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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Teremos sempre Paris (ou pelo menos por uns dias)

No arranque da digressão nacional, LIA PARIS trouxe as canções de "MultiVerso" ao Musicbox, em Lisboa, na passada sexta-feira, e confirmou o que o álbum já sugeria: esta é uma das novas vozes da música brasileira a ouvir.

 

Lia Paris no Musicbox.jpg

 

Não foi um concerto particularmente concorrido, e o facto de ter coincidido com um dos dias do Super Bock Super Rock não terá ajudado a chamar mais do que poucas dezenas de pessoas. Mas a cantautora paulista defendeu bem, ainda assim, as cores do seu segundo disco, que como o título deixa antever são muitas e variadas.

 

Ao contrário do álbum de estreia homónimo, de 2015, que não se desviava de um pop-rock directo e garrido (Adriano Cintra, ex- Cansei de Ser Sexy, contribuiu para o carisma na produção), o recente "MultiVerso" alarga os horizontes de LIA PARIS, depois de o EP "Lva Vermelha" (2016) já ter apostado noutras texturas ao lado de Daniel Hunt, dos Ladytron, instigador de uma faceta dream pop - que regressa, também com créditos do produtor britânico, no final do novo disco na encantatória "A Roda".

 

Iniciando a actuação com o primeiro single do álbum, "Coração Cigano", a brasileira disse logo ao que vinha. "Vou enfeitiçar você", cantou, e conseguiu manter esse efeito durante boa parte da hora que se seguiu. Se o público pouco numeroso levou a que interacção fosse mais limitada do que noutras noites de sexta-feira, sobretudo durante a primeira metade do concerto, e a própria postura de LIA PARIS foi algo contida no arranque, nem por isso este deixou de ser um espectáculo suficientemente envolvente.

 

Lia Paris Musicbox.jpg

 

Ao lado de dois músicos, no baixo e percussão, a cantora e (ocasionalmente) guitarrista foi revelando o que torna "MultiVerso" um registo de viragem, tendo nascido, como explicou, durante e digressão do EP anterior. A Islândia, onde foi gravado o videoclip de "Coração Cigano" ("quase morri de frio mas o resultado ficou muito bonito", assinalou), foi um dos territórios inspiradores, tal como a Andaluzia. "Tenho a sensação de estar ligada a este local", disse a propósito da região espanhola que esteve na origem de "Andaluz", balada radiofónica sem precisar de ser anódina.

 

Menos memorável, "Crossing Sunsets" mostrou-a a cantar em inglês, próxima de alguma blue-eyed soul, mas a noite foi mais urgente e intrigante em momentos como "Nosso Trato", "uma das canções do disco mais gostosas de dançar", sublinhou. "Foi produzida pelo Spaniol, que misturou ritmos da Amazónia com electrónica", acrescentou ao apresentar um tema com sintetizadores sombrios, a lembrar alguns ambientes dos The Knife. A faceta fria a nórdica manteve-se em "Inocente Violência", que a cantora disse ter sido inspirada em poemas de um jovem dinamarquês - e tiveram direito a moldura sonora entre o trip-hop e o dubstep, noutro episódio sedutor.

 

Mais caloroso, o embalo de "Tropical" propôs um baile entre África e a América do Sul e resultou naquele que foi, de longe, o tema mais celebrado, com grande parte do público a aderir à dança. A atmosfera também se tornou mais festiva nas ocasiões em Rodolfo Krieger, músico dos Cachorro Grande, subiu a palco para se juntar à banda na guitarra, como no diálogo amoroso ritmado de "Meus Caminhos".

 

Lia Paris tour.jpg

 

Entre as canções mais aplaudidas ficaram ainda as segundas doses de "Coração Cigano" e da belíssima "Noite", singles repetidos no final do concerto, numa espécie de encore que não obrigou a saídas e regressos. A muito "ladytronica" "Laos", resgatada de "Lva Vermelha", foi outra com direito a repetição, a pedido de um espectador que a tinha perdido no início. "Chegou atrasado, hein? Isso é coisa de paulista", brincou a cantora (e sim, era um admirador de São Paulo).

 

Talvez não tivesse sido má ideia aproveitar esse último segmento para recuperar mais canções do EP ou do disco de estreia (apesar de o alinhamento ter incluído "Três Vulcões" com uma nova mistura). Mas ninguém pareceu muito incomodado, antes pelo contrário: as canções até ganharam uma adesão reforçada à segunda. Missão cumprida, portanto, e sem precisar de grande aparato cénico (o que não invalidou um trabalho de iluminação minucioso), num início seguro de uma digressão que entretanto passou pela Casa da Música, no Porto (no sábado) e pelo Texas Bar, em Leiria (no domingo). Quem não viu, ainda vai a tempo do concerto no Anfiteatro Montargil, em Ponte de Sor, dia 26 de Julho - com entrada livre - ou de ouvir "MultiVerso" já aqui em baixo:

 

 

3/5