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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Há uma luz que nunca se apaga... e já brilha há 20 anos

Ray_of_Light

 

O álbum imprescindível da rainha da pop? Se não o é, foi pelo menos dos mais decisivos para que MADONNA conseguisse manter esse estatuto. Editado a 22 de Fevereiro de 1998, "RAY OF LIGHT" tem aura de clássico luminoso, 20 anos depois.

 

Como responder à polémica escaldante de "Erotica" e do livro "Sex" (1992) e à recepção morna ao já de si morno "Bedtime Stories" (1994), que dominaram o percurso de Madonna durante boa parte da década de 90? A solução não era óbvia, mas se muitos talvez apostassem num reforço da provocação, a "material girl" inverteu as expectativas ao abraçar a serenidade depois de ter sido mãe (de Lourdes Maria, em 1996). Ou a serenidade possível, já que "Ray of Light" recupera a paixão da cantora pela música de dança, mais vincada nos seus primeiros álbuns, à luz (passe a expressão) das tendências electrónicas de final de milénio.

 

Num dos momentos em que se mostrou mais certeira na escolha das companhias, teve no britânico William Orbit (vindo de projectos relativamente marginais como Bassomatic ou Strange Cargo) o aliado ideal para se atirar tanto à house, ao techno e até ao trance como a cenários mais contemplativos. "I traded fame for love/ Without a second thought", cantava na faixa de abertura, "Drowned World/Substitute for Love", na qual aceitava contaminações trip-hop num dos episódios mais cristalinos desta reinvenção inesperada.

 

Madonna_1998

 

Onde estava quem tinha entoado "put your hands all over my body" de forma tão decidida uns anos antes? Deixava ecos, ainda assim tímidos, numa delícia (esquecida?) de guitarras e sintetizadores como "Candy Parfum Girl", mas em "RAY OF LIGHT" predomina o olhar introspectivo de pérolas na linha de "To Have and Not to Hold", "Sky Fits Heaven" ou "Skin", mesmo que em moldura de pulsão rítmica (à lista poderia juntar-se a mais tranquila "Has to Be", infelizmente remetida para lado B). E se dá vontade de perguntar como é que nenhuma foi single, é difícil reclamar dos temas que tiveram esse privilégio. Sobretudo de "Frozen" e "The Power of Good-Bye", baladas tão frescas e memoráveis (ambas com arranjos de cordas de Craig Armostrong) que levam a desculpar o escorregão ocasional para o misticismo new age de algumas letras (ainda que o videoclip da primeira, a cargo de Chris Cunningham, tenha aproveitado ambientes esotéricos para ficar entre os mais icónicos do seu tempo).

 

Além de ser um dos pontos de paragem obrigatória da carreira de MADONNA, o seu sétimo álbum foi facilmente dos melhores desse ano (o que não é dizer pouco quando 1998 teve regressos muito inspirados dos Garbage, Massive Attack, Smashing Pumpkins, Hole ou Placebo) e abriu portas para a fase electrónica da sua discografia. E se a produção electroacústica de "Music" (2000) e sobretudo "American Life" (2003) até foi mais arrojada (cortesia de Mirwais) e "Confessions on a Dance Floor" (2005) potenciou a última grande reinvenção, enquanto colecção de (grandes) canções "RAY OF LIGHT" continua imbatível - parabéns também por isso.

 

 

 

Rebelde sem canções

"REBEL HEART" deve mais à transpiração do que à inspiração. Se a capacidade de trabalho de MADONNA é inegável, as muitas canções do novo álbum desmerecem o património da rainha da pop. E os colaboradores escolhidos a dedo atrapalham mais do que ajudam...

 

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Euforia e recolhimento, explosão e introspecção, rebeldia e vulnerabilidade. O título do 13º álbum de originais de Madonna denuncia logo o jogo de contrastes do alinhamento, um dos mais versáteis de uma discografia já de si abrangente. Mas se há muito por onde escolher, neste que também é dos registos mais longos da cantora de 56 anos (a versão standard, de 14 temas, tem quase uma hora de duração), o resultado acaba por marcar mais pela quantidade do que pela qualidade.

"Hard Candy" (2008) e "MDNA" (2012) já estavam longe de apresentar a rainha da pop no seu melhor, sobretudo depois da impressionante reinvenção entre o clássico "Ray of Light" (1998) e o muito eficaz "Confessions on a Dance Floor" (2005). Ainda assim, até nesses discos acolhidos de forma morna, mais interessados em seguir tendências (o hip-hop e a EDM) do que em abrir caminho, havia espaço para ouvir Madonna em grande forma ("Miles Away", "She's Not Me", "Love Spent" ou "Falling Free", por exemplo, não merecem ficar perdidas pelo caminho).

Infelizmente, o melhor de "REBEL HEART" é apenas mediano e esse nível nem é o mais regular num alinhamento sem grande unidade ou coerência, mesmo quando encarado a partir da dualidade expressa no título do disco. A impressão que fica, de forma ainda mais evidente do que nos dois álbuns anteriores, é a de que estas canções nascem já datadas, para não dizer requentadas, pela tentativa de aproximação ao território sobrepovoado (e muitas vezes banal) do hip-hop e R&B recente.

 

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A rebeldia do conceito raras vezes tem correspondência em canções que tanto poderiam ser de Madonna como de qualquer outra. É certo que nas letras há algumas referências à vida e obra da voz de "Like a Virgin", de forma mais ou menos explícita, mas não é nada que não tenha ocorrido já em registos anteriores, funcionando sobretudo como mimo para os fãs mais acérrimos. E talvez só mesmo estes últimos desculpem, de resto, tropeções como o de "Veni Vidi Vici". O tema até nem arranca mal, com o percurso de Madonna recordado através da associação a canções tornadas clássicos, mas esbate-se num refrão frouxo, sem a garra que a letra pede. Mais à frente, Nas tenta injectar-lhe alguma atitude e o resultado é dos momentos mais constrangedores do disco, com a vertente mais juvenil e emproada do hip-hop a deitar abaixo um retrato promissor.

O rapper não é o único erro de casting de um álbum a deixar cada vez mais saudades das colaborações com William Orbit ou Mirwais, produtores entretanto trocados por Diplo ou Avicii. O primeiro ocupa-se de "Living for Love", cartão de apresentação do álbum e abertura enérgica com ritmo house e coro gospel. Não é um mau single, mas dificilmente teria lugar num best of mais selecto. Também produzida por Diplo, "Unapologetic Bitch" tem sabor a reggae e dancehall, preferível aos acessos de dubstep anódino que lhe cortam parte do apelo. Estaria bem para Gwen Stefani, mas Santigold era capaz de a mandar para trás. Já Avicii é, tal como Blood Diamonds, um dos produtores de "Devil Pray", assente na combinação eletroacústica típica de alguns dos seus êxitos. O problema é que Madonna já teve canções bem melhores nesta vertente, em "Music" (2000) e "American Life" (2003), e nem as constantes referências a drogas impedem que esta soe a uma versão domesticada dessa fase - essa sim, verdadeiramente rebele, indiferente às tendências dominantes do momento.

Outra convocada, não por acaso associada a rebeldia, Nicki Minaj já tinha participado nos momentos menos conseguidos de "MDNA" e repete o feito em "Bitch I'm Madonna". A canção até sugere um devaneio à altura do título do disco, mas o refrão morno (irmão espiritual de "We Can't Stop", de Miley Cyrus) corta os crescendos de um potencial hino hedonista. "Who do you think you are?", grita uma Madonna com voz esquartejada, a deixar um ótimo gancho para uma remistura. "I'm Madonna, these hoes know", responde Minaj, a juntar mais uma frase infeliz à colecção e a deixar outro exemplo de triste vassalagem à rainha.

 

 

Chance the Rapper e Mike Tyson também aproveitam para fazer a vénia em "Iconic", cujo título se revela enganador ao servir uma das canções mais genéricas de um disco fértil nesse departamento - consegue-o à custa de hip-hop pouco imaginativo e letras em modo auto-ajuda, no qual Madonna raramente se sai bem. "Illuminati", produzida por Kanye West, aposta num R&B supostamente futurista mas já demasiado familiar. "Hold Tight" atira-se às pistas de dança sem deixar ecos na manhã seguinte (à custa de "Hold tight/ Everything's gonna be alright" e outros apelos vazios). As baladas não são muito mais aliciantes. "Ghosttown", "Wash All Over Me" e "Joan of Arc" parecem feitas a regra e esquadro para as rádios, embora esta última fosse mais cativante se não apostasse numa vulnerabilidade em que dificilmente se acredita ("Each time they take a photograph/ I lose a part of me I can't get back" é um queixume curioso vindo de quem vem, ainda assim menos presunçoso do que tiradas como "I'm not Joan of Arc/ Not yet").

No extremo oposto, "Holy Water" e "S.E.X." são herdeiras da provocação de "Erotica" (1992), com a primeira a juntar o sagrado e o profano e a segunda a dar lições de sexo tão inconsequentes como as de "As Cinquenta Sombras de Grey". Admita-se que, felizmente, Madonna não se leva muito a sério nestes exercícios, mas nem isso nem a produção sofisticada impede que sejam notas de rodapé numa obra que conta com "Justify My Love". Menos preocupada em chamar a atenção, "Best Night" revela-se mais insinuante e adulta, num raro momento de equilíbrio de um disco a oscilar entre o gratuito e o inofensivo. "Body Shop" é outro, minimal e acústico, e o mais conseguido talvez seja "HeartBreakCity", episódio sóbrio, quase austero, que não precisa de mais do que voz(es), piano e electrónica discreta para o retrato de uma desilusão amorosa.

Apesar de ainda acolher laivos de inspiração como estes, "REBEL HEART" mostra-se uma experiência frustrante, incapaz de se sobrepor ao ruído mediático que antecedeu a sua edição - desde a polémica com as canções partilhadas online de forma não autorizada à queda na cerimónia dos BRIT Awards. Nesse aspeto, a faixa título (que encerra a versão deluxe do álbum) é pelo menos coerente: a letra revê o passado de uma artista ímpar, com uma carreira extraordinária, mas a música está a milhas desse legado e fica-se por uma pop linear, esquecível, sem rasgo. Coração rebelde? Não. Coração partido.

 

Fundo de catálogo (97): Mirwais

 

Ao lado dos electrónicos Taxi Girl e dos acústicos Juliette et les Independents, Mirwais Ahmadzaï foi deixando de ser, durante os anos 80, um nome estranho para o pop-rock francês. Mas só na viragem do milénio é que a música deste suíço de ascendência italo-árabe radicado em Paris se tornaria tão cosmopolita como as suas origens. Afinal, foi nessa altura que o cantor, compositor, músico e produtor iniciou uma colaboração com Madonna cujo impacto foi bem evidente no percurso de ambos: o seu ganhou uma relativa projecção internacional até aí inimaginável, o da rainha da pop brilhou nos três últimos álbuns ao nível desse estatuto.

 

Além da produção de algumas das melhores faixas de "Music" (2001), Mirwais aprimorou a sua faceta electroacústica no subestimado "American Life" (2003), de longe o disco mais arrojado de Madonna nos anos 00. Se aí co-produziu e co-escreveu quase todo o alinhamento, em "Confessions on a Dance Floor" (2005) registou uma participação mais discreta (apenas dois temas) e a passagem de testemunho a Stuart Price. A dança entre o french touch e a country/folk não teve, infelizmente, mais capítulos mas continua tão vibrante (e caso único?) como há dez anos. Já da obra de Mirwais há mais canções a resgatar, até porque mesmo na altura foram eclipsadas por esta parceira.

 

Editado pouco antes de "Music", "Production" (1999) foi a segunda (e até ver, última) aventura a solo do produtor, dez anos depois da estreia homónima (que não ficou perdida nas prateleiras). Mais sintético do que esse antecessor, é um disco que foge mais vezes ao formato canção, mergulha em electro quase sempre dançável (ou pelo menos planante) e tem no vocoder um dos seus aliados.

O passado synth pop dos Taxi Girl surgiu reconfigurado em "Naïve Song", o flirt com o rock de "I Can't Wait" aproximou-se dos esquecidos Rinôçérôse, outros franceses cujo disco de estreia chegou aos escaparates no mesmo ano, e "Disco Science" samplou a contribuição vocal mais memorável das Breeders para um crescendo rodopiante (Guy Ritchie aprovou e puxou-o para a banda sonora de "Snatch"). Os videoclips de Stéphane Sednaoui encarregaram-se de lhes dar um embalo visual cinético e recordam-se aqui juntamente com "Mannequin" (1980), o promissor primeiro single dos Taxi Girl, e "Never Young Again", que não foi single mas é um dos pontos altos de "Production" (nota: qualquer semelhança com "Music" não é pura coincidência):

 

 

 

 

 

 

Depois de "Production", Mirwais não voltou a editar um novo disco a solo mas também não tem estado parado, como o comprovou a produção de canções para os Fischerspooner ou Uffie. O seu projecto mais recente, Y.A.S., ao lado da cantora libanesa Yasmine Hamdan, revelou-se em 2009 com o álbum "Arabology", mas esta "música árabe avant-garde" (a definição é do próprio) pouco mais fez do que mudar o idioma e repetir a produção (sem o mesmo rasgo).

Diferente será, isso sim, o seu papel de produtor em "GHB", drama de Laetitia Masson com estreia prevista para 2014 no qual assumirá ainda a função de director artístico. Pode ser que a música ganhe aí novo fôlego, já que a banda sonora também terá a sua assinatura...