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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Reis e rainha

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Dos franceses Requin Chagrin ou Modern Men aos canadianos Automelodi, vários nomes da pop francófona actual têm reconhecido a influência dos veteranos INDOCHINE, sobretudo pelas possibilidades do cruzamento entre guitarras e sintetizadores desde a alvorada dos anos 80.

Héloïse Letissier, mais conhecida como CHRISTINE AND THE QUEENS, junta-se agora a essa lista ao colaborar com a banda parisiense numa nova versão de um dos seus clássicos. "3SEX", originalmente editada em "3" (1985), o terceiro álbum do grupo, é uma canção que faz a cantora francesa "querer ser livre", sobretudo num contexto em que "a palavra liberdade retoma todo o sentido e urgência", assinalou nas redes sociais.

Hino queer decidido a quebrar visões heteronormativas, nasceu em moldes new wave mas a releitura abraça a pop electrónica sem precisar de mudar uma letra que continua a fazer sentido em 2020. E é uma versão mais dançável do que a que Miss Kittin propôs há uns anos, no álbum "I COM" (2004), em modo minimalista. O videoclip junta o vocalista do grupo, Nicola Sirkis, à sempre agitada Letissier:

Rendida às evidências das alterações climáticas

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Tal como os álbuns anteriores de EMILY JANE WHITE, "Immanent Fire" (2019) é um belo disco para ouvir em casa, eventualmente num dia de chuva e a permitir que lhe dediquemos o tempo que merece. Talvez para nos lembrar disso, a cantautora norte-americana apostou em mais um tema do alinhamento para single, depois de amostras como "Washed Away".

O escolhido foi "SURRENDER", faixa de abertura do sexto longa-duração apresentado em Portugal em Fevereiro, num concerto que valeu a visita ao Salão Brazil, em Coimbra. Guiado pelo dedilhar da guitarra acústica e uma voz envolvente, deixa o convite para (re)descobrir mais uma colecção de canções de folk outonal e melancólica, desta vez com preocupações ecológicas entre os pontos de partida.

As consequências das alterações climáticas e em especial a vaga de incêndios nos EUA nos últimos anos acabam por assombrar o videoclip do novo single, filmado na zona costeira de Mendocino, localidade do norte da Califórnia onde White passou a infância. Realizado por Bobby Cochran, deixa uma crítica à cegueira e irresponsabilidade humanas, entre o metafórico e o literal, enquanto a câmara capta cenários naturais em tons sépia e etéreos. Mensagem recebida, álbum repescado:

Que esta inspiração não seque tão cedo

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Apostas musicais para 2021? A sempre atenta 4AD parece acreditar nos DRY CLEANING, tendo a banda britânica entre as contratações recentes e preparando-se para editar o seu álbum de estreia. Enquanto o disco não chega, o primeiro passo dá-se com "SCRATCHCARD LANYARD", que mantém firme a descendência da escola pós-punk já dominante nos EPs "Sweet Princess" (2018) e "Boundary Road Snacks and Drinks" (2019), testemunhos de vitalidade num género insistentemente repisado por conterrâneos e contemporâneos do quarteto londrino.

Tanto pelos conjuntos de canções iniciais como pelo novo single, os DRY CLEANING juntam-se aos Porridge Radio ou aos Sorry enquanto vozes a ouvir de uma nova geração do rock britânico, mérito dos relatos tão sardónicos como confessionais da vocalista, Florence Shaw, e de uma conjugação clássica de guitarra, baixo e bateria decidida a seguir um livro de estilo próprio. Entre o registo spoken work, com um fluxo de consciência que cola fragmentos de notas mentais, conversas de café, observações mundanas e tiradas do Twitter ou do Facebook, e a instrumentação tensa, que ganha voos ainda mais desopilantes ao vivo, há aqui uma consistência admirável já antes do desafio do primeiro longa-duração.

The Feelies ou os B-52's surgem entre as influências partilhadas pelo grupo, mas os Sonic Youth (sobretudo com Kim Gordon a tomar conta do microfone), Elastica ou Long Blondes serão outras pistas esclarecedoras desta identidade em construção, que também já se destaca visualmente. É ver o videoclip de "SCRATCHCARD LANYARD", estreia inventiva na realização da dupla de artistas britânicos Rottingdean Bazaar, ou a forma como a banda toma conta do palco na actuação para a KEXP, com um contraste deliberado entre o recolhimento da vocalista e a expansão dos músicos - os cabelos do baixista e do guitarrista são um espectáculo por si só, sobretudo no (tremendo) remate em espiral de "Conversation".

A caminho de um álbum brilhante

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Parece bem encaminhado, o quarto álbum dos DJANGO DJANGO. "GLOWING IN THE DARK" está previsto para 12 de Fevereiro e já tinha tido uma amostra aliciante em "Spirals", single que voltou a brilhar com uma remistura expansiva dos MGMT.

Mais dançável, o novo avanço para o sucessor de "Marble Skies" (2018) é precisamente a faixa-título e surge como uma luz de esperança para tempos difíceis, sinal de um disco motivado pela determinação de seguir em frente apesar de um contexto instável (em particular o político, com a situação actual do Reino Unido a ter algum peso na criação das novas canções).

David Maclean, produtor e baterista dos britânicos, diz que as outras inspirações para um dos temas mais electrónicos do grupo foram dos dias iniciais dos Prodigy à banda sonora do recente "Diamante Bruto", dos irmãos Safdie, assinada por Daniel Lopatin (AKA Oneohtrix Point Never). O resultado, no entanto, sugere antes o Beck da fase "Colors", o que também não é um mau ponto de chegada, até pelos tons garridos que passam pelo videoclip a cargo do ilustrador e designer gráfico português Bráulio Amado:

Pra cima de bruxa

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Dez anos depois de "The Family Jewels", uma das estreias mais reluzentes da pop da década passada, MARINA Diamandis recupera finalmente algum brilho perdido no (muito) decepcionante quarto álbum, "Love + Fear" (2019). "About Love", single editado em Fevereiro, fazia com que se continuasse a temer o pior, numa das canções mais anémicas da galesa de ascendência grega, com ares de sobra de um disco já de si pouco criterioso.

Felizmente, "MAN'S WORLD" inverte essa tendência num regresso mais fresco e consequente, mesmo não chegando a aproximar-se do gabarito dos primeiros tempos ou de "FROOT" (2015), o terceiro álbum. Ainda assim, acaba por lembrar a atmosfera deste último, simultaneamente etérea e imediata, e com um update lírico para a era #MeToo. Hino de empoderamento feminino contra o patriarcado, tem inspiração na perseguição às mulheres e a outras minorias, como a comunidade LGBTQ+, deixando alusões aos tempos de uma caça às bruxas literal ("Burnt me at the stake, you thought I was a witch/ Centuries ago, now you just call me a bitch").

Produzido a meias com Jenn Decilveo (Bat for Lashes, Hinds), conta com um videoclip assinado por outra mulher, Alexandra Gavillet, e protagonizado pela cantora ao lado de um grupo de bailarinos femininos e não binários, numa homenagem à Mãe Natureza, outro dos pontos de partida da canção ("Mother nature's dying/ Nobody's keeping score"). A escrita de MARINA já foi mais cáustica e afiada, e a sonoridade mais aventureira, mas ainda está aqui um passo na direcção certa rumo a um quinto álbum que, agora sim, desperta curiosidade: