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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O amor é um lugar perigoso

Do Quénia e da Tailândia, respectivamente, "Rafiki" e "Manta Ray" passaram pelo QUEER LISBOA depois de terem feito um percurso elogiado em várias salas fora de portas. Mas entre as novidades da 23ª edição do Festival Internacional de Cinema Queer também ficam algumas curtas-metragens a reter (já outras, nem por isso).

 

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"RAFIKI", de Wanuri Kahiu: Esta edição do Queer Lisboa foi especialmente fértil em filmes que conciliaram o coming out e o coming of age, temática que está longe de ser novidade mas que continua a ser inspiradora. Infelizmente, também se mostrou mais inspiradora do que inspirada em muitas dessas novas obras, com variações pouco transgressoras de relatos de descoberta identitária e sexual.

 

"Port Authority", de Danielle Lessovitz, e "Skate Kitchen", de Crystal Moselle, foram exemplos simpáticos mas facilmente esquecíveis do cinema indie norte-americano recente - o primeiro com um romance entre um rapaz e uma rapariga trans, numa viagem à subcultura do voguing que uma série como "Pose" propõe com outra garra e carisma, o segundo uma resposta cândida e no feminino a "Kids", de Larry Clark, a partir do quotidiano de um grupo de skaters. Mais cru, "Sócrates", do brasileiro Alexandre Moratto, foi perdendo força ao ceder a muitos lugares comuns do realismo social, num remate a caminho do miserabilismo, desperdiçando a história de um adolescente homossexual orfão. Já "Carmen y Lola", da espanhola Arantxa Echevarría, conseguiu evitar algumas dessas armadilhas ao olhar para o relacionamento de duas raparigas da comunidade cigana, embora o final tenha sublinhado os desequilíbrios de um registo indeciso entre o quase documental e o quase telenovelesco.

 

É com a premissa de "Carmen y Lola", aliás, que a de "RAFIKI" mais se assemelha, ao também se centrar numa relação lésbica, ainda que num contexto completamente diferente. E aqui o contexto faz mesmo toda a diferença, ou não fosse este o primeiro filme do Quénia que olha para a homossexualidade de frente e sem julgamentos, o que o levou a ser banido dentro de casa, onde essa prática é considerada crime - por outro lado, garantiu um acolhimento de braços abertos em Cannes e marcou a estreia de uma obra do país na selecção do festival.

 

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Sendo um filme especialmente corajoso e engajado, tem outros méritos além dessa vertente e não merece ficar confinado a curiosidade sociológica. É certo que a narrativa abraça a convenção, como de resto acontece com "Carmen y Lola", cujo desenvolvimento das protagonistas segue as mesmas vias. Mas isso não é impeditivo de que vá surgindo aqui um drama vibrante, pela química das actrizes principais ou do olhar tão realista como garrido de um bairro dos subúrbios de Nairobi.

 

Kahiu cede, ocasionalmente, a alguns facilitismos dramáticos, nos diálogos ou na caracterização de parte das personagens secundárias, embora se saia bem numa conjugação difícil de idealismo, através da postura do casal face a uma homofobia institucionalizada e claustrofóbica, e de um sentido de urgência que se vai tornando cada vez mais acentuado. E se o choque de realidade do último acto é especialmente inquietante (e revoltante), "RAFIKI" não se afunda na vitimização e opta por um desfecho esperançoso, mas muito longe de utópico, num testemunho que daria uma boa sessão dupla com "And Then We Danced", outra das apostas meritórias do festival.

 

3/5

 

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"MANTA RAY", de Phuttiphong Aroonpheng: Primeira longa-metragem de um realizador com um percurso de dez anos no formato da curtas, este drama contemplativo confirma, por um lado, que o tailandês tem um sentido estético e atmosférico envolvente, expresso em três ou quatro sequências com uma força sensorial assinalável, mas também revela que essa singularidade formal não chega para suportar o seu filme de maior duração até agora. Por cada momento com algum fulgor há outros que vão tornando esta uma experiência de interesse intermitente, o que faz com que a relação entre dois homens de uma pequena aldeia costeira da Tailândia - um pescador e um desconhecido mudo que é encontrado por ele quase sem vida - vá ficando aquém do potencial dramático. E tanto é assim que a situação trágica dos refugiados Rohingya, uma das comunidades mais perseguidas do mundo, se arrisca a passar aqui praticamente despercebida junto de um espectador ocidental, apesar de o realizador assinalar que foi um dos motivos que o levaram a querer contar esta história. Com poucos actores, poucos diálogos e poucas viragens narrativas, Aroonpheng prefere deixar que as trocas de olhares ou a combinação de música e imagem falem por si (belo momento, aquele cantado pela personagem feminina que entra em cena a meio). Mas se a dedicação dos actores é palpável, o resultado talvez ganhasse se não os deixasse entregues a um argumento que se detém demasiadas vezes no lado mais místico e simbólico, que chega a ser hipnótico embora não mergulhe a fundo no conflito entre amizade, amor, intimidade e conjugalidade que esboça.

 

2/5

 

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Numa edição em que algumas longas-metragens seguiram um modelo mais padronizado, a competição de curtas mostrou-se um espaço dominado por abordagens que apontaram outras direcções. Em vários casos, promissoras: no atrevimento adolescente de "O Mistério da Carne" (Rafaela Camelo, Brasil), com a insolência a desafiar dogmas e conservadorismo; na sobriedade de "Tendresse" (Maxime Rappaz, Suíça), visita a uma sauna gay com a empatia a impor-se a tentações titilantes ou escabrosas; na melancolia de "Great Again" (Kirrilee Bailey, Austrália), com uma mãe e uma filha divididas pelas promessas e ameaças de Trump; na crueza de "Old Narcissus" (Tsuyoshi Shoji, Japão), relato da solidão e do envelhecimento entre passagens pelo humor e pelo S&M; no formalismo lúdico de "After... After... (Access)" (Jordan Lord, EUA), a juntar autobiografia e ironia; ou na candura de "A Gift" (Aditya Ahmad, Indonésia), com a lógica binária a sufocar o quotidiano de uma adolescente muçulmana.

 

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Mesmo que alguns dos filmes referidos acima tenham deixado a sensação de projecto inacabado, todos despertaram curiosidade em continuar a seguir as personagens e os realizadores. O mesmo já não se poderá dizer, no entanto, de "Printed Sunset" (Andrés Baron, Colômbia), retrato auto-indulgente e preguiçoso de um casal; de "Ant-Man" (Viet Vu, Vietname), provocação tosca e bocejante apesar do rigor e elegância formais; de "Pirate Boys" (Pol Merchan, Espanha), exercício documental demasiado hermético sobre trans e intersexualidade; e sobretudo de "Parsi" (Eduardo Williams, Mariano Blatt, Argentina), ensaio movido por uma voz off exasperante numa reflexão vaga e repetitiva sobre a diferença.

 

Também experimental, embora bem mais pop e ostensivo, "NEGRUM3" (Diego Paulino, Brasil) tem sido louvado como um retrato pungente da comunidade negra e queer paulista, mas parece perdido entre o apelo documental e a lógica de um videoclip. Estilo não lhe falta, só que o deslumbre pelos cenários e guarda-roupa sobrepõe-se a tudo o resto, ao ponto de uma enumeração de referências sugerir que o historial activista de Beyoncé ou de Solange está ao nível do legado de Nelson Mandela ou de Martin Luther King. Nada como (re)ver o filme de abertura do festival, o conterrâneo "Indianara", para lavar a vista (e as ideias) num manifesto que não se esgota na imagem.

 

Da dança ao grito, a revolta tem corpo e voz

"And Then We Danced", um dos filmes em competição, e "Indianara", que marcou a abertura, são dois  títulos a reter da 23ª edição do QUEER LISBOA, que se despede do Cinema São Jorge e da Cinemateca Portuguesa este sábado.

 

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"AND THEN WE DANCED", de Levan Akin: O concorrente sueco ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro está entre as boas surpresas da secção competitiva deste ano, sobretudo quando mostra ser capaz de ir além dos traços mais genéricos da narrativa boy meets boy da premissa. A relação do protagonista, um bailarino adolescente de dança tradicional da Geórgia, com um novo colega, é o ponto de partida para um olhar sobre a identidade, a masculinidade e a diferença que sai reforçado pelo desenho de um contexto particular - que não chega para desconstruir a fórmula de outros romances comparáveis mas resulta ainda assim refrescante. Akin, na sua terceira longa-metragem, mostra-se particularmente habilidoso a transitar entre o humor e inocência da primeira metade do filme e a vertente mais tensa e crua da recta final, sem que a empatia pelas suas personagens se perca no caminho. Levan Gelbakhiani, que se estreia como actor na pele do protagonista, é um achado de expressividade e desenvoltura, e ajuda muito para que esta jornada iniciática, por vezes a lembrar a de "Chama-me Pelo Teu Nome" ou "O Corvo Branco", reclame o seu próprio espaço (e com distinção). E tanto o jovem bailarino como o realizador atingem o estado de graça nos últimos momentos, os melhores do filme: desde dois planos-sequência seguidos, no interior de um prédio, tão fortes visual como emocionalmente, até aos derradeiros minutos, nos quais a dança diz tudo o que ficou por dizer. Venham os aplausos...

 

3,5/5

 

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"INDIANARA", de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa: Embora a inspiração para este documentário tenha sido o papel determinante da retratada na luta pelos direitos LGBTI+ no Brasil - e das pessoas transgénero em particular -, o resultado acaba por ser mais envolvente quando opta pela esfera íntima e não tanto pelos protestos na praça pública. É principalmente nesses que a protagonista se afirma como uma mulher multifacetada em vez de um mero símbolo de resistência, resiliência e revolta, com o ângulo doméstico a acabar por jogar a favor da vertente activista, ao aproximar Indianara do espectador. E felizmente consegue fazê-lo sem concessões, já que a dupla de realizadores não deixa de focar o lado mais temperamental da protagonista, evitando caracterizações idealizadas, mesmo que não deixe de se colocar ao seu lado na luta contra a opressão. O homicídio de Marielle Franco e a ascensão de Jair Bolsonaro, ambos captados com reacções à flor da pele, surgem como pontos-chave da batalha, ajudando a tornar este um documento oportuno das viragens (sociais e políticas) do Brasil nos últimos anos. Mas são os (muitos) pequenos momentos de Indianara ao lado do companheiro ou da comunidade a que deu abrigo, vincados por uma descontracção, humor e/ou ternura contagiantes, que vão elevando o filme acima do formato de grande reportagem televisiva e a justificar a sua presença num grande ecrã. O lado político talvez saia a perder nesse contraste (o afastamento de Indianara do seu antigo partido, abordado no final, deixa demasiadas questões em aberto), mas ganha-se um estudo de personagem bem recomendável.

 

3/5

 

Por aqui a guerrilha não impede a festa

Do ponto de situação do activismo LGBTI+ no Brasil ao acolhimento de filmes censurados na Indonésia ou no Quénia: os olhares inclusivos voltam a marcar o QUEER LISBOA, entre 20 e 28 de Setembro, no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa.

 

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É em tom de guerrilha que arranca a 23ª edição do Festival Internacional de Cinema Queer, com a sessão de abertura a cargo de "Indianara", documentário de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa sobre a activista brasileira que dá título ao filme e que tem lutado pelos direitos das pessoas transgénero. Mas também há espaço para festejar numa programação que assinala os 50 anos de Stonewall, os 20 da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa e os 40 da secção Panorama do Festival de Berlim. 

 

Serão mais de 100 filmes de mais de 30 países, com formatos entre curtas, longas, documentários ou as experiências da Queer Art. De volta estão ainda as Hard Nights e Queer Pop, esta última com Conan Osíris ou Lena d'Água em destaque. Um foco especial no ecosex, a secção Corpos Desejo Paisagens, exposições e debates também estão entre as apostas ao longo dos próximos dias, até ao final com "Skate Kitchen", da norte-americana Crystal Moselle ("The Wolf Pack"). Para ir abrindo caminho e ajudar na escolha, ficam cinco sugestões que se destacaram ao espreitar o programa:

 

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"DADDY AND THE MUSCLE ACADEMY", de Ilppo Pohjola: As origens do imaginário homoerótico e fetichista de Tom of Finland, que marcou como poucos a iconografia gay, estão no centro deste documentário de 1991 que integra a secção dedicada aos 40 anos da secção Panorama do Festival de Berlim. O resultado conjuga depoimentos do próprio artista finlandês sobre a sua vida pessoal e profissional, memórias de fãs de várias partes do mundo, uma retrospectiva do seu trabalho e recriações em imagem real dos desenhos, tendencialmente de perfil S&M e com doses generosas de couro e uniformes.

 

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"MEMORIES OF MY BODY", de Garin Nugroho: O novo filme de um dos veteranos do cinema indonésio (embora com pouca expressão nas salas portuguesas) é também o concorrente do país deste ano a Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Mas não sem ter gerado controvérsia pelo caminho: este retrato de um bailarino de uma dança tradicional na qual os homens podem assumir formas femininas foi banido em algumas regiões, que o acusaram de desviante e de promover valores LGBTI+. Fora de portas, não falta quem tenha elogiado esta jornada entre a infância e a idade adulta, marcada pela descoberta do corpo e da sexualidade, a partir de uma pequena aldeia de Java. Os festivais de Veneza e Guadalajara, por exemplo, estão entre os que se rendeream (e nomearam ou premiaram) o drama baseado na história verídica de Rianto, um dos actores que interpretam o protagonista.

 

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"OS REBELDES DO DEUS NEON", de Ming-liang Tsai: A secção dedicada aos 40 da secção Panorama do Festival de Berlim oferece uma oportunidade de (re)ver a primeira longa-metragem do autor de "O Sabor da Melancia" ou "Adeus, Dragon Inn". E é também uma oportunidade de percorrer as ruas de Taipei através do quotidiano de dois adolescentes com uma relação tão magnética quanto conflituosa. Entre o tédio existencial e a revolta juvenil, a decadência urbana e a alienação, fica a promessa de um drama árido, que não facilita consensos mas já dava pistas da singularidade visual do cineasta malaio.

 

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"RAFIKI", de Wanuri Kahiu: Apesar de ter sido banido no Quénia, onde a homossexualidade é ilegal, o primeiro filme do país a abordar directamente uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo tem sido acolhido de braços abertos fora de portas. Drama ancorado na cumplicidade entre duas raparigas oriundas de famílias rivais, lembra a premissa de "Romeo e Julieta" (em versão lésbica), mas tem inspiração mais directa num romance de uma autora do Uganda. E se há quem aponte a familiaridade desta história girl meets girl, o muito louvado carisma e energia tanto da realização como do elenco têm conseguido ofuscar essas limitações. A entrada na secção Un Certain Regard Award e Queer Palm em Cannes, entre outros aplausos, ajuda a dar o voto de confiança além do gesto político sem precedentes.

 

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"SÓCRATES", de Alexandre Moratto: Uma das primeiras obras brasileiras mais elogiadas do momento, assinada por um cineasta que já passou pelas curtas e documentários (além de ter sido assistente de realização de Ramin Bahrani em "Goodbye Solo"), centra-se no quotidiano de um adolescente de 15 anos em São Paulo, depois da morte da mãe. Obrigado a sobreviver sozinho, enfrentando dificuldades financeiras enquanto lida com a homofobia, o protagonista parece destinado a um drama miserabilista, mas o filme tem sido elogiado por contornar armadilhas de algum realismo social. Nascido em parte do projecto de uma ONG que apoia jovens desfavorecidos no audiovisual - do qual saiu a escolha de alguns actores, incluindo o principal -, "SÓCRATES" tem tido um percurso invejável em festivais internacionais - e com direito ao prémio Someone to Warch nos Indendent Spirit Awards para o realizador. Entre os produtores executivos está Fernando Meirelles, que entre "Cidade de Deus" e "Pico da Neblina" se tem especializado no mergulho em ambientes comparáveis.

 

Quando a selecção brasileira se junta à argentina

América Latina a dar cartas no QUEER LISBOA: "Azougue Nazaré", "Marilyn" e "O Orfão" foram três das grandes surpresas do festival que está no Cinema São Jorge e na Cinemateca até dia 22.

 

Azougue Nazaré

 

"AZOUGUE NAZARÉ", de Tiago Melo: Qualquer semelhança entre este filme e "O Som ao Redor" ou "Boi Neon" não será pura coincidência, uma vez que o seu autor já colaborou com Kleber Mendonça Filho e Gabriel Mascaro antes de se aventurar nas longas-metragens. E tal como eles, junta-se à lista de nomes a acompanhar no cinema brasileiro recente graças a uma tapeçaria formal que combina traços do documentário (por onde Tiago Melo também já passou), do musical (nas sequências inventivas e delirantes com uma espécie de desgarrada no café) ou até do terror (ou pelo menos de um fantástico tribal q.b.), partindo do retrato, em mosaico, de uma pequena comunidade pernambucana. Se enquanto estudo de personagens há talvez demasiadas pontas soltas, o protagonista é um achado: Catita Daiana, encarnado pelo actor amador Vladimir do Côco, dá a volta a lugares comuns sobre o travestismo com um à vontade e desbragamento que o levam a roubar todas as cenas em que entra. Esta figura, como todas as outras, entrega-se a rituais religiosos ao pagãos como escape para um quotidiano onde a solidão parece ganhar espaço ao amor. Mas o antídoto serve-se nas várias celebrações - da tradição maracatu e carnavalesca à igreja evangélica, não esquecendo o futebol - com diferentes formas de comunhão, às vezes conflituosas entre si, que o realizador coloca em cena de forma simultaneamente crítica e bem humorada - sempre integrada num filme com um sentido atmosférico invulgar e ADN inequivocamente brasileiro.

 

3,5/5

 

Marilyn

 

"MARILYN", de Martín Rodríguez Redondo: No papel, não há grandes novidades neste relato da homofobia na Argentina rural, até por ser baseado num caso verídico que envolveu um duplo homicídio. Só que esta primeira incursão nas longas-metragens está longe de ser só mais uma, muito por culpa de uma abordagem comedida e contemplativa, à imagem do protagonista. Marcos, um adolescente alvo de violência física e psicológica desde que a sua sexualidade começa a despontar, de forma demasiado visível e pouco condizente com parâmetros heteronormativos, vai vendo a sua identidade continuamente silenciada e anulada tanto pela comunidade como pela família, num jogo de pressões sociais e económicas que revela um olhar mais amplo do que parece à partida. Mas embora pudesse ser facilmente reduzido ao papel de vítima, o protagonista, embora de poucas palavras, tenta fazer valer a sua voz de modo tão contido como incisivo, num jogo de forças que Rodríguez Redondo desenha sem floreados dramáticos - e aí é de louvar a secura da banda sonora e o trabalho de som minucioso de alguns momentos mais duros. Pacientemente, o realizador vai compondo o cenário de angústia e inadaptação extremas, ancorado no desempenho comovente de Walter Rodríguez e de alguns secundários de excepção - torna-se difícil não mencionar Catalina Saavedra num difícil e ingrato papel de mãe "monstruosa", mas também ela esmagada por um contexto opressor e sem grandes possibilidades de fuga. Valente grito surdo, este.

 

 4/5

 

O Orfão

 

 "O ORFÃO", de Carolina Markowicz: A realizadora brasileira não precisa de mais de 15 minutos para dizer mais do que muitos dizem em longas-metragens. E além de ser concisa, sabe escolher o tom certo para acompanhar a rotina de um adolescente, entre o orfanato e (mais) um processo de adopção conturbado, sem se limitar às boas intenções do filme de denúncia e realismo social. "O ORFÃO" é melancólico ao dar conta da pressão emocional do protagonista, mas sobressai pela forma como injecta humor até nos momentos que se antecipariam como dramáticos, sem trair as personagens. A direcção de actores também ajuda, com destaque para o actor principal: Kauan Alvarenga é plenamente convincente ao servir-se do sarcasmo para camuflar a solidão, na pele de um protagonista que não abdica de uma exuberância natural mesmo quando é consecutivamente rejeitado. "O ORFÃO", no entanto, é uma pequena surpresa para acolher de braços abertos - como Cannes soube acolher com o prémio de Queer Palm para curta-metragem na edição deste ano.

 

 3,5/5

 

O corpo é que paga

Três filmes, três olhares sobre o corpo - e as suas limitações e possibilidades - já vistos por estes dias no QUEER LISBOA, a decorrer no Cinema São Jorge e na Cinemateca: "Girl", "It Is Not the Pornographer That Is Perverse" e "Sauvage".

 

Girl

 

"GIRL", de Lukas Dhont: E se o corpo não aguentar? Esta é a pergunta que o realizador belga vai deixando e sublinhando na sua primeira longa-metragem, retrato implacável mas também terno de uma adolescente transexual que lida com os vários passos da mudança de sexo enquanto persegue, de forma cada vez mais obsessiva, o sonho de se tornar bailarina profissional. "Girl" é bastante hábil e fugir a lugares comuns de relatos de marginalização, ao dar conta de um ambiente familiar e, em boa parte, escolar, que pouco tem de opressivo. O principal entrave de jornada de Lara acaba por ser ela mesma, numa constante fuga para a frente que vai dinamitando o seu quotidiano e o seu corpo. Victor Polster tem um desempenho impressionante ao combinar determinação e fragilidade no papel protagonista, com uma ambiguidade que escapa à vitimização, embora o argumento ameace resvalar para o jogo de massacre - sobretudo nas cenas repetitivas e desnorteantes das aulas de ballet, com direito a câmara epiléptica, num contraste com a graciosidade de outros momentos. O final, demasiado telegrafado e a aproximar-se do filme-choque, reforça essa tendência, e é pena: "Girl" não precisava de malabarismos desses quando oferece um retrato tão emocionalmente rico e depurado durante grande parte do tempo.

 

3/5

 

It Is Not the Pornographer That Is Perverse

 

"IT IS NOT THE PORNOGRAPHER THAT IS PERVERSE...", de Bruce LaBruce: Nome habitual na programação do Queer Lisboa, o realizador canadiano viu o seu mais recente filme integrado na secção Hard Nights, a mais sexualmente explícita do festival. Mas como noutras obras suas, a pornografia (gay) é apenas um meio para que o humor e a provocação se instalem, aqui de forma narrativamente mais concentrada: em vez das longas-metragens de outras edições, esta proposta junta quatro curtas (que partilham alguns actores e personagens) e há duas especialmente certeiras. A primeira, "Diablo in Madrid", é um devaneio sobre a luta entre a contenção e a entrega ao prazer, partindo das tentações de um diabo exibicionista num cemitério - que acaba a dominar um anjo da guarda com a benção de "santo" Almodóvar, quase numa actualização (mais crua e titilante) dos dias da movida madrilena. A terceira, "Purple Army Fiction", consideravelmente mais agressiva mas sem perder o sentido de humor, é uma resposta à homofobia e ao policiamento de comportamentos, que inverte os códigos heteronormativos enquanto dispara tantos slogans (alguns hilariantes) como fluidos numa distopia irónica - e afirma-se como descendente de "The Raspberry Reich", de 2004. No processo, converte à causa dos soldados protagonistas o civil François Sagat, da mesma forma que outra estrela porno, Colby Keller, acaba rendido ao diabo na primeira curta ou a um jovem motorista na segunda, "Uber Menschen", provavelmente o mais próximo que LaBruce já esteve da comédia romântica. Mas essa acaba por ser uma experiência menos desbragada, tal como a última curta-metragem, "Fleapit", cujo surto de desejo numa sala de cinema parece menos idossincrático. Compilação curiosa, ainda assim...

 

2,5/5

 

Sauvage

 

"SAUVAGE", de Camille Vidal-Naquet: De tentações moralistas ao mergulho no miserabilismo ou em cenários escabrosos, o retrato de um prostituto que vive na rua sem considerar alternativas pode ser logo campo minado, sobretudo numa primeira longa-metragem. Mas um dos trunfos deste drama realista é a forma como o realizador francês respeita a natureza da personagem que acompanha, até às últimas consequências, mesmo que com sugestões de eventuais cedências pelo meio. E consegue-o com uma segurança pouco habitual tendo em conta que é a sua estreia nas longas-metragens (depois de três curtas), deixando um olhar justo sobre o dia-a-dia de Leo - muitas vezes (inevitavelmente) áspero, é certo, mas com momentos de descompressão e de cumplicidade que lhe vão dando algum alento. Elemento decisivo, a interpretação de Félix Maritaud atinge um patamar que dificilmente se adivinharia em "120 Batimentos por Minuto", do qual o actor francês foi uma da revelações. Vidal-Naquet coloca o protagonista à beira do precipício, mas também o mostra a jogar com as suas próprias regras mesmo que sinta as consequências dessa opção na pele enquanto o mundo o deixa à margem. Tal como Leo, o realizador recusa refugiar-se no cinismo, não facilitando a vida ao espectador - que se vê aqui imerso numa narrativa tão livre como a personagem. E nem o facto de a jornada lembrar a espaços as de outros jovens prostitutos no cinema (de "Não Dou Beijos", de André Techiné, a "Mysterious Skin", de Gregg Araki) compromete muito a intensidade deste realismo selvagem.

 

3,5/5