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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Pista aberta para o nosso querido mês de Agosto

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Apesar de DAVID BRUNO só ter ido "a uma meia dúzia de festas da espuma", todas na Discoteca Auritex, em Figueira de Castelo Rodrigo (como explica na sua página do Facebook), não deixou de revisitar e recriar esse imaginário para ir começando a apresentar o próximo álbum.

"Raiashopping", o sucessor de "O Último Tango em Mafamude" (2018) e "Miramar Confidencial" (2019), promete ser (ainda) mais expansivo ao continuar a explorar traços de uma certa portugalidade, mas não necessariamente a partir de Gaia (cidade natal do músico, documentada nos discos anteriores) e arredores.

O itinerário deverá concentrar-se no nordeste nacional, da Beira Alta a Trás os Montes, num alinhamento nascido de memórias de tardes no café, mergulhos no tanque ou incursões ao outro lado da fronteira, continuando a explorar a faceta de rapper cruzado com cantor popular romântico (a admiração por Marante ou Toy é assumida) do elemento do Conjunto Corona que também já assinou discos e produções como dB (incluindo o sério candidato a greatest hit "Cara de Chewbacca", com PZ, outro cronista nortenho que não dispensa a ironia e o humor).

"FESTA DA ESPUMA", o primeiro single, parece derivar de atmosferas dos anos 80, dominantes no álbum anterior (influenciado pela synth-pop e filmes de Van Damme ou Stallone), ao abrir a pista com guitarras da escola pós-punk e sintetizadores com saudades da euforia baleárica de Madchester. A meio, DAVID BRUNO junta hip-hop à mistura (com uma homenagem a Helder, Rei do Kuduro), e nem é o casamento mais inesperado que já propôs. O videoclip também é descendente da era do VHS e a conjugação completa de heranças pessoais, locais e musicais pode ouvir-se a 1 de Agosto, data de lançamento do álbum:

 

O sol nasce para todos

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MOULLINEX tem tido uma rotina consideravelmente agitada durante o período de isolamento social, mantendo uma agenda que inclui DJ sets online aos sábados à noite (o mais recente, ao lado de Xinobi) ou actuações caseiras, a solo ou com a sua banda, na série de vídeos The Lockdown.

Foi, aliás, num desses episódios gravados em casa que Luís Clara Gomes começou por apresentar uma nova canção, um instrumental sem título nascido de teclados e sintetizadores, a meio caminho entre a euforia e a melancolia. Mas entretanto o tema não só ganhou nome, "LUZ", como passou a contar com a voz de GPU Panic (Guilherme Tomé Ribeiro, dos Salto).

Outra novidade é o videoclip, gravado com um iPhone dentro de um carro já na fase de quarentena, recorrendo a binóculos para observar momentos do quotidiano lisboeta de várias pessoas (convidadas a participar no projecto) nas suas janelas, varandas ou telhados.

Resultado de uma colaboração com o artista Bráulio Amado e filmado por Bruno Ferreira, tem a premissa da distância social mas não pretende ser um vídeo sobre o vírus ou a quarentena, sendo antes descrito como "quase uma curta-metragem sobre expressão individual, capaz de superar as restrições de isolamento, em casa. Sobre a arte quebrar as barreiras físicas em que vivemos e poder acontecer mesmo nestas circunstâncias".

Além de "LUZ", MOULLINEX partilhou nos últimos dias outros dois inéditos, "Ergo" e "Galesa", criados durante um encontro de músicos nos estúdios Key+Needle, em Nova Iorque, no ano passado. Tão ou mais direccionados para a pista de dança, podem ser ouvidos no EP "Nervous Brooklyn Sessions 2020", disponível nos serviços de streaming, tal como o novo single.

Desabafo de quarentena pijamística

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Pijama no local de trabalho? Um bálsamo para muitos dos que têm estado em isolamento social, nada de novo na rotina de PZ. Afinal, já era essa a farda de Paulo Zé Pimenta nos concertos ou videoclips, embora agora não destoe quando acompanha tantos outros das 9 às 5 (e mais além).

Mas apesar de lhe ser familiar trabalhar a partir de casa sem pensar muito na roupa, o músico portuense não deixa de partilhar um "desabafo de quarentena pijamística" na forma de uma nova canção. Ou não tão nova quanto isso, uma vez que "VÃO SER MILHÕES" surgiu há cerca de três anos ("quando não me lembro atiro sempre para os 3 anos", explica PZ nas redes sociais), ainda que só tenha sido revelada por estes dias. De qualquer forma, a letra podia ter nascido ontem, já que continua a fazer tanto ou mais sentido em tempos de fake news e de vidas que tendem a ser geridas em rede.

Primeiro inédito desde "Do Outro Lado" (o quinto álbum, editado em 2019), é um desabafo entre teclados e programações, com o humor e a idiossincrasia a manterem-se num videoclip obrigatoriamente caseiro, filmado e protagonizado pelo músico, como já é habitual:

O primeiro golpe de "Kung Fu"

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É um dos regressos nacionais do ano e concretiza-se já no mês que vem. Luis Salgado, mais conhecido como STEREOBOY, edita a 17 de Abril o segundo álbum, "Kung Fu", sucessor do já distante "OPO", de 2013, e de dois EPs. E embora volte a apostar em instrumentais com uma carga electrónica assinalável, as novas canções prometem mostrar uma faceta mais densa, até agressiva, a contrastar com um passado de experimentalismo lúdico e onírico.

