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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma linguagem a (re)descobrir

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"It Comes", o álbum de estreia dos NOVA MATERIA, contou-se entre as boas revelações do ano passado - e o concerto em Lisboa, no Musicbox, terá sido um dos melhores que (quase) ninguém viu.

 

Com viagens do pós-punk a heranças da música tradicional sul-americana, passando pelo krautrock ou EBM, é um disco que continua a valer e (re)descoberta e tem mais uma chamada de atenção: "SPEAK IN TONGUES", o novo single, que chega quando a dupla de Caroline Chaspoul e Eduardo Henriquez (ex-elementos dos Panico) se prepara para arrancar a digressão francesa.

 

O tema não anda longe do dance-punk (em modo sinuoso) de apostas da editora DFA, num ambiente tenso, percussivo e dançável cujo videoclip reforça o lado performativo do projecto franco-chileno - enquanto também revela alguns dos materiais pouco comuns utilizados na sua música, um dos seus principais factores distintivos:

 

 

Tudo por causa do indie rock

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No ano passado, o EP de estreia de Filipe PALAS tinha proposto um mergulho no rock depois de outras aventuras (algumas lá perto) com os Smix Smox Smux ou Máquina Del Amor. Mas "Dente de Leão" parece ter sido apenas o primeiro de novos capítulos que juntam uma escrita mais pessoal (e até mesmo confessional, sem abdicar do sentido de humor associado aos projectos anteriores) a um interesse acrescido pelas possibilidades das guitarras.

 

Numa altura de tantos regressos aos anos 90, não é má ideia revisitar a escola indie da altura e o cantor, compositor e guitarrista nortenho parece ter a lição bem estudada. As canções do novo EP, "CAUSA PERDIDA", não destoam ao lado dos ensinamentos de uns Pixies, Sonic Youth ou Sebadoh e a faixa-título apresenta um cartão de visita que não leva ninguém ao engano.

 

Colaboração com Graciela Coelho (vocalista dos Dear Telephone e cúmplice de White Haus), o tema arranca em modo melancólico, à medida do olhar sobre um relacionamento que esboça, antes de deixar as palavras de lado e abraçar um crescendo instrumental de riffs distorcidos. E acende o rastilho para uma história a retomar mais para o final do ano, com o lançamento de um primeiro álbum em nome próprio já garantido.

 

 

Um regresso e duas destruições

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Robert Alfons, AKA TR/ST, continua a ter um lugar à parte na synth-pop desta década e o terceiro álbum já aí está para o confirmar... ou metade dele, aliás. "The Destroyer - 1" traz as primeiras oito canções de um díptico com sequela prometida para Novembro, estratégia que o canadiano adoptou por considerar que um disco de 16 faixas pode ser demasiado para digerir de uma só vez na era do streaming.

 

Essa opção, no entanto, leva a que apenas três temas deste registo inicial sejam inéditos, uma vez que os outros tinham sido revelados nos últimos meses. De qualquer forma, já fazia falta um sucessor para "Joyland" (2014) e "TRST" (2012), que apresentaram a pop electrónica negra e dançável do cantor, compositor e produtor - e a nova colheita não desilude.

 

Entre os momentos mais atípicos do disco está aquele que foi também o primeiro avanço, "GONE", canção midtempo a sugerir uma aproximação ao registo baladeiro de uns Coldplay, felizmente não consolidada no resto do alinhamento. E se há uns meses se estranhou, agora até parece resultar melhor em "The Destroyer - 1", além de ser a primeira faixa do álbum a ter direito a videoclip - com Alfons em modo invariavelmente sombrio, embora sem recusar o convite à dança:

 

 

Pesadelo na sala de estar

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Ao longo de dois álbuns - o primeiro, homónimo, de 2014, e o sucessor, "Babes Never Die", de 2016 -, as HONEYBLOOD foram o resultado da colaboração entre Stina Tweeddale e outros elementos de um projecto que foi mantendo o formato de dupla, com entradas e saídas sucessivas. Mas o terceiro disco, "In Plain Sight", encontra a cantautora escocesa sozinha pela primeira vez, num conjunto de canções apresentado como tentativa de resolução do seu puzzle pessoal, a propor um mergulho de cabeça em territórios inesperados.

 

As amostras da nova fornada não se desviaram muito, ainda assim, do rock despachado e de contornos indie dos registos anteriores - não seria difícil imaginar os singles "The Third Degree" e "Glimmer" no primeiros álbuns. "SHE'S A NIGHTMARE", o tema mais recente, também não traz mudanças radicais de percurso mas revela-se uma pista mais promissora, com uma efervescência pop que se dá bem com as zonas de sombra de letra (e a remeter para o livro de estilo de umas Dum Dum Girls).

 

O relato inspira-se na combinação de medo e fascínio dos pesadelos recorrentes de Tweeddale, dominados por uma mulher misteriosa e assustadora. O videoclip acaba por ser o exorcismo possível, cedendo o protagonismo a uma aproximação a essa figura entre um ritual caseiro à luz das velas - e pode ser visto aqui. Os outros contos, tão ou mais autobiográficos, chegam já a 24 de Maio.