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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma família japonesa, uma dupla de culto e o astronauta melancólico

Estreia da semana? "SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES", o novo filme de Hirokazu Koreeda. Mas além do drama muito elogiado do realizador japonês, ficam também duas sugestões em cartaz há algum tempo: uma entre as apostas mais arriscadas da temporada, outra das mais aguardadas do ano.

 

Shoplifters

 

"SHOPLIFTERS: UMA FAMÍLIA DE PEQUENOS LADRÕES", de Hirokazu Koreeda

 

Por um lado, o último filme de Hirokazu Koreeda não acrescenta nada de particularmente novo à sua obra, cuja fase mais recente (e mais popular) já conta com vários exemplos de dramas familiares (do emblemático "Ninguém Sabe" a "Tal Pai, Tal Filho"). Por outro, é bom ver aquele que será talvez o principal realizador japonês do momento regressar ao que sabe fazer melhor depois de "O Terceiro Assassinato", viragem para o thriller pouco entusiasmante que parecia encontrá-lo fora do seu ambiente (e que também chegou às salas nacionais este ano).

 

Sem se aventurar por rumos inesperados, "Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões" volta a valer-se das qualidades associadas aos seus melhores filmes, com uma direcção de actores certeira (a imprimir uma espontaneidade invulgar) e um tom observacional que tanto acolhe o drama como a comédia, esquivando-se à manipulação e ao gag gratuito num relato do quotidiano familiar em ambiente tendencialmente caseiro.

 

Das cenas ancoradas nos pequenos roubos que inspiram o título à revelação (paciente) das ligações entre os protagonistas, Koreeda vai desenvolvendo um olhar sobre o amor e a cumplicidade que acaba por questionar as fronteiras que delimitam o conceito de família - às vezes de forma demasiado sublinhada, mas igualmente desarmante. E sabe como comover tanto nas sequências de partilha como nas de uma solidão retratada sempre com justeza e a serenidade possível, ainda que nem sempre agarre o ritmo narrativo com o mesmo equilíbrio - a recta final acaba por se mostrar algo arrastada, apesar de a última cena ser tão brilhante como implacável. A Palma de Ouro na mais recente edição do Festival de Cannes não foi mal entregue, portanto.

 

3,5/5

 

O Interminável

 

"O INTERMINÁVEL", de Aaron Moorhead e Justin Benson

 

O culto em torno de Aaron Moorhead e Justin Benson já começou há uns anos mas só agora chega a Portugal, uma vez que nem "Resolução Macabra" (2012) nem "Spring" (2014) tiveram direito a estreia comercial por cá - e as curtas metragens que o duo também assinou, muito menos.

 

Além de realizarem este híbrido de drama e ficção científica, os norte-americanos são protagonistas e produtores - Benson encarrega-se ainda o argumento - e essa dedicação é evidente num filme com uma aura particular de "labour of love", no qual os meios parcos não comprometem (aliás, até parecem encorajar) a profusão de ideias. E não faltam conceitos intrigantes nesta história de dois irmãos que escaparam de uma seita no interior dos EUA, durante a adolescência, e decidem regressar ao local já na idade adulta, procurando respostas que o espectador vai conhecendo em simultâneo.

 

Se a primeira metade do filme sugere traumas nascidos de possessões macabras ou invasões extraterrestres, a segunda encontra a dupla a afastar-se de lugares comuns rumo a territórios inclassificáveis q.b., numa das propostas mais arrojadas da temporada (tanto a nível narrativo como formal, com efeitos especiais lo-fi capazes de ofuscar muito CGI avultado). Só é pena que parte da tensão se esbata quando o argumento prefere ir dando mais espaço ao humor, nem sempre muito conseguido ou oportuno, diluindo a força de um exercício de suspense personalizado como poucos. Mas fica claro que Moorhead e Benson são nomes a ter debaixo de olho - e fica também a vontade de espreitar os filmes que estão para trás.

 

3/5

 

O Primeiro Homem na Lua

 

"O PRIMEIRO HOMEM NA LUA", de Damien Chazelle

 

Depois da garra de "Whiplash - Nos Limites" e da ligeireza de "La La Land: Melodia de Amor", Damien Chazelle parece confundir dolência (e alguma auto-indulgência) com maturidade no biopic de Neil Armstrong. Se é verdade que este retrato do primeiro astronauta a pisar a Lua é imune aos excessos glorificadores que contaminam tantos outros baseados em histórias verídicas e marcantes, essa contenção não chega para justificar as mais de duas horas que o jovem realizador norte-americano reclama para seguir os treinos e missão do seu protagonista.

 

Tecnicamente competente, e com uma atenção ao pormenor que agradará aos mais interessados por viagens espaciais, este não deixa de ser um drama de câmara tão ensimesmado como o desempenho de Ryan Gosling, num papel pouco desafiante e a encorajar mais um exemplo de underacting (ou apenas de um olhar pouco expressivo). No extremo oposto, Claire Foy tenta injectar algum rasgo à mulher do protagonista, uma das vozes mais críticas desta aventura histórica, mas a dinâmica do casal não foge muito à de outros onde o trabalho limita a relação. E como os restantes secundários ficam por explorar, o centro emocional do filme acaba por ser o luto de uma filha, para o qual Chazelle também não chega a ter uma perspectiva especialmente forte ou intrigante. Um grande passo para a humanidade, um biopic demasiado comedido...

 

2/5