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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma história de capa e guitarra

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"In Plain Sight" (2019), o terceiro álbum das HONEYBLOOD, foi o primeiro da antiga dupla criado apenas por Stina Tweeddale, depois de a escocesa ter passado a ser o único elemento do projecto. E não se saiu nada mal, num dos bons discos de guitarras (e sintetizadores ocasionais) dos últimos tempos, que recua a algum rock alternativo dos anos 80 e 90 sem deixar de fazer sentido no presente. 

O novo single, "GIBBERISH", nem está entre os picos do alinhamento, mas é um exemplo da eficácia pop (com distorção q.b.) que a escrita de Tweeddale também possui, aqui ao serviço de uma canção curta e acelerada que parte de inquietações sobre verdade e manipulação.

A cantora diz ter-se inspirado nos absurdos do contexto político actual, embora o videoclip leve os temas de representação e ilusão para a história da sua própria obra, num jogo de efeitos com a capa do álbum mais recente. Mas este não é o único vídeo onde poderemos vê-la por estes dias, já que Tweeddale tem sido uma das artistas com actuações online regulares nas suas redes sociais - quase sempre sozinha e às vezes com convidadas além da guitarra, enquanto a quarentena vai limitando outros palcos.

Perseguida pelo passado

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O primeiro álbum de JAVIERA MENA, "Esquemas juveniles" (2006), já sugeria que a chilena tinha um interesse particular pela synthpop e por alguma música surgida nos anos 80. E os discos que se seguiram só vieram acentuá-lo, mas souberam como fugir ao apelo da nostalgia para irem definindo um caminho personalizado em vez de um decalque.

O quinto longa-duração, sucessor de "Espejo" (2018), ainda não tem data de lançamento, mas deverá estar pronto algures em 2020 e vai juntar a cantora a vários produtores, como tem acontecido até aqui, numa atmosfera mais nocturna que terá o desejo como fio condutor. A electropop mantém-se como o ingrediente principal e o resultado deverá ser (ainda) mais dançável, como também já adiantou a artista radicada em Madrid - cidade onde protagonizou um dos grandes concertos do ano passado.

O sueco Stefan Storm, elemento dos The Sound of Arrows, é um dos os nomes convocados para a produção e colabora no primeiro single, "FLASHBACK", amostra com inspirações da música de dança francesa e a confirmar que a chilena continua com um lugar próprio na pop latina actual (sem precisar de ser mais uma a aderir ao reggaeton, apesar do desvio ocasional de "Intuicíon", ao lado de El Guincho). O videoclip, de estética retrofuturista, é em parte uma homenagem ao clássico manga "Akira", de Katsuhiro Otomo, mas também mostra a cantora tão à vontade no palco como na discoteca. Venha o flash forward:

Corpo eléctrico (e electrónico)

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Está mais electrónica do que nunca, a pop dos THE IRREPRESSIBLES. Se em "Mirror Mirror" (2010) e "Nude" (2012) o projecto de Jamie McDermott recorria aos sintetizadores como complemento de canções orquestrais e melancólicas, influenciadas pela música clássica e alguma folk, o terceiro álbum troca o recolhimento pela libertação nas pistas.

"Superheroes" só chega a 29 de Março, mas o cantautor britânico confirma que é o mais influenciado pela música de dança, em parte devido à temporada que passou em Berlim nos últimos anos.

A capital alemã também serve de cenário à história que se contará num álbum conceptual: a de um rapaz que se apaixona por outro, inspirada na adolescência de McDermott e que fará a ponte com questões ligadas à saúde mental ou a conceitos de masculinidade. Não são temas inéditos numa discografia que tem abordado relacionamentos LGBTQ, mergulhando tanto no desejo e na cumplicidade como na homofobia ou no bullying. 

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Essa exploração vai da música às imagens: "Submission", um dos primeiros singles de "Superheroes", conjugou conflitos emocionais e físicos num videoclip ambíguo. Já o novo avanço, "LET GO (Everybody Move Your Body Listen to Your Heart)", mostra uma faceta mais optimista através de um relato de sedução e auto-descoberta, repetindo a colaboração com o norte-americano Jon Campbell na voz e o turco Savvas Stavrou na realização.

O videoclip é facilmente o mais festivo do percurso dos THE IRREPRESSIBLES, mesmo que, tal como a música, arranque em modo robótico antes de se render à euforia dançável. Também é o melhor tema do terceiro álbum revelado até agora (os anteriores, que incluem faixas do disco e lados B, podem ser ouvidos na playlist acima) e dá a entender que teve alguma influência das colaborações de McDermott com os Röyksopp e Rex The Dog, ao apostar num formato synth-pop que atinge o ponto de rebuçado na segunda metade.

Curiosamente, embora o videoclip tenha sido pensado como um apelo contra a homofobia internalizada, as imagens (sobretudo as finais) tornam-se bem mais transgressoras em tempos de coronavírus. Dancemos em casa, então:

A cada um a sua estreia

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Percussionista dos Son Lux e Landlady, IAN CHANG também já emprestou os seus talentos a discos ou concertos de gente como Matthew Dear, Joan As Policewoman ou Moses Sumney. Mas uma das colaborações mais recentes deu-se em "Adult Baby" (2019), o primeiro disco a solo de Kazu Makino (vocalista dos Blonde Redhead), do qual o músico de Hong Kong radicado nos EUA foi parte importante.

Este ano, a cantora japonesa retribui o gesto ao ser uma das convidadas do álbum de estreia do baterista em nome próprio, que também conta com as vozes de Hanna Benn e Kiah Victoria, embora seja maioritariamente instrumental. A parceria resultou em "AUDACIOUS", o tema de avanço de "属 Belonging", disco esperado para 24 de Abril, e mostra CHANG a aproximar-se do formato canção depois da vertente mais experimental do EP "Spirital Leader" (2017), com ambientes abstractos entre a IDM e o free jazz.

Mas apesar de ser mais imediato e melódico do que parte da obra do seu autor, o single mantém-se próximo da pop esquizóide associada à vocalista, num exercício percussivo e electrónico que abre caminho para um álbum inspirado pelo encontro entre o maquinal e o humano - e com inspirações assumidas de discos de Björk, Burial ou Flying Lotus. Começa bem, e só é pena que as novas canções não devam passar pelos palcos tão cedo (exceptuando os virtuais, em tempos de coronavírus), já que ao vivo a música de CHANG ganha outro peso e trepidação (com provas deixadas em portentos virtuosos como "Quarry" ou "Spiritual Leader"). Ficamos, por agora, com o novo videoclip, a propor uma jornada audaciosa longe do mundo físico:

Um amor de juventude

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Já vai longa a espera por um novo álbum dos BRAIDS - "Deep In the Iris", o mais recente, saiu em 2015. Mas não vai ser preciso esperar muito mais por "Shadow Offering", o quarto álbum dos canadianos, agendado para 24 de Abril (produzido por Chris Walla, dos Death Cab for Cutie). E alguma canções até já foram chegando.

Primeiro foi "Eclipse (Ashley)", single atmosférico e nostálgico conduzido pelo piano e pela voz de Raphaelle Standell-Preston. Não sendo um mau começo, estava talvez demasiado encostado à memória de uns Cocteau Twins (o que não é caso único em boa parte da indietronica dos últimos anos).

"YOUNG BUCK", o segundo avanço, não parece carregar tanto o peso de uma influência óbvia enquanto deixa pistas mais vitaminadas e estimulantes. Também ajuda que mostre um lado  descontraído de uma banda que às vezes se leva demasiado a sério. Depois de ter deixado um relato feminista e assertivo em "Miniskirt", há uns anos, a vocalista entrega-se aqui ao apelo do desejo, sedução e obsessão, numa ode à beleza e à juventude temperada por algum humor. E oferece um rebuçado de pop electrónica com refrão forte e ritmo infeccioso, servido por um videoclip com energia e descontrolo hormonal a condizer: