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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Quando o confinamento faz mal à cabeça

A nova minissérie do AXN mostra uma versão particularmente terrível do confinamento ao acompanhar uma equipa de cientistas na Antárctida. E apesar de os valores de produção serem elevados, o arranque de "THE HEAD" promete um thriller com uma curiosa atmosfera de série B.

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Boa parte da promoção de "THE HEAD" tem sido ancorada num dos nomes do elenco, Álvaro Morte, que meio mundo passou a conhecer como o 'Professor' de "La Casa de Papel". Não chega a ser publicidade enganosa, mas na verdade o actor espanhol tem uma participação bastante limitada nesta aventura saída de uma parceria entre o Mediapro Studio, a Hulu Japan e a HBO Asia que se estreou em Portugal na passada quarta-feira, 21 de Outubro, através do AXN.

De qualquer forma, Álvaro Morte parece estar bem acompanhado num dos elencos mais internacionais dos últimos tempos, com actores de sete países, mistura que também resultou numa profusão de idiomas: ouve-se falar inglês, dinamarquês, sueco e espanhol. E esse âmbito global justifica-se tendo em conta a multiculturalidade da equipa de cientistas no centro da acção, que investiga uma bactéria capaz de transformar dióxido de carbono em oxigénio a um ritmo acelerado. A pesquisa leva a uma estadia prolongada num centro no Polo Sul durante seis meses, numa temporada na qual nunca brilha o sol e que se torna ainda mais negra quando quase todos os investigadores são brutalmente assassinados.

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Quem os matou e porquê? Essa é a questão que "THE HEAD" tratará de responder ao longo de seis episódios, e o primeiro sugere que vai valer a pena esperar para saber. Realizada pelo espanhol Jorge Dorado (que dirigiu alguns dos melhores capítulos de "Gigantes") e criada pelos conterrâneos Àlex e David Pastor ("A Vida que Mereces"), juntamente com o showrunner David Troncoso ("Plaza de España"), a minissérie inicia-se com um longo plano-sequência que apresenta, de forma envolvente e eficaz, o espectador ao território de uma trama de suspense e às personagens que o habitam - mesmo que algumas não fiquem por lá muito tempo, pelo menos com vida.

O primeiro episódio também marca pontos ao assumir logo as influências, uma em particular: qualquer semelhança com "Veio do Outro Mundo" não será coincidência e uma das cenas mais descontraídas mostra os protagonistas a revisitar o clássico de John Carpenter que também juntava neve, morte e isolamento. "Alien - O 8.º Passageiro" será outra aproximação possível e esta dinâmica também não anda longe dos mistérios de Agatha Christie em torno de assassinatos. Mas os criadores de "THE HEAD" parecem estar cientes disso, o que faz esperar que o resultado não se limite a ser mais do mesmo, embora tenha um ponto de partida familiar.

Entre narrativas em períodos temporais diferentes e uma galeria de personagens enigmáticas, cujas motivações a trama promete explorar, a investigação é conduzida por um comandante obstinado em descobrir o autor do crime e o destino da sua mulher, um dos elementos desaparecidos. O dinamarquês Alexandre Willaume encarna o protagonista, com uma mistura convincente de carisma e desespero, o irlandês John Lynch começa por desenhar uma figura mais turva e no elenco destaca-se ainda Tomohisa Yamashita, super-estrela japonesa com um longo percurso na interpretação e na música. Já Álvaro Morte encarna o cozinheiro de serviço, depois de ter sido "professor". Mas aqui não se mostra tão engenhoso face à ameaça com se depara...

"THE HEAD" é emitida no AXN às quarta-feiras, a partir das 22h50.

E se "Stranger Things" tivesse walkers?

"THE WALKING DEAD: WORLD BEYOND" tenta injectar sangue novo no mundo pós-apocalíptico criado por Robert Kirkman, naquele que é o segundo spin-off da saga de zombies. Mas os dois primeiros episódios da série, exibidos no AMC, são mais de reconhecimento do que de surpresa.

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Em equipa que ganha não se mexe e a versão televisiva de "The Walking Dead" (universo que começou na BD) tem seguido quase à risca esse preceito. É verdade que a aposta que marcou um antes e um depois na abordagem à mitologia dos zombies (ou walkers, neste caso) já disse adeus a várias personagens icónicas pelo caminho e contou com uma primeira expansão na série "Fear the Walking Dead" (acabada de chegar à sexta temporada), só que não faltam fãs que acusam a saga de andar em círculos há muito, incapaz de recuperar o rasgo que a tornou um dos maiores fenómenos televisivos do seu tempo.

