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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O amor e outros clássicos

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Depois de ter editado "Menneskekollektivet" (2021), o primeiro (e promissor) disco do projecto Lost Girls, criado com Håvard Volden, JENNY HVAL retoma o percurso a solo. E regressa com aquele que será já o seu oitavo álbum, com a particularidade de ser também o primeiro editado pela reputada 4AD.

"Classic Objects", agendado para 11 de Março, inspira-se tanto em espaços do passado da norueguesa como naqueles que imaginou (ou com os quais sonhou) durante o confinamento, assim como em locais do futuro ou até impossíveis. Se o conceito pode parecer amplo, a cantautora promete ser mais clássica do que nunca na forma (o que ajudará a explicar o título do disco), prometendo um alinhamento de canções mais pop e mais convencionais, todas com refrão e verso incluído.

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Mas para já, o resultado das amostras iniciais continua a soar desafiante e até experimental q.b.. Era esse o caso de "Jupiter", single de quase oito minutos de duração com fôlego atmosférico e cinematográfico, revelado no final do ano passado, e volta a ser o de "YEAR OF LOVE", sucessor de arestas mais limadas e com um inesperado calor africano na percussão (influência directa de Paul Simon), é certo, embora com alguns desvios instrumentais e entoado por uma voz aguda que ainda se estranha antes de se ir entranhando.

O videoclip, realizado por HVAL com Jenny Berger Myhre e Annie Bielski, ilustra a confluência de espaços enquanto as palavras viajam pelas noções de liberdade, compromisso e felicidade normativa:

Uma máquina do tempo que vale a corrida

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"The Runner", o terceiro álbum dos BOY HARSHER, já era lançamento a sublinhar na agenda inicial de 2022 - chega dia 21 de Janeiro -, mas o novo single consegue vir aumentar a expectativa.

Sucessor dos também auspiciosos "Tower" e "Give Me a Reason", "MACHINA" é o avanço mais surpreendente até agora ao desviar-se da darkwave associada aos norte-americanos para territórios italo disco e Hi-NRG, com a particularidade adicional de ter Mariana Saldaña, dos conterrâneos BOAN, como vocalista convidada - e a cantar em inglês e espanhol, uma estreia na música da dupla.

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Descrita como uma canção de embalar robótica inspirada por noites na icónica discoteca mexicana Patrick Miller, é um single dançável e imediato com refrão orelhudo, dos mais viciantes da banda de Augustus Muller e Jae Matthews (o que não é dizer pouco). E continua a vincar a dupla como um nome a seguir entre os que revisitam uma pop electrónica sombria e imediatamente associada aos anos 80 sem soarem a decalque.

Mais do que um novo álbum, "The Runner" é a banda sonora da curta-metragem de terror homónima, criada pelo duo, que se estreia internacionalmente esta semana nos serviços de streaming Shudder e Mandolin. O novo videoclip deixa algumas pistas do que esperar, em modo burlesco e surreal, com uma actuação entregue a The Beautiful Woman (a própria Saldaña), The Strong Man e The Bondage Dancer:

Vai uma canção (só) com mostarda?

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Elogiados pelos Cure (antes dos quais já actuaram) e protegidos dos Fontaines D.C. (que os recomendaram à Partisan Records e com quem andaram em digressão), os JUST MUSTARD foram um segredo demasiado bem guardado na altura do álbum de estreia, "Wednesday" (2018), mas merecem entrar na lista de bandas a ter debaixo de olho em 2022.

A preparar o segundo disco, os irlandeses que começaram por se inspirar nas guitarras dos Pixies, na electrónica dos Portishead e no universo das bandas sonoras antes de criarem canções nascidas do shoegaze, do trip-hop e do industrial entram no próximo ano como colegas de editora dos Idles ou Laura Marling e já deixaram uma pista de para onde querem levar a sua música.

"I AM YOU", a amostra inicial do novo longa-duração, é produzida por David Wrench (The xx, FKA twigs, Caribou) e mantém a atmosfera densa e sombria do antecessor, desenhando uma marcha de baixo, guitarra e percussão conduzida pela voz angelical de Katie Ball, mais uma vez a aproximar-se muito da de Alison Shaw, dos (injustamente) esquecidos Cranes.

Tal como alguns temas do álbum de estreia, é um single que sai valorizado por audições repetidas, embora o crescendo de tensão, explosivo q.b. no final, agarre logo à primeira. Editada há poucas semanas, a canção já tinha sido apresentada no espectáculo Live In Dreams, transmitido em streaming em Maio (entretanto ficou disponível na conta de Youtube do quinteto), e pode ser ouvida abaixo em dose dupla, a do visualiser e a do concerto: 

Um regresso entre o ruído e a melodia

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Um novo álbum de BOYS NOIZE talvez já não gere tanto entusiasmo entre os adeptos da música de dança mais efusiva como há uns 15 anos, quando o projecto de Alex Ridha se fez notar pela conjugação (e muitas vezes colisão) de electro, techno ou house em discos como "Oi Oi Oi" (2017).

Mas ainda vai valendo a pena seguir os passos do músico, produtor e DJ alemão de ascendência iraniana, como o confirmam muitas faixas de "+/-", o seu novo álbum, que acabou ofuscado entre os lançamentos da rentrée. Da descendência da electrónica maximal que lhe deu fama a episódios mais contidos e melódicos, o alinhamento rege-se pelo jogo de contrastes sugerido no título e tem na guest list gente como Chilly Gonzales, Ghost Cuture, Rico Nasty ou Tommy Cash.

Entre altos e baixos (ironicamente, também aí o disco faz jus ao título), os primeiros casos saem a ganhar aos segundos e têm sido valorizados nas escolhas dos singles.

"All I Want", com Jake Shears, foi um avanço inicial aliciante e as apostas recentes brilham ainda mais: "LOVE & VALIDATION" traz a voz de KELSEY LU (que também participa em "Ride or Die") , conta com ajuda na produção dos Soulwax e propõe com uma mistura insinuante de R&B, ambientes trip-hop e pop electrónica que tem acompanhamento visual certeiro no videoclip; "AFFECTION" convida ABRA para uma canção mais retro e dançável, nascida de heranças dos anos 80 e das raízes do electro e hip-hop. Ficam ambas a milhas dos disparos de adrenalina da faceta mais reconhecível de Ridha, mas o resultado está longe de ser uma má troca: