão e o apocalipse", feita de estilhaços new wave, electro, punk, góticos e noise.

 

Não é uma introdução desajustada para o que se ouve ao longo das cinco novas canções dos DAISY MORTEM, sucessoras do EP de estreia "Better!Better!Better!" (2016), e a aposta recente do trio na língua materna (que substituiu a escolha do ingês na fase inicial) até ajuda a consolidar uma identidade que se afasta de uns The Faint ou The Presets enquanto aceita contaminações dos tempos cáusticos dos Soft Cell, dos Indochine ou dos mais esquecidos Taxi Girl (que revelaram Mirwais, mais tarde produtor de Madonna, e foram pioneiros da estética New Romantic na pop francesa durante a viragem para os anos 80).

 

A mistura é explosiva e sombria q.b. em disco, mas diz quem viu que se torna mais febril e robusta ao vivo, em actuações de euforia sonora e visual que já passaram por palcos portugueses (no Lounge, em Lisboa, ou no Maus Hábitos, no Porto, há poucos meses). Enquanto não há um regresso agendado, fica o novo videoclip, mesmo que se arrisque a ficar aquém da experiência in loco. "L'AMOUR, LE SIDA" começa como homenagem aos videojogos dos primórdios e termina com uma festa de esqueletos na pista de dança, mas vale sobretudo por dar novo fôlego a um dos temas mais potentes e aconselháveis do grupo:

 

 

Masculino feminino

Anna Calvi 2018

 

Um disco sobre a fome de experiências, liberdade sexual, intimidade, força e vulnerabilidade, grito de revolta contra uma sociedade patriarcal e heteronormativa. É esta a proposta de "Hunter", o novo e terceiro álbum de ANNA CALVI, que vem interromper um silêncio mantido desde o EP de versões "Strange Weather", de 2014.

 

Anunciado pela cantautora britânica há poucos dias e com edição prevista para 31 de Agosto, promete ser dos lançamentos mais efervescentes deste Verão. E o primeiro single diz logo ao que vem, já que "DON'T BEAT THE GIRL OUT OF MY BOY" dificilmente poderia ser mais directo ao apontar um dos temas centrais do álbum: a identidade de género, até porque CALVI tem dito recusar escolher entre o lado feminino e masculino.

 

"Acredito que se pudéssemos estar algures no meio, sem sermos empurrados para os extremos da masculinidade e feminilidade, seríamos todos mais livres. (...) Quero explorar uma sexualidade mais subversiva, que vai além do que se espera de uma mulher", reforça numa nota partilhada a propósito do disco.

 

Partindo de um rock aveludado que se vai tornando cada vez mais vertiginoso, com explosão sonora e emocional pelo meio, esta primeira amostra é uma bela porta de entrada - e o videoclip assinado por William Kennedy mantém a conjugação de crueza e grandiosidade:

 

 

A lista de colaboradores de "Hunter" também parece confiável, ao incluir Adrian Utley (dos Portishead), Martyn Casey (dos Bad Seeds) e Nick Launey (colaborador de Nick Cave, que se encarrega da produção). 

 

Outra boa notícia é que o álbum já tem duas datas de apresentação garantidas em Portugal: no Hard Club, no Porto, a 19 de Outubro, e no Capitólio, em Lisboa, no dia seguinte. E mesmo que seja sempre arriscado julgar um disco pela capa, esta vem confirmar a boa primeira impressão já deixada pelo single:

 

Anna Calvi - Hunter

 

Alinhamento de "Hunter":

 

01. “As a Man”
02. “Hunter”
03. “Don’t Beat the Girl Out of My Boy”
04. “Indies or Paradise”
05. “Swimming Pool”
06. “Alpha”
07. “Chain”
08. “Wish”
09. “Away”
10. “Eden”

 

A luz (e as sombras) entre oceanos

Goldfrapp 2018

 

Um dos melhores álbuns do ano passado vai ter direito a edição especial (a 6 de Julho) e a primeira novidade trata logo de despertar a curiosidade. "OCEAN", a canção que encerrava "Silver Eye", dos GOLDFRAPP, não só foi promovida a novo single do disco como surge agora com a participação de Dave Ganhan, a reforçar o negrume de um dos momentos mais sombrios do alinhamento.

 

Esta não é a primeira vez que o vocalista dos Depeche Mode se junta a Alison Goldfrapp, já que uma remistura de "Halo", tema do clássico "Violator", parece ter aberto caminho para o que aqui se ouve (era uma das supresas do muito aconselhável "Remixes 81-04", de 2004). Só não se percebe como é que a colaboração oficial demorou tanto tempo a acontecer, mas entretanto deixa vontade de ouvir mais tendo em conta a união natural de universos desta canção em particular (mesmo sem a voz de Gahan, a versão original de "OCEAN" já devia alguma coisa aos Depeche Mode).

 

A parceria mantém-se no videoclip, que encontra a dupla à beira-mar, na ilha de Fuerteventura, em poses teatrais e inevitavelmente atormentadas, à medida do tema. Tal como os vídeos de "Systemagic" e "Everything Is Never Enough", este foi realizado pela própria Alison Goldfrapp e vai consolidando um curioso percurso atrás das câmaras, que parece ter vindo para ficar. E também é mais um bom motivo para voltar a "Silver Eye", que tem remisturas de Will Gregory (a outra metade dos Goldfrapp) ou de Joe Goddard (dos Hot Chip) entre as novidades da edição especial.