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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um regresso de coração aberto

Bis

 

Cinco anos depois do último disco e 25 após a estreia, os bis protagonizam um dos primeiros regressos de 2019. "Slight Disconnects", o quinto álbum dos escoceses, chega a 15 de Fevereiro e promete retomar o formato mais lo-fi e do it yourself dos primeiros tempos, quando um EP como "Transmissions on the Teen-C Tip!" (1995) ou o primeiro longa-duração, "The New Transistor Heroes" (1997), os tornaram numa das sensações indie do momento enquanto também os atiraram para o palco do "Top of the Pops" ou para a banda sonora de "The Powerpuff Girls" (foram eles os autores da canção do genérico final da série do Cartoon Network).

 

"SOUND OF A HEARTBREAK", o tema de avanço, lembra em parte essa fase inicial mas também parece ser uma continuação directa do quarto álbum, "Data Panik Etcetera" (2014), que já recuperava guitarras da escola pós-punk depois de alguns registos tendencialmente electrónicos.

 

Não sendo dos singles mais viciantes que Manda Rin, John Disco e Sci-fi Steven já ofereceram (canções como "Eurodisco" ou "The End Starts Today" também deixaram o patamar elevado), o resultado não deixa de ser orelhudo, soa inequivocamente aos bis e dá vontade de acompanhar o regresso aos discos. E também de espreitar o reencontro com os palcos, a arrancar em três concertos agendados para Glasgow, já em Fevereiro, que terão alinhamentos diferentes (e material não falta, entre os álbuns, vários EP ou lados B). O novo videoclip dá uma ideia do que esperar, a partir da sala de ensaios:

 

 

Em equipa que ganha não se mexe

Kap Bambino

Foto: François Quillacq

 

Se a música dos KAP BAMBINO se sujeitasse ao desafio 10 years challenge, tendência da semana nas redes sociais, as diferenças entre a versão de 2009 e a de 2019 seriam mínimas. Pelo menos a julgar pelo novo single da dupla francesa, "ERASE", que poderia ter feito parte do alinhamento de "Blacklist", disco editado há dez anos.

 

A canção é a primeira de Caroline Martial e Orion Bouvier desde o já distante "Devotion" (2012), o quarto álbum, e abre caminho para o registo sucessor, "Dust, Fierce, Forever", anunciado para 12 de Abril. Sem propor viragens ao electropunk acelerado do duo, o tema compensa em eficácia o que lhe falta em novidade, com as palavras de ordem da vocalista e os sintetizadores do produtor a atestarem a pontaria de uma fórmula que funciona especialmente bem ao vivo.

 

Concertos em palcos nacionais, de Paredes de Coura ao Super Bock em Stock (mais uma vez, em 2009), não deixaram grandes dúvidas sobre a força contagiante da banda. Por isso, espera-se que a digressão deste ano, já garantida mas ainda sem datas avançadas, possa encontrar espaço numa sala ou festival por cá. Por agora, fica o consolo de um regresso tão familiar como certeiro, com a agitação sonora a ter complemento na estética agreste do videoclip:

 

 

A noviça rebelde

Cherry Glazerr 2019

 

Longe vão os dias em que os CHERRY GLAZERR se contentavam com um rock de garagem pachorrento através do qual Clementine Creevy, a mentora e vocalista do grupo, fazia a crónica do quotidiano (geralmente entediante) da sua adolescência, entre pequenas odes gastronómicas ("Grilled Cheese") ou despedidas a animais de estimação ("Glenn the Dwag ").

 

Das vinhetas despretensiosas de "Haxel Princess" (2014),os californianos saltaram para "Apocalipstick" (2017), disco no qual se levaram mais a sério enquanto fizeram sobressair preocupações feministas cruzadas com experiências sobre a entrada na idade adulta, mudança que se fez acompanhar por uma moldura sonora mais musculada e outra atenção à produção.

 

Os singles mais recentes do trio, "Juicy Socks" e "Daddi", já tinham insinuado que esse seria o caminho a seguir no próximo álbum e a nova canção não vem trair a suspeita. Com uma sonoridade mais saturada do que nunca, "WASTED NUN" retoma a escola de algum rock alternativo de meados dos anos 90, através de guitarras efervescentes e refrão orelhudo, e será uma amostra fiel do que esperar em "Stuffed & Ready". De acordo com a vocalista, o álbum agendado para 1 de Fevereiro será o mais portentoso da banda ao partir da pressão sobre as mulheres e de crónicas de frustração, auto-destruição e revolta.

 

Fica o alerta, juntamente com um videoclip cuja mistura garrida do sagrado e do profano parece ter qualquer coisa do universo neo-noir de Nicolas Winding Refn, o realizador de "Drive - Risco Duplo", "Só Deus Perdoa" ou "O Demónio de Néon":

 

 

Esta prenda já tem 20 anos

The Gift_-_Vinyl

 

Caso de sucesso a partir de uma postura do it yourself, "VINYL" marcou a estreia dos THE GIFT e um capítulo importante da pop nacional de finais da década de 90. 20 anos depois da edição, continua a acolher algumas das melhores canções da banda de Alcobaça.

 

Empreendedores acérrimos antes de essa prática se tornar um modelo-chave depois da viragem do milénio, os THE GIFT têm a história do seu primeiro álbum inevitavelmente associada à recusa de todas as editoras antes de avançarem com a edição própria.

 

A atitude obstinada acabou por alimentar um fenómeno de culto quando "VINYL" surgiu finalmente nos escaparates, em Dezembro de 1998, e resultou num triunfo invulgar quando o grupo de Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro foi ganhando espaço nas playlists e tabela de vendas ao longo do ano seguinte - acolhimento com direito a concertos por todo o país, incluindo nos coliseus e Aula Magna, que confirmaram a desenvoltura do quarteto nos palcos.

 

 

Este abraço do grande público à banda formada em 1994 e até então praticamente desconhecida, aproximação que rompeu com a lógica dominante na indústria musical, tornou o álbum de estreia dos THE GIFT em material para um estudo de caso (em alguns aspectos comparável ao dos Silence 4, também em 1998 e também a apostarem no inglês, embora a Polygram tenha aberto as portas ao grupo de Leiria). 

 

A ascensão foi tão imprevisível que às vezes parece ofuscar o que "VINYL" ainda tem para oferecer, além da narrativa inspiradora: as canções, algumas das mais conseguidas do quarteto de Alcobaça. Exemplo da banda certa no momento certo, o disco condensou linguagens da pop mais intrigante do final do milénio, com contaminações trip-hop a acessos breakbeat, e definiu logo o ADN de um grupo entusiasmado com a ponte entre o electrónico e o acústico.

 

Entre sintetizadores e samples, cordas e metais, a voz imponente de Sónia Tavares ajudou a demarcar a personalidade de um álbum então comparado aos caminhos que Björk, Portishead ou Lamb tinham percorrido poucos anos antes. Mas duas décadas depois, "VINYL" continua a soar a uma estreia consistente e às vezes muito inspirada, mais do que a um esforço derivativo ou apenas promissor. A promessa tinha ficado, aliás, no EP "Digital Atmosphere"(1997), e o salto qualitativo para a estreia num longa-duração foi notório.

 

The Gift Vinyl 2

 

A viagem entre o tom épico e intimista fez-se logo nos primeiros temas, da urgência de "Nowadays" à contenção ao piano de "My Lovely Mirror". E ambas sugeriram que havia mais (e melhor ou diferente) a descobrir por aqui além de "OK! Do You Want Something Simple?", cartão de visita que acabaria por acusar algum desgaste.

 

O tempero latino de "Real (get me for...)", a incursão pelo português de "Ouvir" (que só viria a ser o idioma dominante das letras do grupo em "Primavera", de 2012), o frenesim rítmico de "Changes" (com ecos do drum n' bass), a viragem instrumental da marcha de "La Folie" (talvez o momento mais contagiante e luminoso) ou a melancolia da belíssima "Dream with Someone Else's Dream" (a grande canção do disco?) deram sinais de uma banda com horizontes largos e capaz de estar à altura do desafio.

 

O último terço do alinhamento é menos surpreendente (15 faixas talvez sejam demasiadas), mas "VINYL" não deixa de merecer ser (re)descoberto do princípio ao fim, mesmo em tempos e plataformas menos condizentes com o formato álbum. "E é tão difícil ouvir sem sentir", pelo menos para quem continua a encontrar aqui uma das estreias mais memoráveis da pop nacional das últimas décadas...