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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Crime, disse ela (mas o espectador hesita)

Claire Danes e Matthew Rhys na mesma série? Só isso já era motivo para ter "O MONSTRO EM MIM" debaixo de olho, mas a nova aposta da Netflix tem outros argumentos de peso.

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Dois dos nomes mais ilustres da ficção televisiva dos últimos anos encabeçam a nova minissérie da gigante do streaming - e as expectativas serão naturalmente altas. Depois de oito temporadas no centro de "Segurança Nacional" (que se despediu em 2020), Claire Danes regressou ao pequeno ecrã como convidada (de "Master of None" ou "Portlandia") e integrou o elenco fixo da muito boa "Fleishman em Apuros" e da não tão boa "Full Circle". Já Matthew Rhys, após seis épocas como co-protagonista de "The Americans" (série que terminou em 2018), sobressaiu sobretudo em "Perry Mason", cancelada em 2023 ao fim de duas temporadas, apesar dos muitos elogios (parte deles devido à sua interpretação).

Juntar estas coqueluches na mesma aposta já seria aliciante, mas os créditos de "O MONSTRO EM MIM" têm outros motivos de interesse: a combinação de drama e thriller psicológico foi criada por Gabe Rotter (argumentista e produtor de "Ficheiros Secretos") e tem como showrunner Howard Gordon, cujo percurso se cruzou com o de Claire Danes em "Segurança Nacional", série da qual foi um dos autores.

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Na realização, destaca-se Antonio Campos, que começou pelo cinema independente, nos aplaudidos "Afterschool - Depois das Aulas" ou "Simon Killer", antes de iniciar um caminho paralelo na televisão (já passou por "The Sinner" ou "The Staircase"). 

O cineasta norte-americano dirige quatro dos oito episódios de "O MONSTRO EM MIM", incluindo os dois primeiros, e desenha o ambiente inquieto que domina os subúrbios nova-iorquinos de luxo habitados pelos protagonistas: uma escritora aclamada a lidar com a perda do filho num acidente enquanto prepara uma nova obra (Danes) e o seu novo vizinho, o filho mediático de um magnata poderoso sobre o qual recaem fortes suspeitas de envolvimento na morte da ex-mulher (Rhys).

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O capítulo inicial não faz o espectador aguardar muito pelo encontro (e confronto) dos protagonistas. E a dupla tão sai-se tão bem no braço de ferro do primeiro embate como numa curiosa cumplicidade que nasce logo a seguir, abrindo caminho para um jogo do gato e do rato em torno de um novelo de suspeitas e mentiras.

Se a viragem narrativa que dá o salto para o segundo episódio é previsível, não deixa de ser menos eficaz por isso - em parte, graças à tensão dramática rapidamente estabelecida entre Danes (numa personagem tão neurótica como a saudosa Carrie Mathison, mas sem acusar cansaço na interpretação) e Rhys (a equilibrar um registo entre o cordial e o intimidante). Nos secundários há gente como Brittany Snow, Natalie Morales ou Deirdre O'Connell, mais razões para dar o voto de confiança a este duelo de titãs que poderá ser mais do que isso...

"O MONSTRO EM MIM" estreou-se na Netflix a 13 de Novembro e está integralmente disponível na plataforma.

Amigos, amigos... demónios à parte (?)

Entre o drama adolescente e o terror sobrenatural, "O VERÃO EM QUE HIKARU MORREU" não será das novidades mais descontraídas ou confortáveis na altura de ir a banhos, mas parece ter argumentos para conquistar adeptos de anime (e não só). É uma das estreias do mês da Netflix.

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Adaptação da manga homónima de Mokumokuren, publicada desde 2021 e um sucesso de crítica e de vendas no Japão, a mais recente aposta anime da Netflix traz novos motivos para continuar a seguir um género de animação que tem tido casa regular na gigante do streaming (e impôs-se, aliás, como um dos pilares mais consistentes do seu catálogo).

"O VERÃO EM QUE HIKARU MORREU" diz logo ao que vem no título, a denunciar o mote trágico de uma história na qual o protagonista se debate com uma experiência do luto de traços invulgares. E a série criada por Ryōhei Takeshita também não perde tempo a atirar o espectador para o centro do drama, ao abordar directamente a morte de Hikaru Indo, um adolescente de uma pequena aldeia do interior japonês, assim como o seu "regresso" à vida.

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O que teve contornos de um acidente com final feliz esconde, afinal, uma verdade chocante: o corpo de Hikaru está agora possuído por um ser sobrenatural, capaz de replicar a sua personalidade e postura quase sem falhas, mas apenas o seu melhor amigo, Yoshiki Tsujinaka, suspeita da mudança.

Se noutras séries este cenário de dúvida alimentaria alguns capítulos, em "O VERÃO EM QUE HIKARU MORREU" a possessão é revelada a Yoshiki (e ao espectador) logo aos primeiros minutos, uma vez que o argumento está mais interessado em confrontar um jovem com a perda abrupta do seu cúmplice diário (e interesse amoroso?) enquanto aceita, apesar das reservas, conviver com o seu substituto aparentemente perfeito. 

O primeiro episódio, "Daitaihin", consegue dizer muito em pouquíssimo tempo (a duração não chega aos 25 minutos), um bálsamo quando tanta concorrência insufla capítulos sem grande critério narrativo. Nesse aspecto, este anime promete ser tão sucinto e certeiro como a também recente "Murderbot" (Apple TV+), outro raro caso televisivo em que menos pode ser mais.

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O arranque também se sai bem no contraste entre o tom bucólico e sinistro, com a serenidade veraneante a ser repentinamente interrompida por acessos de paranóia e terror - e a deixar no ar que Yoshiki talvez não seja o único na sua comunidade a aperceber-se da transformação insólita do amigo.

Apesar deste ambiente de suspense com eventuais sustos, a série começa por conquistar pelas cenas intimistas de uma amizade interrompida, reavaliada e reiniciada, deixando questões sobre identidade, confiança, dependência ou solidão - e com o fardo particularmente pesado de uma escolha difícil na entrada na idade adulta. Hikaru morreu, sim, mas parece estar a nascer aqui uma bela história...

O primeiro episódio de "O VERÃO EM QUE HIKARU MORREU está disponível na Netflix desde 5 de Julho. Os restantes estreiam-se na plataforma nos próximos sábados.