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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Esta guerra tem uma nova estrela

É uma das coqueluches da Disney+, plataforma que chegou esta terça-feira a Portugal, e promete expandir o mundo de "Star Wars" no pequeno ecrã. Mas depois dos últimos filmes deste universo terem gerado discórdia, valerá a pena dar uma oportunidade a "THE MANDALORIAN"?

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Visto o primeiro episódio, que além de estar disponível na Disney+ estreou nos canais FOX no passado domingo, a impressão que fica é a de estar aqui um arranque eficaz, mesmo que não tremendamente inspirado. O que, apesar de tudo, é mais auspicioso do que um recomeço como "Stars Wars - O Despertar da Força", que se limitava a servir mais do mesmo com novas personagens e confundia homenagem com auto-citação.

Criada e desenvolvida por Jon Favreau, que é também um dos argumentistas e produtores executivos, "THE MANDALORIAN" é a primeira série de imagem real inspirada pela saga de George Lucas e, embora decorra cinco anos após os eventos de "O Regresso de Jedi", não é uma continuação. Propõe antes uma aventura lateral, como "Rogue One: Uma História Star Wars" já tinha feito, ainda que este seja um spin-off de contornos bem diferentes.

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Favreau, que ajudou a construir o Universo Cinematográfico Marvel com "Homem de Ferro" e dirigiu novas versões de clássicos da Disney ("O Livro da Selva", "O Rei Leão"), diz ter tido aqui influências directas dos western spaghetti, citando a obra de Sergio Leone como ponto de partida para explorar recantos pouco ou nada visitados de "Star Wars". Essa herança não chega a ser inédita na saga, já que o recente "Han Solo: Uma História de Star Wars" também devia alguma coisa a ambientes próximos, já para não falar da trilogia inicial, mas ainda chega para que "THE MANDALORIAN" arranque com alguma singularidade e energia.

E quem é o Mandalorian? O primeiro episódio não dá muitas respostas enquanto vai seguindo os passos de um caçador de recompensas, Din Djarin, que parece ser particularmente bom no que faz, mas que se mantém um mistério para o espectador. Pedro Pascal, que encarna o protagonista, não chega a tirar a máscara ao longo do arranque desta aventura, apesar de uma sequência recuar à sua infância (traumática) sem quebrar o ritmo de uma narrativa directa ao assunto - neste caso, ainda bem, porque os poucos segundos no passado dizem tudo o que é preciso sem cair numa sucessão de diálogos explicativos (num exemplo de desenvoltura ausente de alguns filmes da saga). 

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Se a personagem principal pouco diz, as secundárias compensam com diálogos que alternam entre o alívio cómico e a apresentação de informações-chave para que o espectador se vá ambientando neste novo capítulo. Werner Herzog (!), Nick Nolte e Taika Waititi são alguns dos ilustres que se ouvem por aqui (o primeiro é o único que também surge em cena), com o realizador de "Thor: Ragnarok" ou "Jojo Rabbit" a regressar para dirigir o último dos oito episódios da primeira temporada (a segunda já foi entretanto confirmada).

De resto, os valores de produção não ficam a dever nada ao das aventuras no grande ecrã e visualmente "THE MANDALORIAN" consegue ser um óbvio descendente de "Star Wars" (dos cenários a quem os habita, passando pela fotografia) sem abdicar de cenas com alusões à iconografia do western. E não faltam easter eggs para alimentar conversas dos fãs, com o mais gritante a surgir no final do episódio (e já vastamente disseminado por essa internet fora), mas para já parecem ser mais um acessório do que o motor da narrativa. Esperemos que o que aí vem se mantenha assim, com liberdade criativa para desenhar um submundo próprio em vez de se limitar a repisar, mais uma vez, os da saga matriz.

Os primeiros dois episódios de "THE MANDALORIAN" estão disponíveis no Disney+, que vai estrear um por semana todas as terças-feiras.

A mãe é que sabe

De longe o projecto de Ridley Scott mais entusiasmante em décadas enquanto realizador, "RAISED BY WOLVES" é uma das grandes novidades televisivas da rentrée. A primeira temporada já estreou na HBO Portugal e propõe um retrato da maternidade a partir da ficção científica.

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Embora Ridley Scott tenha tido um percurso regular no pequeno ecrã nos últimos anos como produtor executivo, é preciso recuarmos até à década de 60 para o vermos no papel de realizador na televisão - quando dirigiu episódios de "The Informer" ou "Adam Adamant Lives!". Ou assim era até há muito pouco tempo, porque os dois primeiros capítulos de "RAISED BY WOLVES", uma das novas apostas da HBO Portugal, são realizados pelo britânico, que também está entre os nomes da produção executiva. E é um regresso a louvar: independentemente do que se seguir nesta saga, o arranque é facilmente o melhor que o autor de "Alien - O 8.º Passageiro" e "Blade Runner: Perigo Iminente" fez desde os dias de... "Alien - O 8.º Passageiro" e "Blade Runner: Perigo Iminente". Exagero? Não para quem considera que a sua filmografia nunca chegou a cumprir a promessa dos primeiros dias, apesar de Scott já ter regressado ao sítio onde foi feliz mais de uma vez, do frustrante "Prometheus" ao fraquíssimo "Alien: Covenant".

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Criada pelo norte-americano Aaron Guzikowski (argumentista de "Raptadas", de Denis Villeneuve, e showrunner da série "The Red Road"), "RAISED BY WOLVES" decorre num contexto pós-apocalíptico, seguindo dois andróides num planeta distante após a Terra ter sido destruída. Os protagonistas, Pai e Mãe, acompanham o crescimento de um pequeno grupo de crianças humanas, mas a tragédia não demora a atraiçoar esta família de contornos singulares. E a série também não tarda a colocar em jogo temas-chave das obras mais influentes de Scott, das muitas questões levantadas pela inteligência artificial ao conflito entre religião e ciência.

Ao longo dos três primeiros episódios (os únicos estreados até agora, na passada sexta-feira), o argumento passa ainda por um olhar sobre a colonização e o controlo, os contrastes entre o maquinal e o humano e a natureza da maternidade e paternidade, através do percurso de dois casais de faces opostas do conflito.

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Sem obrigar o espectador a escolher um dos lados da disputa que se vai adensando, "RAISED BY WOLVES" mostra-se uma proposta de ficção científica menos simplista do que outras que Scott já ofereceu enquanto deixa uma protagonista feminina que honra a herança de Ripley: Mãe, a andróide que leva o seu nome à letra, custe o que custar e a quem custar. É ela o motor narrativo e emocional deste início, e em especial de um primeiro episódio que salta de uma atmosfera densa e intrigante para um remate desvairado sem fazer prisioneiros.

A construção deste mundo é coesa e envolvente, apesar das muitas comparações inevitáveis, a realização e direcção artística estão à altura e Amanda Collin é perfeita no papel de matriarca obstinada. Abubakar Salim, como Pai, é outra escolha feliz de um elenco que conta ainda com Travis "Vikings" Fimmel e Niamh Algar na pele do outro casal desta história. Se os restantes quatro episódios confirmarem a solidez e os rasgos ocasionais dos três primeiros (a primeira temporada tem apenas sete), pode estar aqui uma série a juntar a "Humans" e "The Expanse" na lista de ficção científica imperdível nascida no pequeno ecrã nos últimos tempos.

Tudo maus rapazes

A primeira temporada de "THE BOYS" foi das melhores apostas recentes da Amazon Prime Video e a segunda, estreada este mês, sugere que ainda há muito a explorar nesta visão distorcida dos códigos dos super-heróis. Os três episódios iniciais são um convite tentador ao binge-watching.

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A adaptação da BD de culto criada por Garth Ennis e Darick Robertson regressou na passada sexta-feira, 4 de Setembro, para um segundo ano que traz mais oito episódios a uma saga que não vai ficar por aqui. A terceira temporada de "THE BOYS" já foi entretanto confirmada e percebe-se porquê: além de ter sido muito bem acolhida tanto pela crítica como por muitos fãs, a série desenvolvida por Eric Kripke ("Supernatural", "Revolution", "Timeless") apresenta um universo singular, garrido e aliciante ao qual não faltam possibilidades narrativas. E os novos desdobramentos desta história - para já, estrearam apenas os três primeiros episódios - parecem ter (ainda) mais aproximações às convulsões do mundo real do que os primeiros, com o argumento a atirar-se tanto aos ideais de representatividade (seja feminina ou de minorias étnicas) que têm marcado o pequeno e grande ecrã nos últimos anos como a jogos políticos e mediáticos em torno de grandes instituições de propósitos aparentemente nobres (embora com uma agenda sinistra, nacionalismo e terrorismo incluídos). 

Nesta visão céptica sobre um mundo fascinado por vigilantes tornados celebridades, o espectáculo tem de continuar e vale tudo até tirar olhos... ou, para já, ir explodindo cabeças. O deleite gore e outros acessos de violência gráfica continuam tão presentes como na primeira temporada, mas "THE BOYS" até é mais intrigante quando não quer ser "in your face". O terceiro episódio acaba por ser o mais conseguido, ao obrigar o espectador a reconsiderar as suas simpatias face a algumas personagens à medida que a linha entre heróis, anti-heróis e vilões se torna cada vez mais ténue - e a distância entre imagem pública e círculo privado se vai alargando.

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Não que a personalidade sociopata de Homelander seja amenizada - e Antony Starr mantém-se perfeito neste Super-Homem com aspirações divinas e tirânicas -, mas a entrada em cena do novo CEO da super-organização Vought International (Giancarlo Esposito a substituir com garra e classe a saudosa Elizabeth Shue) e sobretudo de uma nova super-heroína, Stormfront (Aya Cash destravada numa entrada em grande, e com algumas das tiradas mais incisivas) altera substancialmente a dinâmica deste regresso. 

O humor negro e delirante, outra das pedras de toque da saga, mantém-se indissociável da jornada pessoal de The Deep, um Aquaman de terceira categoria em busca de redenção. E a comédia física ganha outros contornos quando Patton Oswalt empresta a voz às sequências mais absurdas desse arco (e de toda a série) até agora, capazes de competir com as situações extremas de "Deadpool". A reforçar a faceta paródica estão as muitas piscadelas de olho à cultura pop, caldeirão que inclui mais do que a mitologia dos super-heróis convocada à partida - Pipi das Meias Altas, Billy Joel ou Fassbinder também são para aqui chamados sem que as alusões pareçam gratuitas. O que talvez já nem seja assim tão inesperado quando um dos diálogos mais memoráveis da primeira temporada era uma ode às Spice Girls...

Histórias negras importam. E nesta vale quase tudo

"LOVECRAFT COUNTRY" é a nova série-sensação da HBO e mais uma a colocar o dedo na ferida do racismo sistémico nos EUA, depois de "Watchmen". Mas a julgar pelo primeiro episódio, esta viagem promete ser ainda mais imprevisível e avessa a regras.

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"As histórias são como as pessoas. Não são perfeitas, mas podemos amá-las apesar das falhas", diz o protagonista de "LOVECRAFT COUNTRY" num dos diálogos iniciais da nova série disponível na HBO Portugal. E embora se refira a aspectos moralmente questionáveis das aventuras de John Carter, das quais é fã acérrimo, parece reagir à histeria que tomou conta da reavalição - e dos apelos à censura - de um número crescente de obras artísticas em 2020, com destaque para "E Tudo o Vento Levou" - um dos casos mais mediáticos, na sequência de acusações de racismo.

As falhas continuam lá, responde a interlocutora de Atticus "Tic" Freeman, o herói desta saga que não esquece as que lhe abriram caminho. Mas se não podemos mudar o passado, podemos aprender com ele sem entrar numa cruzada em nome da "cancel culture". E apostar em novas narrativas, algumas delas curiosamente impulsionadas pela mesma HBO que esteve no centro da polémica em torno do clássico de Victor Fleming.

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Depois de "Watchmen" ter surpreendido no ano passado, ao adaptar para televisão uma novela gráfica transgressora como poucas no campeonato dos super-heróis e recontextualizando-a num clima de segregação racial, "LOVECRAFT COUNTRY" revela algumas semelhanças ao também partir de um mergulho no racismo nos EUA através da inspiração assumida em géneros literários populares (e muitas vezes considerados menores), caso de romances de cordel onde tanto cabem contos de fantasia e ficção científica como de terror e aventura (e a banda desenhada também tem uma palavra a dizer aqui).

A sequência inicial, com uma invasão extraterrestre in media res, dá logo conta da lógica de vale tudo dominante nesta narrativa, mesmo que boa parte do que se segue seja muito mais terra-a-terra, a lembrar mais o retrato de época dos anos 50 na linha de um "Green Book - Um Guia Para a Vida" - aqui a debruçar-se sobre uma comunidade negra de Chicago. Mas se o filme de Peter Farrelly era bem-comportado, a série criada por Misha Green (argumentista de "Heroes" ou "Sons of Anarchy") e baseada no romance homónimo de Matt Ruff não tem medo de sujar as mãos enquanto expõe a diferença de tratamento a que os cidadãos afro-americanos eram sujeitos, num primeiro episódio que tanto dá conta do preconceito em cenas prosaicas, do quotidiano de um bairro, como a leva ao limite numa recta final tão vertiginosa como delirante - e sem medo de se atirar ao camp ou ao gore.

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A viragem para terrenos do humor negro e do terror chega a lembrar alguns momentos de "Foge", de Jordan Peele, e não por acaso o realizador é um dos produtores executivos, juntamente com J. J. Abrams. Yann Demange, cujos créditos incluem "Top Boy" e "'71", realiza o primeiro episódio e sai-se bem na gestão de uma tensão que se vai adensando num acumular de situações-limite. Talvez até sejam demasiadas, embora fique na retina uma perseguição automóvel trepidante que coloca em cena vilões deliberadamente caricaturais. E enquanto qualquer tentação de realismo vai ficando cada vez mais para trás, Jonathan Majors não deixa de ser um protagonista credível na pele de um ex-soldado da Guerra da Coreia que se faz à estrada à procura do pai - ele que também integrou o elenco do recente "Da 5 Bloods": Irmãos de Armas", de Spike Lee, filme menos ágil no balanço de gravidade e irrisão.

Jurnee Smollett e Courtney B. Vance, com menos tempo de antena (sobretudo ela), dão corpo e carisma a companheiros de viagem com potencial para alargar os ângulos temáticos de uma série já de si ambiciosa. No arranque, há espaço para uma vénia a James Baldwin e outra a Alexandre Dumas, sem esquecer a herança mais evidente de H. P. Lovecraft, escritor decisivo na abordagem ao terror cuja reputação ficou manchada pela postura racista. Mas uma série como "LOVECRAFT COUNTRY" prova que ainda é possível continuar a revisitar e homenagear a sua obra, apesar das falhas.

"LOVECRAFT COUNTRY" estreou a 17 de Agosto na HBO Portugal e o primeiro episódio foi disponibilizado gratuitamente. Os próximos estreiam às segundas-feiras.