Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O medo é um lugar estranho

Fear_of_Men_Mikael_Johansson.jpg

Do primeiro para o segundo álbum ("Loom", de 2014, e "Fall Forever", de 2016, respectivamente), os FEAR OF MEN foram abandondando a indie pop de travo twee que marcou a sua fase inicial (registada na compilação "Early Fragments", em 2013) ao optarem por ambientes mais densos e soturnos. E parece ser por aí que querem ir avançando até um eventual terceiro longa-duração, já que o novo single (e o primeiro novo tema em quatro anos) vem acentuar a carga gótica da dupla britânica.

"INTO STRANGENESS" deixa para trás de vez as heranças de uns Smiths, Sundays ou Camera Obscura enquanto condensa experiências de um período conturbado para Jessica Weiss, vocalista e mentora do projecto. A mudança de rumo mostra o duo de Brighton mais assombrado e enigmático do que nunca através de uma conjugação intrigante de cordas, sintetizadores, percussão e sopros embalada por um videoclip gravado em isolamento - com fotografia a preto e branco e atmosfera sinistra q.b..

Gritos surdos

Deafbrick.jpg

Em "I" (2019), o álbum de estreia dos PETBRICK, o brasileiro Igor Cavalera e o britânico Wayne Adams atiraram-se a uma mistura imponente de noise, industrial, metal e música de dança, que se revelou igualmente explosiva em palco - conforme a dupla demonstrou por cá num concerto no Musicbox Lisboa, em Janeiro.

Mas em vez de seguir caminho rumo a um eventual "II", o projecto do ex-baterista dos Sepultura e do músico dos Big Lad decidiu trocar as voltas. O próximo álbum já está confirmado e até gravado, só que nasceu de uma colaboração com outro nome que também tem apostado no contraste e diluição de géneros - e de forma tão ou mais intempestiva e visceral.

"Deafbrick", assim se chama o próximo disco, foi gerado a meias com os brasileiros DEAF KIDS, depois de um encontro em palco no ano passado - no Roadburn Festival, nos Países Baixos - que deixou vontade de explorar novos capítulos em conjunto. O resultado, avançam as bandas, é um concurso de gladiadores assente num tumulto punk/lisérgico com sintetizadores distópicos, entre "paisagens auditivas uniformemente revigorantes".

Agendado para 4 de Setembro, o álbum é bem capaz de vir a ser um dos maiores abanões sónicos da rentrée e tem avanço à medida em "FORÇA BRUTA", rastilho tão percussivo como distorcido:

Orgulhosamente juntos em dias de isolamento

Man_On_Man_Torres.jpg

Embora a pandemia do novo coronavírus tenha vindo reforçar as fragilidades laborais do sector artístico, o período de isolamento também acabou por servir de inspiração a criadores de várias áreas. E aos muitos casos que têm surgido nos últimos tempos juntam-se os dos MAN ON MAN e de TORRES, com novas canções e videoclips que ganham uma ressonância especial no Dia Internacional do Orgulho LGBTQI+, assinalado este domingo, 28 de Junho.

Projecto de Roddy Bottum (teclista dos Faith No More e membro dos Nastie Band e Imperial Teen) e do seu companheiro, Joey Holman (ex-elemento da banda alternativa cristã Cool Hand Luke), os MAN ON MAN editaram o seu primeiro single, "DADDY", durante o período de quarentena e preparam-se para lançar um álbum gerado em casa nos últimos meses.

A canção, que parte do encontro sexual de um homem com um parceiro mais velho, junta cumplicidade, atrevimento e sentido de humor a um crescendo de guitarras com heranças de algum rock alternativo -- e vincado por uma sensibilidade pop evidente. O videoclip, protagonizado pelo próprio casal de músicos, que surge quase sempre em roupa interior, é que não parece ter caído bem a responsáveis do Youtube, que o removeram durante várias semanas até o terem reposto recentemente. Mas é difícil encontrar algum aspecto ofensivo num retrato que, conforme descreve a dupla, celebra o amor durante o confinamento - e com a particularidade de se afastar de uma representação estereotipada de um casal homossexual.

Não é mais um vídeo com homens "bonitos, jovens e depilados", assinalou Bottum em entrevista à Rolling Stone, e nem se esperaria que quem instigou Mike Patton a cantar sobre sexo oral gay de forma declaradamente despudorada fosse por aí (na distante "Be Aggressive", dos Faith No More, em 1992, um ano antes de o teclista assumir publicamente a sua homossexualidade).

"TOO BIG FOR THE GLORY HOLE", o novo single de TORRES, segue um caminho completamente diferente, apesar de o título sugerir outro relato espirituoso ou libidinoso. A canção é uma das que ficaram de fora de "Silver Tongue", o álbum mais recente de Mackenzie Scott, editado em Janeiro. E tal como alguns temas do alinhamento do disco (um dos melhores da norte-americana), nasceu da sua relação com a artista visual Jenna Gribbon.

Balada conduzida pela voz dolente da cantautora entre teclados e sintetizadores minimalistas, inspira-se na fase em que o casal decidiu partilhar casa e disse adeus a uma rotina solitária, o que ajuda a explicar o cenário doméstico de um videoclip feito a meias: Scott é a protagonista, Gribbon filmou-a num iPhone. Mais uma quarentena produtiva, portanto:

E depois do adeus ao shoegaze?

No_Joy.jpg

Quando editaram o álbum de estreia, "Ghost Blonde", há dez anos, os NO JOY revelaram-se discípulos fiéis de um shoegaze com passagens pelo noise e drone, num conjunto de canções que também integrou ecos do rock alternativo de inícios dos anos 90. Mas os discos sucessores, "Wait to Pleasure" (2013) e "More Faithful" (2015), foram alargando progressivamente a paleta de influências, que acolheu mais heranças do que as dos My Bloody Valentine, Slowdive ou Sonic Youth.

"Motherhood", o quarto longa-duração, agendado para 21 de Agosto, segue esses passos e é apresentado como o mais expansivo dos canadianos. Por um lado, pelo reforço electrónico, que já tinha vindo a ser cada vez mais pronunciado no som do grupo de Montreal, inicialmente dominado pelas guitarras; por outro, porque a revisitação do shoegaze e da dream pop já não está necessariamente nas prioridades do alinhamento. A colaboração com Sonic Boom (Peter Kember, ex-Spacemen 3) num EP, em 2018, ou a partilha de palcos com nomes como os Quicksand ou Baths terão ajudado a abrir portas para um disco mais exploratório - e com vontade de combinar traços do trip-hop, do trance ou até do nu-metal.

Jasamine White-Gluz, a vocalista e compositora principal, diz ter sido especialmente inspirada por álbuns dos Massive Attack ou Sneaker Pimps, mas para já a entrada em "Motherhood", feita com cruzamentos de melodia e distorção em registo etéreo nos singles "BIRTHMARK" e "NOTHING WILL HURT", lembra mais os anos 90 de uns Curve (a aproximação vocal à saudosa Toni Halliday ajuda). E também não anda longe das aventuras mais recentes de Tamaryn ou I Break Horses (igualmente regressados este ano). Venham agora os próximos capítulos de uma expansão sónica que começa bem: