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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Filmes, séries, discos e canções: 55 de 2021

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Agosto está aí à porta, é tempo de ir a banhos, mas também já é altura de fazer um primeiro balanço do que se viu e ouviu no primeiro semestre de 2021.

Terminado o confinamento, as salas de cinema voltaram a ser uma opção e a colheita dos Óscares deste ano ajudou a trazer algumas boas surpresas - sobretudo "Minari", um dos grandes dramas do ano, e a maioria dos nomeados da categoria de Melhor Filme Internacional.

No pequeno ecrã, vale a pena destacar três séries que mereciam mais atenções - "Losing Alice", "Manhãs de Setembro" e "Invincible" -, numa fase em que a oferta (e a dispersão) do streaming é cada vez maior.

Na música, os últimos meses tanto viram justificado o voto de confiança em algumas revelações (Dry Cleaning, For Those I Love) como em nomes que superaram o desafio do segundo álbum (Goat Girl, Bicep) ou em veteranos ainda em forma (GusGus, Arab Strap, Garbage). Já dentro de portas, Callaz, Rita Vian, Mira Quebec ou Oma Nata foram propondo caminhos sugestivos e personalizados para a (pop) electrónica nacional.

Enquanto a rentrée não chega para acelerar o ritmo de novidades, ficam por aqui algumas dezenas de pistas a seguir ou a retomar (pelo menos) até lá:

10 FILMES

O Homem que Vendeu a sua Pele.jpg

"As Andorinhas de Cabul", Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec
"Colectiv - Um Caso de Corrupção", Alexander Nanau
"Luca", Enrico Casarosa
"Minari", Lee Isaac Chung
"O Homem que Vendeu a sua Pele", Kaouther Ben Hania
"O Mistério de Block Island", Kevin McManus (Netflix)
"Quo Vadis, Aida?", Jasmila Zbanic
"Raparigas", Pilar Palomero
"Tesla", Michael Almereyda
"Um Lugar Silencioso 2", John Krasinski

10 SÉRIES

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"Faz de Conta que Nova Iorque É uma Cidade" (T1), Netflix
"Invincible" (T1), Amazon Prime Video
"Losing Alice" (T1), Apple TV+
"Love, Victor" (T1), Disney+
"Manhãs de Setembro" (minissérie), Amazon Prime Video
"Mare of Easttown" (T1), HBO Portugal
"O Dia" (T1), RTP2/RTP Play
"Shippados" (T1), Globo
"The Expanse" (T5), Amazon Prime Video
"WandaVision" (T1), Disney+

10 DISCOS

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"As Days Get Dark", Arab Strap
"Bratty", Brendan Hendry
"Bye Bye Baby", Requin Chagrin
"For Those I Love", For Those I Love
"Glowing in the Dark", Django Django
"Isles", Bicep
"Mobile Home", GusGus
"New Long Leg", Dry Cleaning
"No Gods No Masters", Garbage
"On All Fours", Goat Girl

5 DISCOS NACIONAIS

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"CAOS'A", Rita Vian
"Garrincha", Mira Quebec
"Dead Flowers & Cat Piss", Callaz
"Punk/Pop and Soft Rage", Victor Torpedo
"Selfie Destruction", PZ

10 CANÇÕES

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"A Man Needs a Maid" (versão de Neil Young), Tindersticks
"Birthday / The Pain", For Those I Love
"Concatentate II", Christina Chatfield
"Fou", Requin Chagrin
"Her Hippo", Dry Cleaning
"Hold On", Not Waving feat. Marie Davidson
"In the Stone", The Goon Sax
"Lucky Coin", Virginia Wing
"Sad Mezcalita", Xiu Xiu feat. Sharon Van Etten
"The Cure", FRAGRANCE. feat. Lulannie

Outras canções a guardar:

10 CANÇÕES NACIONAIS

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"Atonal Heavy Metal Song", Callaz
"Balúrdio", Maria Reis
"Confusing to Her Feelings", Oma Nata
"Daqui para Fora", PZ
"Dejavu", Jorge Benvinda
"Hide", Sean Riley & The Slowriders
"HPA", Rita Vian
"Phisique", Paraguaii
"Psyche", Violet
"Trust Issues", Mira Quebec

Mais escolhas da prata da casa:

Quando a pop tem tensão pré e pós-quarentena

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O que há de comum em nomes como António Variações, Florbela Espanca, Moondog, Brigitte Fontaine, Paula Rego ou Anaïs Nin? Além da ligação mais óbvia - são todos figuras e referências das artes -, surgem mencionados por Maria Soromenho em "Intro Anti-Hero", faixa de abertura de "Dead Flowers & Cat Piss", o seu segundo álbum enquanto CALLAZ.

A estes (anti-)heróis pessoais homenageados na canção poderiam juntar-se outros cuja influência é evidente na obra de uma das revelações da música portuguesa dos últimos anos. A linguagem lo-fi, tensa e enigmática dos Young Marble Giants, dos Suicide ou dos Velvet Underground também teve impacto em Soromenho muito antes de a artista equacionar um percurso na música, que surgiu quase por acaso em 2017 (entre um convite de um amigo para cantar em Los Angeles e as primeiras experiências com um Casio) depois de um caminho feito na moda - incluindo experiências como styling assistant de Alicia Keys ou Peaches em Londres e o lançamento de uma marca de roupa e lenços própria.

Dead Lowers & Cat Piss.jpg

De então para cá, esta discografia viu nascer dois EPs e um primeiro longa-duração, "Callaz" (2020), produzido pelo ex-Cansei de Ser Sexy Adriano Cintra - brasileiro que também deixou os seus créditos no muito recomendável "100% Carisma", o segundo álbum de Rodrigo Vaiapraia (irmão de Soromenho), igualmente lançado no ano passado.

Já "Dead Flowers & Cat Piss" marcou a estreia na produção de Helena Fagundes (Vaiapraia e As Rainhas do Baile, Clementine), a grande cúmplice de CALLAZ durante um disco criado antes, durante e depois da quarentena em regime do it yourself - e a reforçar uma postura autodidacta. Mais coeso do que os anteriores, é uma das melhores surpresas da música nacional de 2021 até agora, ao propor uma pop electrónica guiada por alguma da new wave mais esquelética e intrigante.

Entre ambientes que vão do etéreo (no domingo de manhã pós-festa de "Berlin") ao sinuoso (na marcha de choro e riso de "Aghast"), aliados a uma voz expressiva, o alinhamento encontra a autora "exausta de melancolia" e a querer "ir para a rua celebrar a vida", como confessa em "Loucura com Horas Marcadas" - um dos temas mais directamente inspirados (ou assombrados) pela pandemia.

O peso da rotina também domina "Queria Só Excepções" e "Repetição", mantras quase sussurrados que aproximam esta música da faceta inicial de Grimes ou até de uns Cranes com menos negrume. Dentro de portas, CALLAZ parece partilhar o gosto com os Três Tristes Tigres por uma pop que não é alheia ao experimentalismo enquanto também chega a lembrar os momentos mais minimais dos esquecidos Cello (sobretudo quando canta em francês, idioma alternado com o inglês e português, às vezes até na mesma canção).

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O recurso pontual a instrumentos de corda ajudar a fazer de "Atonal Heavy Metal Song" uma das canções nacionais mais bonitas do ano e "Pas De Sexe on the Dance Floor", a fechar o disco, dá um salto (empolgante) para domínios mais dançáveis.

Editado em Fevereiro, "Dead Flowers & Cat Piss" já pedia uma apresentação ao vivo e o concerto (de entrada livre) vai finalmente acontecer esta quarta-feira, dia 30 de Junho, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, a partir das 20h00 (com primeira parte do guitarrista mexicano Samuel Rived). Até lá, ficam as imagens de "PAS DE SEX CETTE NUIT", um dos temas do álbum, e de "SEXO", pequena delícia synth-pop e um grande pretexto para (re)descobrir o disco anterior:

Um álbum para abanar (e aliviar) a cabeça

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O punk não morreu e em alguns casos não tem medo de juntar sensibilidade pop à raiva. O álbum mais recente de VICTOR TORPEDO é um deles e dá conta dessa combinação logo no título, o esclarecedor "PUNK/POP AND SOFT RAGE".

Sucessor de "Béri Béri", um dos discos nacionais que trataram bem as guitarras no ano passado, o quinto longa-duração a solo do músico dos Tédio Boys e The Parkinsons (que também já passou, entre outros, pelos Tiguana Bibles ou Subway Riders) é exemplo de uma fase que se tornou invulgarmente prolífica nos discos face às limitações dos palcos nos últimos meses. O veterano do rock de Coimbra garante que, além deste registo editado pela conterrânea Lux Records, gravou vários álbuns durante o confinamento e, para já, a música não deixa sinais de redundância criativa.

"Punk/Pop and Soft Rage" é pelo menos tão coeso como o antecessor e tanto aposta em palavras de ordem gritadas em refrãos orelhudos (com choques sociais ou económicos na mira) como nos cenários mais inesperados dos quatro instrumentais, que revelam outros horizontes além da escola punk (dos The Clash aos Sex Pistols) e estão entre os melhores episódios do alinhamento.

TORPEDO não abdicou da filosofia do it yourself e tocou todos os instrumentos em casa, tendo tido apenas a colaboração de João Rui (vocalista dos a Jigsaw) na mistura. "PROBLEM IN MY HEAD", o bem sacado novo single, é um dos temas que olham de frente para o desnorte mental trazido pela pandemia e leva o delírio mais longe no videoclip de Sebastião Casanova:

Uma selfie de um homem múltiplo

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"Selfie Destruction", o novo e sexto álbum de PZ, é mais um exemplo da produção individual, independente e caseira de Paulo Zé Pimenta, tal como todos os anteriores. Nesse sentido, este é um disco que não foi assim tão abalado pela pandemia COVID-19, embora os efeitos do confinamento ainda tenham eco em algumas canções.

Colecção de temas curtos (raramente vão além de três minutos), vinhetas de um quotidiano mais ou menos delirante (pessoal mas quase sempre transmissível), o alinhamento volta a apostar no humor e ironia como ingredientes essenciais e em palavras conjugadas com sintetizadores e caixas de ritmos.

As primeiras audições revelam um hino minimalista para tardes de domingo solitárias ("Dona Elisa"), uma alusão ao clássico "Croquetes" que entendedores entenderão ("Fruta e Canivetes"), indignação em cama de synth-pop dopada ("Uma Anormalidade") e pelo menos uma das grandes canções nacionais do ano (o convite em modo sincero e melancólico q.b. de "Daqui para Fora", que merecia ter vida próspera em playlists para lá de Bagdad).

O novo single, no entanto, é um tema que assume o cruzamento de personalidades fragmentadas que tem guiado esta discografia. "INCOMPATIBILIDADES" chega depois dos desabafos de "Vão Ser Milhões" e "Em Paz na Minha Guerra" e conta com um dos instrumentais mais pegajosos do álbum, acompanhado de uma sugestão de coreografia no videoclip. Realizado pelo colaborador habitual Alexandre Azinheira, o vídeo é, como sempre, protagonizado pelo músico portuense, aqui num desdobramento à homem múltiplo mas nem por isso capaz de dispensar o pijama na maioria das versões: