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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Inocente ou culpada?

Terá uma mulher assassinado a filha e a melhor amiga? A dúvida percorre a primeira temporada de "OS DOZE JURADOS", a nova série da RTP2 (e da RTP Play), que promete fintar os lugares comuns das histórias de tribunal - e os primeiros episódios sugerem que consegue.

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Depois de ter estreado a recomendável "O DIA", em Fevereiro, o segundo canal público volta a dedicar as noites de segunda a sexta a uma produção belga. Tal como essa, "OS DOZE JURADOS" move-se entre o drama e o thriller, mas em vez de um assalto debruça-se sobre o homicídio de uma mulher e de uma criança, respectivamente a melhor amiga e a filha de Frie Palmers, a principal suspeita do crime.

Aquele que é considerado, na trama, "o Julgamento do Milénio", depende muito da contribuição dos doze elementos de um júri cujo quotidiano está no centro da primeira temporada desta criação de Sanne Nuyens e Bert Van Dael - dupla que já tinha colaborado na bem-sucedida "Hotel Beau Séjour" (2016).

Ao longo de dez episódios, a série inicialmente emitida no canal belga Eén, a partir do final de 2019, dedica-se tanto à vida pessoal da principal acusada, com flashbacks recorrentes para vários períodos do seu passado, como às dos jurados e dos que lhes são próximos, num modelo narrativo ambicioso e que começa a desafiar as certezas (e simpatias) do espectador logo nos primeiros capítulos.

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Os avanços e recuos temporais também já eram, curiosamente, um dos elementos-chave de "O DIA", embora aí a acção se limitasse a um período de 24 horas. Como também o era a aposta num realismo seco e austero, alicerçado numa atmosfera urbana (aqui bem captada pelo realizador Wouter Bouvijn, no seu maior desafio até agora) e num elenco homogéneo no desenho de personagens verosímeis e contraditórias. E até há pelo menos duas actrizes em comum nas duas séries, Maaike Neuville e Sofie Decleir, que surgem aqui em figuras substancialmente diferentes das anteriores.

Ao cruzar desta forma as esferas públicas e privadas de um núcleo alargado de personagens, "OS DOZE JURADOS" demarca-se dos modelos mais formatados de muitos relatos jurídicos da ficção televisiva, trocando o habitual caso da semana por um julgamento do qual quase ninguém deverá sair ileso depois de se sujeitar a um olhar tão incisivo da câmara (em certos aspectos, e com as devidas distâncias, parece estar aqui uma descendente de "12 Homens em Fúria", a peça de peça de Reginald Rose que inspirou o filme homónimo de Sidney Lumet). Além do duplo homicídio no centro da temporada, há subenredos por onde passam situações de violência doméstica ou de imigração ilegal, e a forma como os elementos do júri lidam com elas na sua vida pessoal promete ter reflexo no seu veredicto.

Os três primeiros episódios, já emitidos na RTP2, são suficientemente intrigantes para dar o voto de confiança à série que venceu o prémio de Melhor Argumento no festival CannesSeries, em 2019, entre outras distinções. E também para continuar a prestar atenção à aposta do segundo canal público na ficção televisiva europeia recente, sobretudo quando parte dela talvez não tivesse palco noutras plataformas.

"OS DOZE JURADOS" estreou-se na RTP2 a 28 de Abril e é transmitida de segunda a sexta, pelas 22h05. A série também está disponível na RTP Play.

Viver e morrer na Pensilvânia

É um dos regressos televisivos do ano: Kate Winslet volta a ter um papel no pequeno ecrã e isso basta para querer espreitar "MARE OF EASTTOWN". Mas há mais motivos para ter a nova minissérie da HBO Portugal debaixo de olho.

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Entre o cansaço, o cinismo e a exasperação, Mare Sheehan acumula os papéis de mãe, avó(!), ex-mulher, antiga promessa do desporto local e detective veterana em Easttown, uma pequena cidade fictícia da Pensilvânia. Que é como quem diz, está aqui um papel à medida de Kate Winslet, naquele que é o regresso da britânica a uma produção televisiva como actriz principal depois da já distante "Mildred Pierce", de Todd Haynes, outra minissérie da HBO.

Admita-se que, se não fosse por ela, a nova aposta da plataforma de streaming não teria muitos elementos distintivos, pelo menos à primeira vista. Articulando drama familiar e moldes do policial, "MARE OF EASTTOWN" apresenta um relato do quotidiano pardacento numa comunidade onde pouco acontece e ainda menos muda, pelo menos até o assassinato de uma adolescente ter passado a ocupar a agenda das autoridades locais durante o último ano - e sem que o autor do crime tenha sido encontrado.

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Coube a Mare conduzir a investigação e esse processo frustrante (relembrando por acusações da mãe da vítima, sua antiga colega de liceu) condiz com uma vida pessoal conturbada, que envolve o luto de um filho e uma relação com o ex-marido que, enfim, podia ser mais harmoniosa (e não ajuda que ele seja o seu novo vizinho, já com companheira e tudo).

Ao partir desta premissa, "MARE OF EASTTOWN" lembra séries como "The Killing", "Broadchurch" ou "Happy Valley", mas o primeiro episódio mostra não só que ter aqui Kate Winslet faz a diferença (para já, assenta como uma luva numa figura simultaneamente carismática e contraditória) como Brad Ingelsby, o criador e argumentista, parece saber do que está a falar. Afinal, o showrunner (que escreveu o recente "O Caminho de Volta", de Gavin O'Connor, elevado por um dos melhores papéis de Ben Affleck) é natural de uma localidade semelhante da Pensilvânia e rodeia a protagonista de um grupo expressivo de secundários, defendidos por gente como Jean Smart (a sua mãe, que não deixa nada por dizer), Guy Peters (estranho numa terra estranha e novo interesse amoroso) ou Evan Peters (que ainda não aparece no arranque, mas vai ser parceiro de investigação).

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Na realização está Craig Zobel, cuja obra no cinema tem dividido opiniões (de "Obediência" a "A Caçada") e que lida agora com um argumento à partida menos extremado do que os de alguns dos seus filmes. O norte-americano encarrega-se dos sete episódios e mostra mão segura no primeiro, ao acompanhar as jornadas individuais de Mare e de uma adolescente (interpretada por Cailee Spaeny, com contenção e vulnerabilidade no ponto) que acabarão por se cruzar quase inevitavelmente nos próximos capítulos. O cruzamento não deverá ser muito favorável para nenhuma delas, como revelam os minutos finais deste capítulo introdutório, mas pode vir a alimentar um dos mistérios televisivos mais aliciantes dos últimos tempos...

O primeiro episódio de "MARE OF EASTTOWN" está disponível na HBO Portugal desde 19 de Abril. A plataforma de streaming estreia novos episódios todas as segundas-feiras.

As novas mutantes

E se os X-Men fizessem parte dos mundos de "Bridgerton" ou "Downton Abbey"? O resultado talvez não andasse longe de "THE NEVERS", a nova série com o toque de Joss Whedon. O primeiro episódio já chegou à HBO Portugal e propõe um arranque convidativo.

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Quando há cada vez mais grandes produções de acção ou ficção científica a apostar em protagonistas femininas como se fosse o último grito (e às vezes sujeitas a versões redundantes de personagens masculinas), Joss When está aí para provar que essa tendência não será surpresa para alguém com "Buffy - A Caçadora de Vampiros", "Angel" ou "Firefly" no currículo. O que não o impede de voltar a apostar numa saga com várias mulheres no centro e nos dois (ou mais) lados de uma barricada que se instala na Londres vitoriana.

"THE NEVERS", a nova criação do realizador de "Os Vingadores", que também é aqui showrunner e um dos argumentistas e produtores executivos, apresenta a capital britânica em modo steampunk nos finais do século XIX e acompanha as consequências de uma noite vincada por um fenómeno invulgar. Além de ter iluminado o céu fora de horas, o acontecimento concedeu capacidades especiais a dezenas de londrinos, sobretudo mulheres, e ameaça trazer uma nova ordem que distingue os "tocados" das pessoas comuns.

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Apesar de a luta de classes estar no ADN de muitas produções britânicas de época, a série norte-americana sugere que esse não é o único combate que vai ser travado nestas aventuras. O primeiro episódio, um dos três dirigidos por Whedon, mostra que o patriarcado também fica em causa com a ascensão iminente de uma minoria expressiva de marginalizados, embora não faltem diferenças de comportamento e de posicionamento moral entre a nova subclasse.

A entrada no mundo de "THE NEVERS" faz-se através da rotina de duas mulheres que trabalham num orfanato destinado a crianças e adolescentes com capacidades especiais. E se esse centro de acolhimento lembra a escola para jovens sobredotados de Charles Xavier (o mentor dos X-Men), a dinâmica entre as duas protagonistas tem sido comparada por alguns fãs à de Buffy e Willow. Outro elemento familiar é a recriação de época, que não fica a dever nada à de muitas representantes da "qualidade BBC", embora também não se distinga da maioria delas - dos cenários e guarda-roupa à fotografia de tons sombrios.

Mas essas aproximações não são necessariamente uma limitação: ao longo da primeira hora, Whedon é bastante desenvolto a apresentar uma galeria de personagens extensa e variada q.b., estabelecendo relações e conflitos que convidam a querer saber mais sobre este universo e estas pessoas. Os actores respondem à chamada com entusiasmo e afinco, em especial Laura Donnelly na pele da esquiva e expedita Amalia True, uma das protagonistas, e os diálogos são mais ágeis do que os de muitos arranques de sagas comparáveis.

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"THE NEVERS" faz bem ao não perder muito tempo com explicações e sequência inicial é um óptimo exemplo: passam quase cinco minutos até que uma personagem diga uma palavra, cabendo às imagens dar as boas vindas a esta Londres.

A realização não brilha tanto em algumas cenas de acção, mais atabalhoadas, mas também não trai o potencial de uma saga a acompanhar numa primeira leva de seis episódios. Os restantes capítulos da temporada devem chegar mais para o final do ano, já sob o comando da britânica Philippa Goslett (co-argumentista de "Como Falar Com Raparigas em Festas", de John Cameron Mitchell), a substituta de Whedon como showrunner após a desistência deste - que alegou ter tido o seu trabalho demasiado afectado pela pandemia. Mutatis mutandis? É continuar a ver para descobrir.

O primeiro episódio de "THE NEVERS" está disponível na HBO Portugal desde 12 de Abril. A plataforma de streaming estreia novos episódios todas as segundas-feiras.

Chegar, ver e vencer

Mais uma série de super-heróis? É verdade, mas há bons motivos para não deixar passar "INVINCIBLE", cujos três primeiros episódios já chegaram ao Amazon Prime Video - e com direito a uma viragem de tom desconcertante logo no capítulo inicial.

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Depois de "The Walking Dead" e "Outcast", há mais uma saga de Robert Kirkman a saltar da BD para o pequeno ecrã. Editada pela Image Comics entre 2003 e 2018, a revista "INVINCIBLE" durou 144 edições e contou a história de um adolescente norte-americano que tem o fardo de ser o único filho do maior super-herói do planeta. Ao longo de 15 anos, Kirkman acompanhou a entrada na idade adulta do protagonista, Mark Grayson, e moldou um universo complexo e personalizado, que partiu dos códigos das aventuras de super-heróis para os desconstruir aos poucos - enquanto se desviou de um tom ligeiro para cenários mais negros.

Encerrada a saga na BD (também aí a demarcar-se das cronologias intermináveis da Marvel ou da DC), "INVINCIBLE" ganha nova vida numa série de animação, para já através de uma primeira temporada de oito episódios. Animação para adultos, entenda-se, embora o contacto inicial possa levar ao engano, tanto pelo estilo visual adoptado (a lembrar adaptações para toda a família) como pela história coming of age num ambiente de liceu que ocupa grande parte do primeiro episódio.

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Admita-se que a animação podia ser mais sofisticada e inventiva, do desenho das personagens aos cenários, sobretudo quando Cory Walker, artista que criou este universo com Kirkman na BD, também está na equipa criativa da série. Mas se "INVINCIBLE" não impressiona especialmente nesse aspecto, tem outros trunfos que a ajudam a ganhar a aposta em episódios mais longos do que os 30 minutos habituais em séries animadas.

Os primeiros capítulos são muito bons a apresentar o mundo de Mark, do núcleo familiar ao escolar, passando pela descoberta dos seus superpoderes e pelo contacto com outras pessoas com capacidades especiais, de super-heróis a supervilões. As vozes das personagens ajudam, com Steven Yeun, J.K. Simmons, Sandra Oh, Zachary Quinto, John Hamm ou Seth Rogen (que também é produtor executivo) entre os actores convocados. E se por um lado há aqui muito de reconhecível - os dilemas juvenis lembram os de Peter Parker/Homem-Aranha, as origens do pai devem muito ao Super-Homem -, há tanto ou mais de subversivo, sem que "INVINCIBLE" deixe de ser uma carta de amor ao género (não se notam, por exemplo, sinais do cinismo de "Watchmen").

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Os minutos finais do primeiro episódio prometem tirar o tapete debaixo dos pés aos espectadores que nunca tenham lido a saga, e mesmo os que leram talvez fiquem surpreendidos ao verem que esse momento decisivo chegou tão cedo. Na BD, a tensão foi construída de forma gradual, com os primeiros números a adoptarem um tom mais bem humorado. Já a série diz logo ao que vem e faz conviver um relato quase inocente com um disparo repentino de ultraviolência, mantendo uma história com coração e sentido lúdico - e Kirkman mostra mão segura em todas as vertentes, nunca forçando a nota nesse balanço.

Depois de "The Boys" ter mergulhado no lado negro do super-heroísmo (ou do poder em geral), curiosamente também com uma versão muito livre da Liga da Justiça no centro da trama, o Amazon Prime Video abre a porta a outro universo que foi fértil na BD e tem tudo para correr bem na TV. Por agora, é das estreias mais empolgantes e carismáticas do trimestre...

Os três primeiros episódios de "INVINCIBLE" estão disponível no Amazon Prime Video desde 26 de Março. A plataforma de streaming estreia novos episódios todas as sextas-feiras.