Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Deus está em toda a parte (até na pista de dança)

Ellen_Allien_2019.jpg

Numa altura em que a pop latina tem tido cada vez mais expressão mundial, o novo single de ELLEN ALLIEN aposta num título que talvez deva alguma coisa a essa tendência. Mas qualquer semelhança de "LA MUSICA ES DIOS" com reggaeton ou aparentados fica-se mesmo por aí, já que apesar da repetição insistente dessa frase em espanhol, o resultado não se afasta de um techno habitualmente associado à DJ e produtora alemã.

A canção é o tema principal de um novo EP, homónimo, um dos primeiros lançamentos da UFO Inc., editora criada por ALLIEN no início de 2019. Apesar de já ter a seu cargo outra etiqueta, a influente BPitch Control, a berlinense dedica a mais recente a música de dança especialmente crua, agressiva e hipnótica, características que esta edição mantém nas três faixas: além do single de apresentação, há uma mistura alternativa, atmosférica q.b., e o lado B "Junge Sein".

O videoclip, protagonizado pela própria, ilustra a energia cinética da música com saturações cromáticas e movimentos de dança à medida, algures entre uma ode e um mantra de mais de sete minutos  de duração - e muito na linha do single anterior, o efervescente "Free Society":

Alice do outro lado do sonho

Alice Boman_Johan Olofsson.jpg

Ao contrário do que o título possa dar a entender, "EVERYBODY HURTS" não é uma versão da canção homónima dos R.E.M.. O novo single de ALICE BOMAN até se inspira, aliás, noutro clássico: "Time After Time", de Cyndi Lauper, que a cantautora sueca destaca como um tema especialmente "caloroso e reconfortante", qualidades que procurou manter num dos avanços para o seu álbum de estreia.

Com uma letra a abordar a experiência da rejeição sem mergulhar num cenário depressivo, é uma bela porta de entrada para o universo frágil e intimista de uma voz já ouvida em dois EPs ("Skisser", de 2013, e "EP II", de 2014) e a caminho do seu primeiro longa-duração. "Dream On" chega esta sexta-feira, 17 de Janeiro, e resulta de uma colaboração com Patrik Berger, produtor cujo currículo inclui canções de Robyn, Charli XCX, Icona Pop ou Santigold. A música de Boman, no entanto, estará mais próxima de nomes como Lana del Rey, Susanne Sundfør e da faceta mais complativa dos Goldfrapp ou da conterrânea Lykke Li.

Nascido de um período de recolhimento no interior sueco, o disco mantém-se entre a folk e a dream pop e acolhe inspirações que também passam pelo cinema: "Moonlight", "Disponível Para Amar" ou "Paris, Texas" são alguns dos que têm um efeito imersivo que a cantora quis criar no alinhamento. Tendo em conta o novo single e outras canções já reveladas, como "Wish We Had More Time" ou "Don't Forget About Me", terá sido bem sucedida.

Do Canadá ao Luxemburgo, dos Pond aos Hot Chip

Holy Fuck.jpg

Sem novidades desde 2017, ano da edição de "Bird Brains EP", os HOLY FUCK têm regresso aos discos marcado já para 17 de Janeiro. "Deleter", o quinto álbum dos canadianos, é o sucessor de "Congrats" (2016) e faz esperar mais um concentrado enérgico entre krautrock, noise, electro, house ou acessos industriais.

Desta vez, essa diluição de fronteiras surge especialmente inspirada por alguma música de dança de inícios dos anos 90, sobretudo no single mais recente, "FREE GLOSS", que o grupo diz ter partido da exploração do contraste entre o humano e o electrónico. Colaboração com Nicholas Allbrook, vocalista dos Pond, deixa mais um crescendo de euforia que, mesmo sem estar ao nível do melhor do quarteto, tem potencial para ganhar outros voos ao vivo.

Foi nos palcos, aliás, que nasceu "LUXE", a outra faixa já conhecida de "Deleter". O que começou como uma brincadeira num encore de um concerto no Luxemburgo (homenageado no título da canção) acabou por ir abrindo pistas para o novo disco, ganhando uma nova versão com a voz de Alexis Taylor, dos Hot Chip (banda com que os HOLY FUCK andaram na estrada).

Outro cúmplice insuspeito, Kieran Hebden (AKA Four Tet) contou-se entre os adeptos iniciais da viagem psicadélica e propulsiva, tendo aconselhado a banda a seguir por esta direcção no alinhamento do álbum. E "Deleter" bem podia passar por um palco português este ano, até porque o grupo vai iniciar uma digressão europeia em Abril. Até lá, os videoclips dos singles vão dando embalo ao compasso de espera:

Aqui há gato (envenenado)

Daisy Mortem.jpg

É um dos primeiros lançamentos de 2020 e chega já esta quinta-feira, 9 de Janeiro. "Faits-divers" marca finalmente a estreia em álbum dos DAISY MORTEM, dupla francesa que começou por se descrever como uma banda entre a Eurovisão e Apocalipse, embora a segunda vertente tenha sido bem mais acentuada nos últimos tempos.

"L'EMPOISONNEUR DE CHATS", uma das novas canções, é a prova mais recente, ao voltar a mergulhar na tragédia como inspiração para um petardo electro-punk, algures entre os Soft Cell mais decadentes, a fúria de uns Atari Teenage Riot e o frenesim dos Kap Bambino. "Uma canção sobre gatos mortos", assim a apresenta o duo de Bordéus, e o tema não destoa depois de singles como "L'accident est inévitable", "Arêtes" e dos EPs "Better!Better!Better!" (2016) e "La vie c'est mort" (2018).

Enquanto não é divulgada a versão de estúdio, pode ouvir-se a que ficou registada ao vivo há poucas semanas, num concerto em Berlim, no vídeo abaixo. Entretanto, este mês Cindy Bluray e Vampiro Maracas voltam a espalhar o caos por palcos franceses, belgas ou espanhóis, mas os portugueses também são território provável neste início de ano (até porque o grupo já actuou cá algumas vezes). Por agora, ficamos à espera do disco...