O título do novo disco já denuncia essa viragem e o single de apresentação confirma-a, pelo menos para já. "YIP MAN" mantém as referências orientais (o título é herdado de Bruce Lee) e avança entre o industrial e o krautrock, a ameaçar aproximações ao noise, através da combinação de sintetizadores e bateria - modelo que deverá dominar o alinhamento do álbum. O vídeo que marca a estreia do tema é o primeiro de dois gravados numa sessão ao vivo, Casota Sessions #3, da autoria do colectivo com o mesmo nome. E cria alguma expectativa em relação ao próximo:

Esta máquina ainda acelera bem

Como soam as canções do álbum de estreia dos X-WIFE, 15 anos depois? O teste de palco foi francamente positivo para "Feeding the Machine", revisitado na noite de quinta-feira no Musicbox Lisboa.

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Foto: Facebook X-Wife

Quando o punk e sobretudo o pós-punk inspiraram, nos primeiros anos deste milénio, uma série de novas bandas dos dois lados do Atlântico - dos Interpol aos Strokes, dos Yeah Yeah Yeahs aos The Rapture, passando pelos Bloc Party ou Franz Ferdinand -, por cá esse efeito não passou despercebido junto de João Vieira, Fernando Sousa e Rui Maia.

Através dos X-Wife, formados em 2002, o trio portuense foi dos nomes nacionais que mais rapidamente se sintonizaram com um fenómeno que marcaria, com poucos, o rock da década passada. E talvez o grupo que melhor soube traçar um caminho sólido partindo da herança de géneros nascidos em finais dos anos 70 e inícios de 80, consolidando uma linguagem que também aceitou contaminações do electro, da synth-pop, do disco ou da EBM ao longo de um percurso que conta cinco álbuns - além destes, os últimos anos contaram com aventuras paralelas nos projectos individuais de Vieira (White Haus) e de Maia (Mirror People), assim como em várias colaborações de Sousa com outros artistas.

"Feeding the Machine" (2004), sucessor de "Rockin' Rio EP" (2003), vincou o primeiro grande passo de uma banda que nunca negou as suas inspirações - pelo contrário, assumiu sempre uma paixão melómana por referências como os Joy Division ou, mais tarde, os LCD Soundsystem, talvez as mais evidentes na sua música - e que mostrou saber canalizá-las para uma voz pessoal, bem defendida tanto nos discos como nos palcos.

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"Estamos a revisitar um passado que para nós ainda faz sentido no presente", assinalou João Vieira a meio da actuação lisboeta, uma das que integram a digressão que celebra os 15 anos do registo de estreia ao longo deste mês. "Para nós estas canções continuam frescas", acrescentou, e o público de uma sala bem composta terá concordado. O mérito foi não só da consistência do alinhamento de "Feeding the Machine", mas da coesão instrumental que o trio - Vieira na voz e guitarra, Sousa no baixo, Maia nos sintetizadores e caixa de ritmos - demonstrou ao tirar do baú canções como "Eno" ou "Second Best".

Essa eficácia não terá sido surpreendente para quem já tivesse visto um concerto dos X-WIFE, embora o efeito surpresa também não tenha sido o maior propósito de um concerto que assentou sobretudo no reconhecimento. E esteve à altura desse pacto, ao recordar o álbum de estreia na íntegra, sem grandes desvios da moldura sonora original e com direito a algumas memórias partilhadas pelo meio. Como antes de "We Are", que o vocalista contou ter sido a primeira canção do grupo a passar na rádio (no painel nocturno da Antena 3), episódio que o trio guardou entre os pontos de viragem mais emotivos. Ou a propósito de "Rockin' Rio", ironicamente com o nome de um festival no qual os X-WIFE nunca actuaram, apesar de terem "o sonho de ir lá tocar". "Nunca fomos, nos convidaram", assumiu Vieira ao lembrar a "estratégia de marketing" gorada.

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O músico, em tempos mais conhecido como DJ Kitten, confessou ainda estar satisfeito pelo facto de um grupo prestes a atingir a idade da maioridade - "Fazemos 18 anos em Março de 2020" - ir conseguindo renovar o público, tendo em conta a auscultação de espectadores sub-30 que fez a meio do concerto. "Não é fácil ser uma banda com 17 anos", sublinhou, brincando com estratégias como a da celebração do aniversário do primeiro álbum. Uma ocasião especial e irrepetível, "a menos que nos façam uma proposta milionária", alertou. "Nunca dizemos nunca, ao contrário de certas bandas". Fica o recado.

Os Joy Division não serão uma dessas bandas, embora não tenham deixado de ser revisitados no final da noite. "Transmission", no encore, ficou como homenagem muito aplaudida ao grupo de Ian Curtis, mesmo que tenha soado demasiado reverente.

A fechar, "Turn It Up", entrada no segundo capítulo do grupo, "Side Effects" (2006), depois de "Feeding the Machine" ter sido percorrido pela ordem do alinhamento. "Taking Control", a última faixa do álbum de estreia, foi dos momentos mais efusivos de um concerto sempre em modo acelerado, nascido da tensão entre guitarras e electrónica, contraste que tem nos X-WIFE um dos representantes-chave dentro de portas - e com uma discografia que tem sabido evoluir de forma mais interessante do que as de alguns colegas de geração internacionais. Também por isso, é pena que esta festa mal tenha atingido os 60 minutos de duração - o encore podia ter acolhido mais do que dois temas -, o que não impede de aconselhar a celebração destes 15 anos nos próximos dias. Quem puder passar pelo Club, em Vila Real, a 16 de novembro; pelo Carmo'81, em Viseu, a 22 de novembro; ou pelo Salão Brazil, em Coimbra, a 23 de novembro, que aproveite para ver como soa uma máquina bem oleada.

3/5