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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um single para juntar às canções que salvaram o ano

Paz Atómica.jpg

Nem tudo foi mau em 2020 e a oferta de pop electrónica nacional aí esteve para o provar. Do humor de David Bruno ou PZ à melancolia de Vatsun, do apelo dançável de Electric Man às promessas Spicy Noodles ou GPU Panic (este a solo e nas colaborações com Moullinex), houve vários casos a acompanhar - e num departamento mais afastado do formato canção, Ghost Hunt e Stereoboy também se deram bem com sintetizadores.

Mais recente, a estreia de PAZ ATÓMICA vem juntar-se a estes e outros nomes que foram merecendo atenção ao longo dos últimos meses. Aventura a solo de Vítor Pinto - elemento dos Malibu Gas Station, participante no projecto David From Scotland, em tempos parte dos extintos O Abominável -, arranca com "SALVAÇÃO", single de descendência inegável de alguma synth-pop sombria nascida nos anos 80 que opta pelo português como idioma. E parece ser uma opção acertada, ao ajudar a moldar um primeiro single intrigante enquanto deixa curiosidade de ouvir mais em 2021. O videoclip, a preto e branco e nascido de imagens de vários realizadores, ajuda a confirmar a boa impressão inicial:

Mais de 30 anos sem desistir

Cabrita.jpg

Dos Cool Hipnoise aos Sitiados, passando pelos Kussondulola ou Cais do Sodré Funk Connection, João CABRITA tem quase tantas colaborações no currículo como anos enquanto músico profissional, que já atingiram a marca das três décadas. Mas o saxofonista só aceitou o desafio da primeira aventura a solo há poucos meses, quando editou o álbum de estreia homónimo em Outubro (que traz como bónus outro disco, "Quarantine Sessions", gravado durante o período de confinamento).

Viagem entre o jazz e o funk, com acessos rock ou afrobeat, a aposta da Omichord Records é das melhores surpresas da música que se faz por cá nascida em 2020 , embora esteja longe de ser uma criação individual. Cúmplices como The Legendary Tigerman, Tó Trips ou Sandra Baptista são alguns dos convidados decisivos para um alinhamento no qual se ouvem também as colaborações de Sam The Kid, Hélio Morais ou Gui, entre outros nomes.

No novo single, no entanto, o protagonismo vai para as vozes de Tamin, Silk, Susana Félix e Selma Uamusse, que fazem de "NEVER GONNA GIVE IT UP" o único tema cantado do alinhamento e aquele que o encerra - além do episódio mais optimista de uma experiência que percorre vários estados de alma em modo instrumental.

A canção não só fecha o disco como é a banda sonora do último capítulo de uma história que tem sido contada nos videoclips dos singles anteriores - "Dancing With Bullets" (parte 1), "Afronaut's Lament" (parte 2) e "Caravan" (parte 3) -, escrita e realizada por Miguel Leão. Uma visão de Lisboa fora de horas, em tom film noir q.b., onde não falta uma proto-femme fatale (Érica Rodrigues) incansavelmente perseguida pelo protagonista (Fernando Nobre). E com um travo de ficção científica a insinuar-se entre memórias difusas e ameaças de gangsters locais:

Máquina de guerra (nas redes)

Electric Man - fotografia Carla Gonçalves.jpg

A máquina de ELECTRIC MAN está bem oleada no novo single do projecto a solo de Tito Pires, fundador, vocalista e guitarrista dos Gessicatrip. "MODERN MACHINE" parte da combustão de guitarras e sintetizadores para deixar uma single-manifesto que se atira à alienação e realidades construídas através das redes sociais, apontando o dedo ao triunfo do ego e da aparência.

A mensagem não é nova - como o confirma, por exemplo, a também recente "Fake", de Romero Ferro -, mas o meio tem a sua eficácia, através de um rock propulsivo e dançável que não destoaria ao lado de temas dos X-Wife ou dos Parkinsons (não por acaso, duas das bandas nacionais que o músico diz admirar).

A canção chega depois de "Much More Space" (que convidou Suspiria Franklyn, a antiga vocalista dos Les Baton Rouge) ter marcado o regresso desta aventura individual no início do ano e parece abrir a porta a um sucessor do álbum homónimo, editado em 2015, e de "Electric Domestique", de 2017. Para já, o videoclip vai dando conta dos testes de pose:

Quando um regresso mantém a identidade intacta

Vatsun.jpg

Projecto de Sérgio Deuchande (que compõe, canta e produz) criado em 2014, VATSUN começou a despertar mais atenções quatro anos depois, com a edição de um (promissor) álbum de estreia, "Imaterial", e ao se revelar uma das melhores surpresas da colheita EDP Live Bands 2018.

Entre inspirações literárias e cinematográficas que incluíram Joseph Conrad, Herberto Helder ou Ingmar Bergman, conciliadas com heranças musicais da synth-pop e do pós-punk, este percurso que também foi tendo edições no formato EP chega agora à fase do segundo álbum, do qual já se ouviram "Panorama" e "Fantasma" nos últimos meses.

Agendado para 20 de Outubro, "Intacto" parece manter as coordenadas de temas atmosféricos, entre o dançável e o meditativo, e sempre cantados em português - às vezes a lembrar os universos dos Sétima Legião ou Balla enquanto também promete chegar a admiradores de uns New Order. O exemplo mais recente disso mesmo é "VIDA SANTA", single nebuloso (as imagens do videoclip não enganam) mas que não prescinde de um embalo rítmico nascido de guitarras e sintetizadores, cruzamento ao qual se junta (e bem) a voz sussurrada de Deuchande. Pode estar aqui um dos discos nacionais a ter por perto na recta final de 2020: