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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um disco para respirar enquanto saímos da caverna

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De uma alegoria de Platão recontextualizada à rejeição dos lemas de Bolsonaro, da introspecção espiritual à revolta política, dos ritmos da tradição brasileira à exploração electrónica. Foi a partir destes e de outros contrastes e cruzamentos que Larissa Conforto chegou a "GRATITREVAS", o seu EP de estreia enquanto ÀIYÉ, depois de ter feito parte dos Ventre durante seis anos e de ter sido produtora artística de álbuns de Chico Buarque ou Gilberto Gil.

Gravado entre o Brasil, França e Portugal, é um disco cosmopolita mas que não perde o norte, sobretudo num discurso que assimila a faceta activista da cantautora, produtora e multi-instrumentista carioca de raízes amazónicas.

"Os mitos caem por terra, um após o outro, quando encontram a verdade", ouve-se em "O MITO E A CAVERNA", ponto alto do alinhamento e hino à resistência que condensa as tensões de um mundo assombrado por fake news e novas ameaças fascistas. Colaboração com Vitor Brauer a meio caminho entre o spoken word e o hip-hop, expõe a vertente mais aguerrida de um registo tendencialmente contemplativo. E o videoclip molda-se a essa tensão num zapping virtual que junta os incêndios da Amazónia, a corrupção judicial, a vulnerabilidade da cultura indígena ou um apelo feminista.

Já o novo single acaba por ser mais representativo da atmosfera que domina "GRATITREVAS". Com ecos do trip-hop e do downtempo em clima tropical, "PULMÃO" é um tema que pede para "respirar, acalmar, esvaziar", sobretudo depois de um período de isolamento social e de "muitos furacões, muita ansiedade, muita instabilidade", descreve Larissa Conforto. Talvez por isso o videoclip tenha sido filmado entre cenários naturais do Alentejo e Vale do Tejo, explorando referências da videoarte num ritual libertador com guarda-roupa da instalação-performance "Nós Enredamentos, Entretecidos Despojos", apresentada pela portuguesa Janis Dellarte no Jardim Botânico de Lisboa. Respiremos, então, através de uma voz da nova música brasileira a acompanhar: