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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

St. Vincent ou St. Vintage?

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Novo álbum, nova reinvenção. Depois de se ter deixado seduzir pela electropop e pela new wave no surpreendente "Masseduction" (2017), ST. VINCENT mergulhou num caldeirão funk, glam e soul durante o processo criativo de "Daddy's Home". O sexto disco de Annie Clark chega já esta sexta-feira, dia 14 de Maio, e tem inspiração directa na cena nova-iorquina dos anos 70, com parte do conceito a derivar também da saída do pai da cantora da prisão, em 2019.

Produzido pela norte-americana juntamente com Jack Antonoff, que já tinha sido cúmplice do registo anterior, o álbum foi apresentado pelo embalo sintético de "Pay Your Way in Pain", a fazer uma vénia óbvia a "Fame", de David Bowie, ao qual se seguiu a mais psicadélica "The Melting of the Sun".

O terceiro single, "DOWN", é um sucessor enérgico do primeiro, com um crescendo que junta guitarra, percussão, teclados ou coros a palavras confiantes e combativas. A estética também recua cinco décadas no videoclip, realizado por Clark e Bill Benz, no qual a autora encarna uma espia de um thriller da época, com direito a fotografia granulada e imperfeições intencionais na imagem:

De uma colaboração a um retrato da solidão

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BOYS NOIZE e JAKE SHEARS já não colaboravam desde 2012, ano da edição de "Magic Hour", o quarto e último álbum dos Scissor Sisters, do qual o DJ alemão foi um dos produtores. Depois disso, tinham criado um tema ouvido numa festa caseira do vocalista da banda, mas ainda numa versão demo e esquecido durante anos... até que BOYS NOIZE acabou por encontrar o disco onde estava guardado e voltou a trabalhá-lo.

"ALL I WANT" deve menos à house francesa que inspirou boa parte das produções de Alex Ridha e tem antes raízes na house de Chicago, com a batida metronómica e a voz em registo spoken word a fazerem a ponte entre 2021 e finais dos anos 80. A canção devolve Shears a ambientes electrónicos, regresso já sugerido pela explosiva "Meltdown" depois de um álbum de estreia homónimo mais contido e a explorar outros territórios.

Mas embora seja um single eficaz para as pistas, "ALL I WANT" arrisca-se a ficar ofuscado pelo videoclip, realizado por Dan Streit (Charli XCX, Mac DeMarco), que propõe um retrato simultaneamente satírico e melancólico da obsessão pelo corpo e pela imagem, entre a busca pela perfeição impulsionada pelas redes sociais e um dia a dia solitário. Aguardemos as remisturas, já garantidas e a cargo de Purple Disco Machine, de DJ Tennis e do próprio BOYS NOIZE, numa versão NRG.

Venham mais destas, por favor

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Sabe-se lá o que terá levado JESSIE WARE a deixar uma canção como "PLEASE" fora do seu álbum mais recente, "What's Your Pleasure?" (2020). Mas pelo menos não ficou esquecida na gaveta, já que esta sobra foi promovida a novo single da britânica e é uma das seis faixas extra da edição deluxe do seu quarto longa-duração, que deverá chegar nos próximos meses.

"PLEASE" não fica a dever muito a rebuçados pop como "Spotlight" ou o tema homónimo do álbum e vem confirmar o que já se sabia: que esta é, de longe, a fase mais entusiasmante da sua autora desde os dias da estreia, "Devotion" (2012). Tal como a maioria da colheita recente, resultou da colaboração com James Ford (metade dos Simian Mobile Disco) e contou também com Shungudzo e Danny Parker na composição, equipa que parece querer continuar a atirar a cantora para a pista de dança.

O resultado deriva da faceta mais borbulhante de "What's Your Pleasure?" e vai beber tanto ao disco como à acid house, com uma energia "cheia de optimismo", nas palavras de WARE, e "pronta a ser tocada num espaço onde possamos estar juntos e flertar, dançar, tocar e beijar". O videoclip dá o mote e reforça as inspirações de inícios dos anos 90, da estética VHS a bailarinos vestidos a rigor para uma festa que não destoaria na nova temporada da série "Pose", ambientada nos balls nova-iorquinos dessa época:

Na cama com Birkin (e Daho)

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Mais de meio século depois de "Jane Birkin/Serge Gainsbourg" (1969), álbum tão histórico como controverso, "OH! PARDON TU DORMAIS..." chegou de forma bem mais discreta no final de 2020. Ao contrário dos primeiros discos de JANE BIRKIN, o mais recente não despertou grande atenção fora de portas, mas ainda vale a pena seguir o rasto desta britânica há muito habitué de Paris.

Aos 74 anos, a cantora que também se tornou compositora, realizadora, modelo e actriz regressou com o primeiro registo de originais desde "Enfants d'Hiver" (2008), nascido num dos seus períodos mais amargos: o que sucedeu ao suicídio de uma das filhas, a fotógrafa Kate Barry, em 2013 (morte que também ressoou no disco mais recente de Charlotte Gainsbourg, meia-irmã desta).

BIRKIN tem dito que "OH! PARDON TU DORMAIS..." só foi possível graças ao apoio de Etienne Daho, um dos cúmplices criativos de um alinhamento que também deve muito à colaboração do multi-instrumentista Jean-Louis Piérot. A parceria musical impediu que a britânica se entregasse à melancolia e à inércia numa fase de luto e o resultado foi um álbum que a mostra uma intérprete ainda carismática e insinuante enquanto continua a desenvolver a vertente de escritora de canções.

O disco partilha o título com o telefilme realizado pela própria, juntamente com Christine Boisson e Jacques Perrin, em 1992, e com a peça de teatro encenada por Xavier Durringer, em 1999. Mas se esses tinham o universo conjugal como ponto de partida, o olhar musical é mais amplo, até porque surge, lá está, inevitavelmente marcado pela experiência da perda e do envelhecimento.

Apesar da gravidade evidente, "OH! PARDON TU DORMAIS..." está longe de ser um álbum sisudo, articulando ambientes elegantes e sumptuosos com uma voz que continua a parecer cantar-nos ao ouvido, entre heranças que vão de antigos companheiros e colaboradores como Serge Gainsbourg ou John Barry (pai de Kate) à escola de Kurt Weill. Passando, claro, por Etienne Daho, com quem a autora partilha o protagonismo no novo single, precisamente a faixa-homónima. A dupla, que já colaborou várias vezes no passado, volta a juntar-se no videoclip, realizado por BIRKIN e a tornar literal a conversa de cama.