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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um álbum para abanar (e aliviar) a cabeça

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O punk não morreu e em alguns casos não tem medo de juntar sensibilidade pop à raiva. O álbum mais recente de VICTOR TORPEDO é um deles e dá conta dessa combinação logo no título, o esclarecedor "PUNK/POP AND SOFT RAGE".

Sucessor de "Béri Béri", um dos discos nacionais que trataram bem as guitarras no ano passado, o quinto longa-duração a solo do músico dos Tédio Boys e The Parkinsons (que também já passou, entre outros, pelos Tiguana Bibles ou Subway Riders) é exemplo de uma fase que se tornou invulgarmente prolífica nos discos face às limitações dos palcos nos últimos meses. O veterano do rock de Coimbra garante que, além deste registo editado pela conterrânea Lux Records, gravou vários álbuns durante o confinamento e, para já, a música não deixa sinais de redundância criativa.

"Punk/Pop and Soft Rage" é pelo menos tão coeso como o antecessor e tanto aposta em palavras de ordem gritadas em refrãos orelhudos (com choques sociais ou económicos na mira) como nos cenários mais inesperados dos quatro instrumentais, que revelam outros horizontes além da escola punk (dos The Clash aos Sex Pistols) e estão entre os melhores episódios do alinhamento.

TORPEDO não abdicou da filosofia do it yourself e tocou todos os instrumentos em casa, tendo tido apenas a colaboração de João Rui (vocalista dos a Jigsaw) na mistura. "PROBLEM IN MY HEAD", o bem sacado novo single, é um dos temas que olham de frente para o desnorte mental trazido pela pandemia e leva o delírio mais longe no videoclip de Sebastião Casanova:

Uma selfie de um homem múltiplo

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"Selfie Destruction", o novo e sexto álbum de PZ, é mais um exemplo da produção individual, independente e caseira de Paulo Zé Pimenta, tal como todos os anteriores. Nesse sentido, este é um disco que não foi assim tão abalado pela pandemia COVID-19, embora os efeitos do confinamento ainda tenham eco em algumas canções.

Colecção de temas curtos (raramente vão além de três minutos), vinhetas de um quotidiano mais ou menos delirante (pessoal mas quase sempre transmissível), o alinhamento volta a apostar no humor e ironia como ingredientes essenciais e em palavras conjugadas com sintetizadores e caixas de ritmos.

As primeiras audições revelam um hino minimalista para tardes de domingo solitárias ("Dona Elisa"), uma alusão ao clássico "Croquetes" que entendedores entenderão ("Fruta e Canivetes"), indignação em cama de synth-pop dopada ("Uma Anormalidade") e pelo menos uma das grandes canções nacionais do ano (o convite em modo sincero e melancólico q.b. de "Daqui para Fora", que merecia ter vida próspera em playlists para lá de Bagdad).

O novo single, no entanto, é um tema que assume o cruzamento de personalidades fragmentadas que tem guiado esta discografia. "INCOMPATIBILIDADES" chega depois dos desabafos de "Vão Ser Milhões" e "Em Paz na Minha Guerra" e conta com um dos instrumentais mais pegajosos do álbum, acompanhado de uma sugestão de coreografia no videoclip. Realizado pelo colaborador habitual Alexandre Azinheira, o vídeo é, como sempre, protagonizado pelo músico portuense, aqui num desdobramento à homem múltiplo mas nem por isso capaz de dispensar o pijama na maioria das versões:

Do Festival da Canção aos Pauliteiros de Miranda (via pop electrónica)

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Embora já contasse com temas editados desde 2014, FILIPE KEIL tornou-se um nome mais familiar para muitos ao ter sido um dos concorrentes da edição de 2019 do Festival da Canção, na qual apresentou "Hoje". Mas essa balada assente na voz e no piano nem será a mais representativa de uma sonoridade que deu os primeiros passos num EP vincado por ecos da new wave, "Keil" (2014), com o cantautor a expressar-se em português e inglês, ao qual se seguiu o acústico "Sonhador" (2017), este já a optar apenas pela língua materna - escolha que se tem mantido desde aí.

Alguns singles volvidos, "(A)CORDA" propõe agora mais quatro canções inéditas e alarga consideravelmente os horizontes líricos e sobretudo sonoros do artista nascido em Chaves há 30 anos (e que além de manter um percurso musical, editou no ano passado "A Salvação da Primavera", livro que escreveu e ilustrou).

Conforme explicou em entrevista ao SAPO Mag, no novo EP FILIPE KEIL parte de uma combinação de tradição e contemporaneidade, da música de Trás-os-Montes à pop electrónica, enquanto canta sobre identidade, crescimento e liberdade. Pelo caminho, também questiona conceitos de masculinidade (como aliás já fazia no registo de estreia, em "Cry Boy, Cry!") e atira-se a territórios inesperados no momento mais agreste do disco, "Hora", a sugerir audições atentas dos Nine Inch Nails - e a mostrar-se capaz de integrar essa eventual herança numa linguagem que vai definindo como sua.

A escolha para tema de apresentação, no entanto, recaiu sobre "O AMOR COMO É?", também ele a denunciar sinais de mudança. Inspirado pelo som do bater dos paus dos Pauliteiros de Miranda, é um single contagiante - talvez a canção mais dançável do flaviense até aqui - e chega com um videoclip assinado pelo cantor que aposta num sentido estético mais personalizado. A tradição dos Caretos de Podence também se faz notar nas imagens, curiosamente numa altura em que esse legado marca uma das concorrentes mais fortes do Festival da Canção deste ano. E ajuda a sinalizar, numa das boas surpresas da pop nacional da temporada, que o caminho do FILIPE KEIL de 2021 já está bem distante dos tempos de "Hoje".

Mínima luz, máxima intensidade

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Já havia bons motivos para prestarmos atenção ao "ELÉCTRICO", o programa nascido de um casamento feliz entre a Antena 3 e a RTP1 que resultou na melhor montra televisiva para a nova música portuguesa em muitos anos. Mas a segunda temporada, que tem sido emitida no primeiro canal nas noites de sexta-feira, oferece das poucas oportunidades para acompanhar concertos inéditos de artistas nacionais em tempos de salas encerradas (e sem data de reabertura à vista).

É verdade que não faltam actuações caseiras improvisadas com palcos virtuais, embora o empenho (louvável) do modelo do it yourself dificilmente garanta o melhor apuro técnico. E por isso as gravações do "ELÉCTRICO", registadas no Capitólio, em Lisboa, no ano passado, destacam-se como a aproximação possível à experiência de um concerto ao vivo - e com um cuidado na realização, edição e trabalho de som no qual a música sai valorizada.

O episódio mais recente é um dos exemplos mais claros, ao dar uma rara oportunidade de ouvir numa sala as canções de "Mínima Luz", o novo álbum dos TRÊS TRISTES TIGRES (e dos melhores editados por cá em 2020). Longe de imediato, como é habitual na banda de Ana Deus e Alexandre Soares, o sucessor do já distante "Comum" (1998) é daqueles que intrigam o suficiente à primeira audição para inspirar redescobertas com tempo, seja das palavras (muitas de Regina Guimarães, cúmplice de sempre, mas também de Luca Argel ou da vocalista) ou dos cruzamentos sonoros (com guitarras e sintetizadores entre a distorção e loops que se vão revelando viciantes).

O salto para o palco não só é conseguido como atira para um patamar superior a intensidade de canções como "Galanteio", "À Tona" ou "Língua Franca" (que contou com a harpista Angélica Salvi como convidada), onde ecos do rock alternativo e experimentação electrónica se juntam a uma eloquência particular. Essa carga mais visceral e trepidante ao vivo já elevava temas de discos anteriores, mas é bom confirmar que "Mínima Luz" não faz equivaler veterania e conforto.

Além dos TRÊS TRISTES TIGRES, o episódio mais recente do programa conduzido por Henrique Amaro e Vanessa Augusto recebeu Rita Redshoes, também ela com várias canções novas - "Contigo É Pra Perder" juntou-a a Camané no ponto alto da actuação, assente numa pop elegante e delicada. Depois da emissão às sextas, "ELÉCTRICO" repete ao domingo ao meio-dia, na RTP1, e segunda-feira, às 21h00, em versão FM na Antena 3 - e também está disponível na RTP Play.