"THE WALKING DEAD: WORLD BEYOND", o segundo spin-off, nem sequer vai ser o último (haverá pelo menos mais um na televisão, além de três filmes centrados em Rick Grimes), mas por agora é o que promete desviar estas aventuras de uma rotina focada na luta interminável pela sobrevivência. À partida, conta com alguns elementos particulares: ambientada numa pequena comunidade de sobreviventes no Nebraska, dez anos depois do apocalipse zombie, propõe acompanhar a primeira geração que cresceu num mundo já devastado pela ameaça dos walkers, e por isso centra-se em protagonistas mais jovens: duas irmãs adolescentes e dois amigos que se fazem à estrada para tentar encontrar o pai delas.

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Embora os protagonistas até sejam substancialmente diferentes dos que fomos conhecendo até aqui, não é preciso ir além do primeiro episódio para perceber que o maior entrave desta jornada nem são tanto os mortos renascidos de forma grotesca, mas os vivos, e em especial uma unidade militar que se perfila como principal antagonista desta variação da saga. Essa já era, aliás, a lição a tirar tanto de "The Walking Dead" como "Fear the Walking Dead", e se aí esta série descendente não inova, também não parece mudar muito numa história igualmente on the road, a partir do final do primeiro episódio, e vincada por dificuldades sucessivas numa lógica de jogo de pistas.

Além da aproximação estrutural, não ajuda que o arranque seja bastante rudimentar, com uma narrativa atabalhoada (sobretudo nos flashbacks e com pelo menos uma coincidência forçada), demasiados diálogos sem chama e muitas vezes explicativos e um elenco irregular, embora se mostre mais confortável no segundo capítulo. Até a selecção da banda sonora gera reservas, com "Silence", belo tema de PJ Harvey, a pairar em muitas cenas sem fazer grande sentido em algumas (chegando a soar a ruído).

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Mesmo assim, "THE WALKING DEAD: WORLD BEYOND" melhora ligeiramente à medida que vai avançando, ao ir estabelecendo a dinâmica entre os quatro jovens protagonistas com direito a uma leveza e descontração que tentam um desvio do tom das sagas antecessoras - e a sugerir que "Stranger Things", outro relato coming of age numa pequena comunidade atormentada por monstros, terá sido uma das influências. O segundo episódio também começa a explorar o passado de mais figuras desta nova história, como a do soldado interpretado por Nico Tortorella, que tenta proteger as duas irmãs. O seu arco, marcado pela rejeição por parte de pais homofóbicos, não é muito imaginativo face a outras crónicas LGBTQ+, mas pode estar aqui uma personagem gay que foge a alguns estereótipos de representação no mainstream.

Scott M. Gimple e Matthew Negrete, os criadores da série, transitam das equipas das sagas anteriores (nas quais foram produtores executivos e argumentistas) e isso, para já, acaba por se notar demasiado - por muito que também ajude a garantir a partilha do mesmo ADN nesta descendente. De qualquer forma, há uma grande diferença assinalável: ao contrário de "The Walking Dead" e "Fear the Walking Dead", "THE WALKING DEAD: WORLD BEYOND" nasceu já com um morte anunciada: a saga vai contar apenas com duas temporadas, de dez episódios cada, e nesse aspecto não levará ninguém ao engano. A menos que inspire, também ela, mais um ou outro spin-off...

"THE WALKING DEAD: WORLD BEYOND" é exibida no AMC às segundas-feiras, a partir das 22h10.

Viagem ao mundo da ETA

A fasquia das séries espanholas recentes está mais elevada: "PÁTRIA" é francamente melhor do que muita ficção televisiva conterrânea dos últimos tempos que tem sido um sucesso nos serviços de streaming. E os dois primeiros episódios, já disponíveis na HBO Portugal, prometem mesmo uma das grandes sagas do ano.

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Aos primeiros minutos, fica logo claro que "PÁTRIA" está mais interessada no particular do que no universal, ao abordar o conflito que atormentou o País Basco durante mais de cinco décadas a partir do retrato justo e adulto de duas mulheres de meia-idade. É por Bittori e Miren, duas amigas que o destino acabou por colocar em facções opostas, que a série de oito episódios criada pelo basco Aitor Gabilondo (autor de "Príncipe", exibida por cá na RTP2, entre muitas outras) começa por se interessar, expandindo a galeria de personagens através do seu quotidiano numa pequena comunidade da província de Guipúscoa. E aos poucos, a história que adapta o bestseller homónimo de Fernando Aramburu compõe o retrato de duas famílias marcadas e divididas pela ETA, organização encarada por uns como terrorista e por outros como instrumento de revolta e independência.

Mais do que encaminhar o espectador para um dos lados, "PÁTRIA" tenta aproximá-lo das razões de pessoas comuns que se viram envolvidas, quase todas de forma involuntária, em algo muito maior do que elas. O olhar de Gabilondo, que além de showrunner é o argumentista, mostra-se tão compreensivo como assertivo num drama com ingredientes de thriller que recusa apontar bons e maus, ainda que sujeite as personagens ao peso das decisões que tomam - decisões como a de um homicídio a sangue-frio, que abre e fecha o episódio inicial e vai marcar inevitavelmente tudo o que se segue.   

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A elegância formal do arranque, vincada por um entrosamento de duas linhas temporais com duas décadas de intervalo (inícios dos anos 90 e dos anos 2010), conjugada com uma economia narrativa apreciável (a comprovar no recurso habilidoso a uma emissão televisiva para explicar o que é preciso sobre a ETA sem beliscar o ritmo), dão os alicerces para uma solidez que se mantém no elenco e no tom - o drama rejeita gestos gratuitos, o humor, decisivo, nunca é forçado e tem ligação directa à construção de personagens. E falando em personagens, Bittori e Miren são duas das maiores da televisão deste ano, graças a um argumento que lhes atribiu espessura e ambiguidade (mau feitio incluído) e às interpretações sentidas de Elena Irureta e Ane Gabarain - não desfazendo das restantes, que começam a ganhar maior protagonismo a partir do segundo episódio. Esta, sim, parece ser uma série espanhola a não perder...

Os dois primeiros episódios de "PÁTRIA" estão disponíveis na HBO Portugal, que vai estrear um por semana todos os domingos.

Esta guerra tem uma nova estrela

É uma das coqueluches da Disney+, plataforma que chegou esta terça-feira a Portugal, e promete expandir o mundo de "Star Wars" no pequeno ecrã. Mas depois dos últimos filmes deste universo terem gerado discórdia, valerá a pena dar uma oportunidade a "THE MANDALORIAN"?

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Visto o primeiro episódio, que além de estar disponível na Disney+ estreou nos canais FOX no passado domingo, a impressão que fica é a de estar aqui um arranque eficaz, mesmo que não tremendamente inspirado. O que, apesar de tudo, é mais auspicioso do que um recomeço como "Stars Wars - O Despertar da Força", que se limitava a servir mais do mesmo com novas personagens e confundia homenagem com auto-citação.

Criada e desenvolvida por Jon Favreau, que é também um dos argumentistas e produtores executivos, "THE MANDALORIAN" é a primeira série de imagem real inspirada pela saga de George Lucas e, embora decorra cinco anos após os eventos de "O Regresso de Jedi", não é uma continuação. Propõe antes uma aventura lateral, como "Rogue One: Uma História Star Wars" já tinha feito, ainda que este seja um spin-off de contornos bem diferentes.

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Favreau, que ajudou a construir o Universo Cinematográfico Marvel com "Homem de Ferro" e dirigiu novas versões de clássicos da Disney ("O Livro da Selva", "O Rei Leão"), diz ter tido aqui influências directas dos western spaghetti, citando a obra de Sergio Leone como ponto de partida para explorar recantos pouco ou nada visitados de "Star Wars". Essa herança não chega a ser inédita na saga, já que o recente "Han Solo: Uma História de Star Wars" também devia alguma coisa a ambientes próximos, já para não falar da trilogia inicial, mas ainda chega para que "THE MANDALORIAN" arranque com alguma singularidade e energia.

E quem é o Mandalorian? O primeiro episódio não dá muitas respostas enquanto vai seguindo os passos de um caçador de recompensas, Din Djarin, que parece ser particularmente bom no que faz, mas que se mantém um mistério para o espectador. Pedro Pascal, que encarna o protagonista, não chega a tirar a máscara ao longo do arranque desta aventura, apesar de uma sequência recuar à sua infância (traumática) sem quebrar o ritmo de uma narrativa directa ao assunto - neste caso, ainda bem, porque os poucos segundos no passado dizem tudo o que é preciso sem cair numa sucessão de diálogos explicativos (num exemplo de desenvoltura ausente de alguns filmes da saga). 

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Se a personagem principal pouco diz, as secundárias compensam com diálogos que alternam entre o alívio cómico e a apresentação de informações-chave para que o espectador se vá ambientando neste novo capítulo. Werner Herzog (!), Nick Nolte e Taika Waititi são alguns dos ilustres que se ouvem por aqui (o primeiro é o único que também surge em cena), com o realizador de "Thor: Ragnarok" ou "Jojo Rabbit" a regressar para dirigir o último dos oito episódios da primeira temporada (a segunda já foi entretanto confirmada).

De resto, os valores de produção não ficam a dever nada ao das aventuras no grande ecrã e visualmente "THE MANDALORIAN" consegue ser um óbvio descendente de "Star Wars" (dos cenários a quem os habita, passando pela fotografia) sem abdicar de cenas com alusões à iconografia do western. E não faltam easter eggs para alimentar conversas dos fãs, com o mais gritante a surgir no final do episódio (e já vastamente disseminado por essa internet fora), mas para já parecem ser mais um acessório do que o motor da narrativa. Esperemos que o que aí vem se mantenha assim, com liberdade criativa para desenhar um submundo próprio em vez de se limitar a repisar, mais uma vez, os da saga matriz.

Os primeiros dois episódios de "THE MANDALORIAN" estão disponíveis no Disney+, que vai estrear um por semana todas as terças-feiras.

A mãe é que sabe

De longe o projecto de Ridley Scott mais entusiasmante em décadas enquanto realizador, "RAISED BY WOLVES" é uma das grandes novidades televisivas da rentrée. A primeira temporada já estreou na HBO Portugal e propõe um retrato da maternidade a partir da ficção científica.

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Embora Ridley Scott tenha tido um percurso regular no pequeno ecrã nos últimos anos como produtor executivo, é preciso recuarmos até à década de 60 para o vermos no papel de realizador na televisão - quando dirigiu episódios de "The Informer" ou "Adam Adamant Lives!". Ou assim era até há muito pouco tempo, porque os dois primeiros capítulos de "RAISED BY WOLVES", uma das novas apostas da HBO Portugal, são realizados pelo britânico, que também está entre os nomes da produção executiva. E é um regresso a louvar: independentemente do que se seguir nesta saga, o arranque é facilmente o melhor que o autor de "Alien - O 8.º Passageiro" e "Blade Runner: Perigo Iminente" fez desde os dias de... "Alien - O 8.º Passageiro" e "Blade Runner: Perigo Iminente". Exagero? Não para quem considera que a sua filmografia nunca chegou a cumprir a promessa dos primeiros dias, apesar de Scott já ter regressado ao sítio onde foi feliz mais de uma vez, do frustrante "Prometheus" ao fraquíssimo "Alien: Covenant".

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Criada pelo norte-americano Aaron Guzikowski (argumentista de "Raptadas", de Denis Villeneuve, e showrunner da série "The Red Road"), "RAISED BY WOLVES" decorre num contexto pós-apocalíptico, seguindo dois andróides num planeta distante após a Terra ter sido destruída. Os protagonistas, Pai e Mãe, acompanham o crescimento de um pequeno grupo de crianças humanas, mas a tragédia não demora a atraiçoar esta família de contornos singulares. E a série também não tarda a colocar em jogo temas-chave das obras mais influentes de Scott, das muitas questões levantadas pela inteligência artificial ao conflito entre religião e ciência.

Ao longo dos três primeiros episódios (os únicos estreados até agora, na passada sexta-feira), o argumento passa ainda por um olhar sobre a colonização e o controlo, os contrastes entre o maquinal e o humano e a natureza da maternidade e paternidade, através do percurso de dois casais de faces opostas do conflito.

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Sem obrigar o espectador a escolher um dos lados da disputa que se vai adensando, "RAISED BY WOLVES" mostra-se uma proposta de ficção científica menos simplista do que outras que Scott já ofereceu enquanto deixa uma protagonista feminina que honra a herança de Ripley: Mãe, a andróide que leva o seu nome à letra, custe o que custar e a quem custar. É ela o motor narrativo e emocional deste início, e em especial de um primeiro episódio que salta de uma atmosfera densa e intrigante para um remate desvairado sem fazer prisioneiros.

A construção deste mundo é coesa e envolvente, apesar das muitas comparações inevitáveis, a realização e direcção artística estão à altura e Amanda Collin é perfeita no papel de matriarca obstinada. Abubakar Salim, como Pai, é outra escolha feliz de um elenco que conta ainda com Travis "Vikings" Fimmel e Niamh Algar na pele do outro casal desta história. Se os restantes quatro episódios confirmarem a solidez e os rasgos ocasionais dos três primeiros (a primeira temporada tem apenas sete), pode estar aqui uma série a juntar a "Humans" e "The Expanse" na lista de ficção científica imperdível nascida no pequeno ecrã nos últimos tempos.