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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um mambo de tipo electrónico

Throes + The Shine 2019.jpg

 

Três anos depois de "Wanga", os THROES + THE SHINE começam a abrir caminho para o quarto álbum, "Enza", prometido para este semestre. E se no disco anterior Igor Domingues, Marco Castro e Mob Dedaldino já faziam viragens ao rockuduro, fusão (de rock e kuduro) que deu que falar nos primeiros dias da banda, no que aí vem parecem reforçar a aproximação à electrónica - sem deixarem cair o apelo físico da sua música.

 

É para esses lados, pelo menos, que aponta o primeiro single, "BALANÇA", que mesmo sem ser das canções mais explosivas do trio portuense faz jus ao nome com um embalo contagiante, entre ritmos que cruzam o tribal e o urbano e palavras de ordem a vincar uma linguagem reconhecível.

 

Além desta amostra inicial, sabe-se que "Enza" vai contar com colaborações de Mike El Nite, Selma Uamusse, Cachupa Psicadélica e dos mexicanos Sotomayor, tendo ainda o holandês Jori Collington a ajudar na produção. Já para o videoclip de "BALANÇA", o grupo chamou André Carrilho, que filmou uma actuação cruzada com ilustrações de Mantraste por Rui Clara Gomes, numa criação de Sebastião Faro (GOD The Creation Director). Mas mais do que ouvir o disco, o vídeo faz querer conhecer as novas canções em palco, ou não fosse esse um território que os THROES + THE SHINE têm sido capazes de incendiar como poucos:

 

 

Esta prenda já tem 20 anos

The Gift_-_Vinyl

 

Caso de sucesso a partir de uma postura do it yourself, "VINYL" marcou a estreia dos THE GIFT e um capítulo importante da pop nacional de finais da década de 90. 20 anos depois da edição, continua a acolher algumas das melhores canções da banda de Alcobaça.

 

Empreendedores acérrimos antes de essa prática se tornar um modelo-chave depois da viragem do milénio, os THE GIFT têm a história do seu primeiro álbum inevitavelmente associada à recusa de todas as editoras antes de avançarem com a edição própria.

 

A atitude obstinada acabou por alimentar um fenómeno de culto quando "VINYL" surgiu finalmente nos escaparates, em Dezembro de 1998, e resultou num triunfo invulgar quando o grupo de Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro foi ganhando espaço nas playlists e tabela de vendas ao longo do ano seguinte - acolhimento com direito a concertos por todo o país, incluindo nos coliseus e Aula Magna, que confirmaram a desenvoltura do quarteto nos palcos.

 

 

Este abraço do grande público à banda formada em 1994 e até então praticamente desconhecida, aproximação que rompeu com a lógica dominante na indústria musical, tornou o álbum de estreia dos THE GIFT em material para um estudo de caso (em alguns aspectos comparável ao dos Silence 4, também em 1998 e também a apostarem no inglês, embora a Polygram tenha aberto as portas ao grupo de Leiria). 

 

A ascensão foi tão imprevisível que às vezes parece ofuscar o que "VINYL" ainda tem para oferecer, além da narrativa inspiradora: as canções, algumas das mais conseguidas do quarteto de Alcobaça. Exemplo da banda certa no momento certo, o disco condensou linguagens da pop mais intrigante do final do milénio, com contaminações trip-hop a acessos breakbeat, e definiu logo o ADN de um grupo entusiasmado com a ponte entre o electrónico e o acústico.

 

Entre sintetizadores e samples, cordas e metais, a voz imponente de Sónia Tavares ajudou a demarcar a personalidade de um álbum então comparado aos caminhos que Björk, Portishead ou Lamb tinham percorrido poucos anos antes. Mas duas décadas depois, "VINYL" continua a soar a uma estreia consistente e às vezes muito inspirada, mais do que a um esforço derivativo ou apenas promissor. A promessa tinha ficado, aliás, no EP "Digital Atmosphere"(1997), e o salto qualitativo para a estreia num longa-duração foi notório.

 

The Gift Vinyl 2

 

A viagem entre o tom épico e intimista fez-se logo nos primeiros temas, da urgência de "Nowadays" à contenção ao piano de "My Lovely Mirror". E ambas sugeriram que havia mais (e melhor ou diferente) a descobrir por aqui além de "OK! Do You Want Something Simple?", cartão de visita que acabaria por acusar algum desgaste.

 

O tempero latino de "Real (get me for...)", a incursão pelo português de "Ouvir" (que só viria a ser o idioma dominante das letras do grupo em "Primavera", de 2012), o frenesim rítmico de "Changes" (com ecos do drum n' bass), a viragem instrumental da marcha de "La Folie" (talvez o momento mais contagiante e luminoso) ou a melancolia da belíssima "Dream with Someone Else's Dream" (a grande canção do disco?) deram sinais de uma banda com horizontes largos e capaz de estar à altura do desafio.

 

O último terço do alinhamento é menos surpreendente (15 faixas talvez sejam demasiadas), mas "VINYL" não deixa de merecer ser (re)descoberto do princípio ao fim, mesmo em tempos e plataformas menos condizentes com o formato álbum. "E é tão difícil ouvir sem sentir", pelo menos para quem continua a encontrar aqui uma das estreias mais memoráveis da pop nacional das últimas décadas...

 

À descoberta do segundo álbum

20181011 Foto Promo Final KRS Joana Linda

 

Os KEEP RAZORS SHARP começaram o ano a prometer um segundo álbum e revelaram logo em Janeiro o (muito aconselhável) primeiro single, "Always and Forever". Só que desde aí não surgiram mais novidades do sucessor da estreia homónima de 2014.

 

Mas "OVERCOME", assim se chama o disco, chega mesmo em 2018 e nem é preciso esperar muito mais: vai poder ser ouvido a partir desta sexta-feira, 19 de Outubro. E agora até já se pode escutar o segundo single, a faixa-título, canção muito menos explosiva do que a antecessora embora não menos aliciante - e a comprovar que a melancolia também assenta bem ao grupo de Afonso (Sean Riley & The Slowriders), Rai (The Poppers), Bráulio (ex-Capitão Fantasma) e Bibi (Pernas de Alicate).

 

KRS

 

O videoclip, realizado por Joana Linda, acompanha o quarteto "entre os mortos e os vivos, o passado e o futuro", no World of Discoveries, museu interactivo e parque temático do Porto, com um ambiente meditativo e surreal q.b.. E entretanto também já é conhecida a capa do disco que, depois do lançamento, chega aos palcos na próxima semana, a 25 de Outubro, no festival Jameson Urban Routes, no Musicbox, em Lisboa - numa noite repartida com os brasileiros Boogarins. Agora, sim, temos regresso e em várias frentes:

 

 

Rastilho para um regresso

Keep Razors Sharp

 

Em equipa que ganha não se mexe e a dos KEEP RAZORS SHARP mantém-se intacta, quatro anos depois do álbum de estreia (que continua a poder ser ouvido e descarregado gratuitamente aqui).

 

Afonso (Sean Riley & The Slowriders), Rai (The Poppers), Bráulio (ex-Capitão Fantasma) e Bibi (Pernas de Alicate) voltaram a juntar-se para um dos discos a aguardar entre a produção nacional de 2018, ainda sem data de lançamento mas já com uma pista do que aí vem.

 

"ALWAYS AND FOREVER", o single de apresentação, retoma a efervescência do grupo num portento psicadélico de travo shoegaze, directo e propulsivo, com o contraste de vozes e guitarras a levar a uma vertigem de três minutos (e a mostrar potencial para sair ampliada ao vivo). O refrão orelhudo também ajuda, mesmo que não seja tão pegajoso como o de um tema na linha de "Can't Get You Out of My Head" (sim, a canção de Kylie Minogue que teve direito a uma tremenda versão da banda).

 

O videoclip, realizado por Leonor Bettencourt Loureiro, foi filmado nos Blacksheep Studios, em Mem Martins, mas a música atira-nos mais facilmente para o deserto norte-americano num dia agreste q.b. e com eventual mergulho em demónios interiores. Para começar a aquecer o ano enquanto abre caminho para o álbum, não está nada mal: